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Brasil e Líbano: uma amizade de oitenta anos (L'Orient-Le Jour, Líbano, 13/11/2025)
Oito décadas transcorreram desde a criação, em 13 de novembro de 1945, da Legação do Brasil em Beirute. Mais do que uma efeméride, estamos celebrando uma parceria em valores e compromissos muito caros às sociedades brasileira e libanesa.
O Brasil e o Líbano são nações plurais e disso se orgulham. Nossos povos são pluriconfessionais e tributários de várias civilizações. Os brasileiros de ascendência libanesa somam milhões. Ao redor do Brasil, de São Paulo a Manaus, do Rio de Janeiro a Foz do Iguaçu, os queridos brimos têm prestado contribuição decisiva para a projeção cultural, econômica e política do país.
Somos gratos pela generosa acolhida que o Líbano dispensa à comunidade de aproximadamente vinte e dois mil brasileiros que lá residem, cuja maioria é de mulheres. O Espaço da Mulher Brasileira que o Itamaraty inaugurou este mês na Embaixada do Brasil em Beirute atuará em coordenação com as autoridades locais e organizações não-governamentais na promoção do empoderamento e dos direitos das nacionais.
O Brasil quer o Líbano em paz para benefício de seu povo e do Oriente Médio como um todo. Já contribuímos até o momento com aproximadamente quatro mil tropas para a Força Interina das Nações Unidas e defendemos que a conclusão das missões de paz estabelecidas pelo Conselho de Segurança deve obedecer ao estrito cumprimento de seus mandatos, e não a horizontes temporais artificialmente estabelecidos. São inaceitáveis a continuada ocupação de faixas do território libanês pelas Forças de Defesa de Israel e as constantes e graves violações do cessar-fogo firmado em novembro de 2024.
O Líbano tem pago um preço elevado pela instabilidade regional. O Brasil não se tem eximido de exigir o fim das atrocidades na Faixa de Gaza, que já vitimaram mais de 68 mil palestinos. Consideramos imperativo que a recente liberação dos reféns israelenses e de prisioneiros palestinos seja acompanhada da interrupção completa das hostilidades, com a retomada plena da ajuda humanitária. Para que seja sustentável e legítima, a reconstrução de Gaza deve estar sob o comando do Estado Palestino, reconhecido pelo Brasil em 2010. A solução dos dois Estados é um marco indeclinável para uma paz duradoura no Oriente Médio.
O Governo brasileiro confia na determinação com que o Estado libanês, sob a liderança do Presidente Joseph Aoun, tem buscado assegurar sua jurisdição sobre a integridade do território nacional e ver implementadas as medidas que entende necessárias para a atração de poupança externa e o fortalecimento da economia libanesa.
É animador constatar que o comércio bilateral tem exibido cifras sem precedentes nos últimos anos, com o Brasil consolidando-se como o maior provedor de segurança alimentar ao Líbano. Reconheço a relevância de instâncias como a Câmara de Comércio Líbano-Brasil e a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, instaladas em São Paulo, e o Conselho Empresarial Líbano-Brasileiro, com sede em Beirute, para o reforço dos laços econômicos entre os dois países.
Também se adensa a cada dia a cooperação humanitária e técnica com o Líbano, com projetos sob implementação ou análise em áreas como saúde, meio ambiente, defesa civil, alimentação escolar, modelagem de políticas públicas e previdência social. Não menos promissor é o diálogo entre os sistemas universitários brasileiro e libanês, com a renovação recente de instrumentos dedicados a estimular a mobilidade acadêmica e o intercâmbio em pesquisa e inovação.
Beirute abriga, no acolhedor bairro de Achrafieh, o único núcleo no mundo árabe do Instituto Guimarães Rosa. Nele são oferecidos cursos de português para mais de cem alunos e programação em música, dança, cinema, literatura, fotografia e artes plásticas inscrita no calendário cultural libanês.
A cidade de Trípoli hospeda um símbolo da afinidade entre as duas nações: a Feira Internacional Rachid Karami, obra de Oscar Niemeyer tombada pela UNESCO como patrimônio mundial. Em uma das cidades de maior relevo histórico do Líbano, o arquiteto brasileiro idealizou um verdadeiro tributo à modernidade, como havia feito em Brasília.
São poucos os países onde a ação diplomática brasileira encontra tanta ressonância nos respectivos tecidos sociais como ocorre com o Líbano. É um diálogo que transcende a esfera pública e agrega sociedades. Que possa ser cultivado em contexto de paz e estabilidade!
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Brésil et Liban : quatre-vingts ans d’amitié
Huit décennies se sont écoulées depuis la création de la Légation du Brésil à Beyrouth, le 13 novembre 1945. Plus qu’une simple commémoration, nous célébrons aujourd’hui un partenariat fondé sur des valeurs et des engagements ancrés dans les sociétés brésilienne et libanaise.
