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Discurso na abertura da III Reunião Ministerial do Foro de Cooperação América Latina-Ásia do Leste (FOCALAL) - 22 de agosto de 2007
É um grande prazer recebê-los em Brasília para a III Reunião Ministerial do Foro de Cooperação América Latina-Ásia do Leste. Estou particularmente feliz em rever tantos amigos aqui em Brasília. A América Latina e a Ásia do Leste são regiões amplas e diversas que precisam se conhecer melhor. Em tempos de aceleração das comunicações e de meios de transporte cada vez mais sofisticados, a distância geográfica não é um impedimento. Essa desculpa já não vale mais. As diferenças culturais tampouco são um obstáculo, pelo contrário. Elas enriquecem o nosso intercâmbio, nutrem o nosso diálogo, aprimoram nosso entendimento do mundo. Nossas regiões estão buscando seu lugar na nova configuração de forças que emerge neste início de século. A aproximação que queremos contribui para uma ordem mundial mais democrática e pluralista, que reconheça a diversidade dos povos. Reforça a multipolaridade, vital para combater hegemonias de qualquer espécie. O FOCALAL pode ser um valioso instrumento para promover essa aproximação. Podemos estabelecer parcerias construtivas e inovadoras se soubermos explorar os numerosos pontos de convergência que existem entre nós. Juntos buscamos respostas eficazes para os desafios da paz e do desenvolvimento. Nos últimos anos, nossas regiões têm-se destacado pelo dinamismo econômico e pela busca de soluções ousadas para o crescimento com justiça social. Existem condições propícias ao desenvolvimento, graças à adoção de políticas macroeconômicas estáveis e à existência de estratégias sustentáveis em todos os níveis. As economias latino-americanas e caribenhas se tornaram mais avançadas e seus mercados alcançaram maior estabilidade. Estamos privilegiando iniciativas de integração regional que têm exercido impacto em nossos mercados internos. O Brasil está empenhado de modo especial – mas não excludente – na integração da América do Sul. A integração econômica, social e política da América do Sul – respeitosa dos princípios da democracia e do pluralismo – ajudará e muito a integração de toda a América Latina e do Caribe. A integração promove o desenvolvimento e melhora a nossa inserção na economia global. Recentemente, durante uma sessão do Fórum Econômico Mundial em Santiago do Chile, o Presidente Lula afirmou que o aprofundamento da integração viabilizará projetos como os corredores interoceânicos, que já estão sendo construídos e que serão mais um passo para conectar nossa região aos mercados asiáticos. Já não cabe fazer a distinção entre Atlântico e Pacífico, pois estaremos todos unidos. Buscamos parceiros em todos os quadrantes para cooperar, diversificar nossas opções e incrementar conjuntamente nossas capacidades. O relacionamento com a Ásia do Leste integra esse esforço de diversificação. Existem oportunidades em setores tão diversos quanto a infra-estrutura, a construção naval, a bioenergia e a televisão digital. Os mecanismos do FOCALAL contribuirão enormemente para identificar as complementaridades entre nossos países. Por tudo isso, decidimos enfatizar a promoção do comércio e do investimento entre todos os membros do FOCALAL. Em 2004, o Plano de Ação de Manila nos deu as diretrizes necessárias para essa tarefa. Todos nós reconhecemos a importância da cooperação Sul-Sul. Mas a cooperação Sul-Sul não exclui os contatos diretos com países desenvolvidos que estejam dispostos a cooperar e a avançar juntamente conosco. A cooperação Norte-Sul ganha uma nova dimensão quando logramos realizar projetos trilaterais em benefício de países mais necessitados. Já temos exemplos bem-sucedidos, mas este é um campo que podemos explorar mais.
Também recordamos o papel decisivo dos agentes empresariais e do mundo acadêmico no desenvolvimento socioeconômico. Creio que a participação de outros agentes sociais poderá enriquecer nosso trabalho. Não por acaso definimos, no mesmo Plano de Ação, a luta contra a pobreza e o estímulo à igualdade de oportunidades como prioridades do FOCALAL. Não poderemos chegar a esses objetivos sem o concurso dos trabalhadores e de outros representantes da sociedade civil.
