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Discurso na abertura da Reunião de Chanceleres da América do Sul e dos Países Árabes - Brasília, 9 de maio de 2005
Gostaria, em primeiro lugar, de dizer da grande satisfação do Governo brasileiro e também – creio que assim o posso fazer – em nome dos Governos da América do Sul que aqui estão representados, de receber os Ministros dos Países árabes. É claro que, para o Brasil, a satisfação é dupla, pois, além de estarmos recebendo os nossos irmãos latino-americanos, estamos também recebendo nossos irmãos do Mundo árabe. Esta reunião tem já uma história, que data de meados de 2003, quando o Presidente Lula ainda se preparava para visitar alguns países árabes e teve a idéia de que seria algo importante que nós, como regiões, nos conhecêssemos melhor. O Presidente fez uma primeira visita a cinco países árabes e, nessa visita, expôs pela primeira vez a intenção de realização desta cúpula. Em paralelo, os nossos contatos na América do Sul se desenvolviam, o Mercosul se aprofundava, a América do Sul como um todo começava a tecer laços mais profundos de cooperação.
Em nossa região, firmamos acordos de livre comércio entre todos os países da América do Sul, pode-se dizer, de tal modo que hoje, basicamente, existe uma área de livre comércio da América do Sul. É claro que é ainda um avanço em duas ou três velocidades. Nós temos o Mercosul, mais profundo em certo sentido, porque é uma união aduaneira, como também o é a Comunidade Andina. E temos a América do Sul, com uma área de livre comércio. Isto, no terreno econômico. No terreno político, também avançamos. Na prática, antes de termos escolhido qualquer nome para esse fenômeno, já estávamos criando uma Comunidade SulAmericana de Nações, pois, ao mesmo tempo que alguns países da América do Sul não-membros do Mercosul a ele se associavam por meio de acordos de livre comércio – e, portanto, passavam a integrar o que nós chamamos de “o Mercosul político” –, alguns dos nossos países também passavam a se entender como membros, ainda que associados, da Comunidade Andina. O que eu quero dizer com isto é que este processo de integração sul-americana e o de aproximação com o mundo árabe são dois processos que se passaram praticamente de forma simultânea. E é esta reunião que nós mantemos aqui – com os nossos presidentes, monarcas, primeiros-ministros, membros de família real e seus representantes, aqui amanhã – a primeira ocasião em que a Comunidade Sul-Americana terá uma reunião para fora. Nós temos tido por enquanto, América Latina e Caribe, reuniões com a União Européia. No âmbito hemisférico, temos tido também reuniões que dizem respeito ao conjunto da América Latina e Caribe. Mas, enquanto América do Sul, uma Comunidade que recém nasceu em Cuzco, no Peru, esta é a primeira reunião, é o primeiro evento.
Nós nascemos, de certa maneira, com o compromisso político de levar adiante a nossa integração e de levar adiante a nossa cooperação com o mundo árabe, mas também, de certa maneira, sob a benção – se é que posso usar essa expressão; não sei como ela se traduziria em árabe – também do mundo árabe, que tanta influência teve na evolução da nossa cultura, da nossa civilização, da nossa gente. Quando eu falo da nossa cultura – vejo aqui a Leila Rachid, mas é apenas um exemplo, talvez o mais bonito, o mais belo aqui presente, a Ministra do Paraguai –, da nossa civilização, da nossa gente, não me estou referindo apenas ao Brasil, não me estou referindo apenas ao Mercosul, estou me referindo ao conjunto da nossa região sul-americana. Gostaria até de sugerir, para aqueles que encontrarem quinze minutos de tempo, que visitem uma exposição aqui no Centro Cultural Banco do Brasil – aqui em Brasília, tudo é perto; o meu colega, Sua Alteza da Arábia Saudita, se queixava um pouco de não fazermos a reunião no Rio de Janeiro; uma das vantagens de fazermos esta reunião em Brasília, além de ser uma homenagem a um amigo da Argélia, que é o Oscar Niemeyer, é de tudo ser perto – de fotografias sobre a herança árabe na América do Sul, influência que vem da Península Ibérica, que atravessou e se fez presente nas nossas línguas, nas nossas culturas, nas nossas músicas, na nossa culinária, mas que se consolidou e se desenvolveu mais ainda com a imigração dos últimos 150 anos. Quando falamos e apoiamos o diálogo de civilizações ou aliança de civilizações, no nosso caso é preciso ter presente que há quase um entrelaçamento de civilizações.
Esse entrelaçamento de civilizações se faz sentir – vocês terão uma pequena mostra disso nessa exposição fotográfica, porque ela abrange quase todos os países do nosso continente – no dia-a-dia, no nome das pessoas, nas coisas que elas comem, nas músicas que elas cantam, na nossa arquitetura. É uma proximidade muito grande e que estava um pouco ocultada, não por nenhuma barreira propriamente física, mas pela incapacidade que até hoje havíamos demonstrado de nos olharmos frente a frente. Eu acho que este é o sentido principal desta Cúpula: sermos capazes de nos olharmos diretamente, desenvolvendo as nossas ligações aéreas, desenvolvendo as nossas ligações marítimas. Estando aqui presentes os nossos homens e mulheres de negócio, estando presentes os nossos artistas, do cinema, da dança, da música, das artes plásticas, tudo isso além da filosofia da tolerância que já nos inspirou muito, que se manifestou de maneira clara na Península Ibérica, nos anos em que lá estiveram também os nossos irmãos árabes. Eu diria que o sentido desta Cúpula é esse, uma reaproximação simbolizada neste logo que inclui o Crescente e o Cruzeiro do Sul, esses dois símbolos tão fortes de nossas duas regiões. É uma aproximação cultural, é uma aproximação espiritual, mas ela também terá resultados práticos. Hoje mesmo foi inaugurado um seminário empresarial e lá estava, entre outros, a Leila Rachid, outros ministros brasileiros, outros ministros de outros países sul-americanos e árabes.
Lá se inscreveram 1.200 empresários. Eu me recordo de poucos eventos dessa dimensão no Brasil em termos empresariais. Desses 1.200, 250 dos inscritos eram árabes, 300 eram de outros países sul-americanos e os restantes eram brasileiros. Só isso já demonstra o grande interesse, o grande potencial da nossa relação. Nós teremos, evidentemente, algumas tarefas pela frente de natureza prática para essa reunião. Tratarei delas depois que a imprensa se for. Mas, antes de passarmos à aprovação da agenda e aos demais itens que nos trazem aqui para a preparação da Cúpula, gostaria de oferecer a palavra ao meu colega Abdel Aziz Bel Khadem, Ministro de Estado Representante Pessoal do Presidente da Argélia, que tão bem nos acolheu em Argel recentemente, na Cúpula dos Países Árabes, que, juntamente comigo e com o Ministro marroquino e também com a presença do Ministro peruano e de todos os demais, nos permitiu chegar às conclusões a que chegamos em Marraqueche. Gostaria de agradecer a todos e dizer que este, sem dúvida, é o início de um momento histórico. O verdadeiro momento histórico evidentemente virá amanhã, quando estiverem presentes os nossos Chefes de Estado e de Governo. Este é o início de um momento histórico em que nós estamos – creio que para outras regiões do mundo – dando um exemplo de que é através do diálogo, através do entendimento, através da busca do conhecimento do outro, através da compreensão que poderemos evoluir para um mundo melhor, mais pacífico, mais justo e mais democrático.
Muito obrigado