Le Brésil et le Liban sont des nations plurielles et elles en sont fières. Nos peuples sont multiconfessionnels et des affluents de diverses civilisations. Les Brésiliens d’origine libanaise se comptent par millions. Partout au Brésil, de São Paulo à Manaus, de Rio de Janeiro à Foz do Iguaçu, ils ont contribué de manière décisive au développement culturel, économique et politique du pays.
Nous sommes reconnaissants pour l’accueil généreux que le Liban réserve à la communauté d’environ vingt-deux mille Brésiliens qui y résident, dont une majorité de femmes. L’Espace de
la femme brésilienne qui va être inauguré ce mois à l’ambassade du Brésil à Beyrouth travaillera en coordination avec les autorités locales et les organisations non gouvernementales pour promouvoir l’autonomie et les droits des ressortissantes brésiliennes.
Le Brésil souhaite la paix pour le Liban, pour le bien de son peuple et du Moyen-Orient dans son ensemble. Nous avons contribué jusqu’à présent avec approximativement quatre mille militaires à la Force intérimaire des Nations unies. Le Brésil comprend que la conclusion des missions de maintien de la paix établies par le Conseil de sécurité, telles que la Finul, doit se conformer strictement à l’exécution de leur mandat et non à des échéances artificiellement fixées. L’occupation continue de vastes parties du territoire libanais par les Forces de défense israéliennes et les violations constantes et graves du cessez-le-feu signé en novembre 2024 sont inacceptables.
Le Liban a payé un prix élevé à l’instabilité régionale. Le Brésil n’a pas hésité à exiger la fin des atrocités dans la bande de Gaza, qui ont déjà coûté la vie à plus de 68 000 Palestiniens. Nous considérons qu’il est impératif que la récente libération des otages israéliens et des prisonniers palestiniens s’accompagne d’un arrêt complet des hostilités et d’une reprise totale de l’aide humanitaire. Pour être durable et légitime, la reconstruction de Gaza doit être placée sous le commandement de l’État palestinien, reconnu par le Brésil en 2010. La solution à deux États est une étape incontournable pour une paix durable au Moyen-Orient.
Le gouvernement brésilien a confiance dans la détermination avec laquelle l’État libanais, sous la direction du président Joseph Aoun, cherche à affirmer son autorité sur l’intégralité du territoire national et à voir la mise en œuvre des mesures qu’il juge nécessaires pour attirer des fonds internationaux et renforcer l’économie libanaise.
Il est encourageant de constater que les échanges bilatéraux ont atteint des niveaux sans précédent ces dernières années, où le Brésil figure déjà comme le plus grand fournisseur de sécurité alimentaire au Liban. Je reconnais l’importance des organismes tels que le Conseil d’hommes d’affaires libano-brésilien, basé à Beyrouth, ainsi que la Chambre de commerce libano-brésilienne et la Chambre de commerce
arabo-brésilienne, dont les sièges sont à São Paulo, dans le renforcement persistant des liens économiques entre les deux pays.
La coopération humanitaire et technique avec le Liban s’intensifie également de jour en jour, avec des projets en cours de réalisation ou d’examen dans les domaines tels que la santé, l’environnement, la défense civile, l’alimentation scolaire, la modélisation des politiques publiques et la sécurité sociale. Le dialogue entre les systèmes universitaires brésilien et libanais est tout aussi prometteur, avec le renouvellement récent des instruments destinés à stimuler la mobilité académique et les échanges en matière de recherche et d’innovation.
Beyrouth accueille, dans le quartier bienveillant d’Achrafieh, l’unique centre dans le monde arabe de l’Institut Guimarães Rosa. Il propose des cours de portugais à plus d’une centaine d’étudiants et une programmation de musique, de danse, de cinéma, de littérature, de photographie et d’arts plastiques inscrite dans le calendrier culturel libanais.
La ville de Tripoli abrite un symbole d’affinité entre les deux nations: la Foire internationale Rachid Karamé, œuvre d’Oscar Niemeyer classée au patrimoine mondial de l’Unesco. Dans l’une des villes les plus importantes du Liban sur le plan historique, l’architecte brésilien a idéalisé un véritable hommage à la modernité, comme il l’avait fait à Brasilia.
Rares sont les pays où l’action diplomatique brésilienne trouve autant d’écho dans les tissus sociaux respectifs comme au Liban. C’est un dialogue qui dépasse le domaine public et unit les sociétés. Que ce dialogue puisse être cultivé dans un contexte de paix et de stabilité !
Mauro Luiz Iecker Vieira, Ministre des Relations extérieures du Brésil