A miséria só será erradicada se criarmos oportunidades eqüitativas para nossas populações. O sistema multilateral de comércio é uma ferramenta para nossas regiões, que combinam sociedades avançadas e de alta tecnologia com uma porção significativa da população rural do mundo, dependente das exportações agrícolas. É fundamental concluir a Rodada de Doha, com base em acordos que sejam equilibrados e justos e que levem na devida conta os interesses dos países menos desenvolvidos. É preciso que a Agenda de Desenvolvimento de Doha faça jus a seu nome. Este tem sido o esforço dos países do G-20, muitos deles aqui representados. Sei que também é o desejo de outras nações que integram este Foro. Uma conclusão exitosa da Rodada de Doha, que promova o desenvolvimento das nações mais pobres, torna-se ainda mais urgente, à luz das turbulências do mercado financeiro, geradas nos países mais ricos mas que nos afetam a todos. Estou seguro que esse tema será um dos importantes temas para o diálogo informal de amanhã. Saúdo os Altos Funcionários pelo excelente trabalho realizado. Acredito que temos agora uma agenda bastante precisa para discussão, com algumas linhas de ação concretas. Estou também contente de ver que os Encontros Empresariais que estão ocorrendo em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro vão criar oportunidades e promover negócios entre as duas regiões. Poderão seguramente intensificar os fluxos comerciais entre os países do FOCALAL, que já superam a cifra de 1 trilhão de dólares anuais em 2005 e mais ainda em 2006. Com vistas a um engajamento ainda maior da comunidade empresarial, o Brasil propôs que o Grupo de Trabalho sobre Economia e Sociedade passe a monitorar e faça avançar os entendimentos e compromissos resultantes desta reunião e dos eventos paralelos. Esse grupo de trabalho será alimentado por uma rede de organizações empresariais, de ampla representação nacional, que irá identificar e divulgar oportunidades de comércio e investimentos nas duas regiões, sobretudo, mas não apenas, na área de infraestrutura. Estamos também empenhados em promover a aproximação entre pequenas e médias empresas, que respondem por mais de 95% do total de firmas na maioria dos países da América Latina e da Ásia do Leste, e empregam de 50% a 85% de toda a força de trabalho de nossos países. Essas empresas desempenham papel igualmente relevante em termos de produção de conhecimento. Será importante criar bancos de dados que promovam a divulgação de oportunidades de negócios e também de pesquisas conjuntas entre pequenas e médias empresas das duas regiões. Gostaria de destacar a importância da ciência e tecnologia como forma de estimular os avanços e a qualidade de vida das nossas sociedades. Áreas novas do saber e do fazer criaram uma economia dinâmica que está transformando de modo vigoroso as nossas regiões. A tecnologia avançada, de que são exemplo alguns países aqui presentes, entre eles a Coréia, cujo Ministro copreside esta reunião, se devidamente orientada, com políticas públicas, pode ser um elemento poderoso na promoção da inclusão social, da redução da pobreza e do desenvolvimento sustentável.
Outra área que deve merecer nossa atenção é a do turismo. O turismo tem enorme potencial de promover a aproximação econômica, social e cultural além de ser um forte empregador de mãode-obra. O estímulo ao turismo ajudará a mitigar a falta de conhecimento recíproco que ainda subsiste entre nossas regiões. Na área acadêmica, o Seminário que acaba de realizar-se sobre os diversos temas do FOCALAL, e que envolveu renomados especialistas dos países latino-americanos e asiáticos, certamente nos ajudará a ter uma visão mais precisa sobre o futuro das relações birregionais. Será importante fortalecer a atual rede acadêmica do FOCALAL através do intercâmbio de informações entre os pesquisadores, institutos acadêmicos e cientistas de nossas regiões.
Queridos Amigos, Colegas, Senhoras e Senhores,
A circunstância política imediata do Brasil, que é a América do Sul, hoje se fundamenta em um projeto de integração aberto, não excludente, que soma esforços e se aprofunda de maneira convergente. Estamos empenhados no aprofundamento do MERCOSUL e na consolidação da União Sul-Americana. Mas queremos que esses esforços se combinem com outros processos em nossa região. Todos devem convergir ao projeto mais amplo de integração de toda a América Latina e do Caribe. Por esta razão, entre outras, quero, desde já, estender minhas mais calorosas felicitações à República Dominicana pela decisão de integrar o FOCALAL a partir de 2007. Somos agora 33 países de duas regiões que desejam ampliar a cooperação e alcançar os resultados concretos de que as nossas sociedades tanto necessitam. Quero também saudar os colegas e representantes da Guiana, Suriname e Haiti, que participam desta reunião como convidados especiais, e também de Honduras, que acaba de postular o ingresso no FOCALAL. Um foro como o nosso, de diálogo e cooperação, deve ser necessariamente inclusivo. Esses países que mencionei, e outros, fazem parte de iniciativas e de projetos de integração que incluem de forma plena toda a nossa região da América Latina e do Caribe. Quem sabe já poderemos na próxima reunião redesenharmos o nosso formato para incluir formalmente os países do Caribe, independentemente do idioma que falem e de suas raízes culturais – de resto largamente compartilhadas. Quero registrar, em nome do Presidente Lula, a quem estarão vendo mais tarde, e no meu próprio, a gratidão do povo e do Governo brasileiro por sua presença em Brasília. Desejo especialmente cumprimentar meu colega Ministro do Comércio Exterior da República da Coréia e desejo a todos uma agradável estada e uma reunião muito produtiva.
Muito bom trabalho!