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O Brasil mantém seu compromisso de combater as mudanças climáticas com políticas de sustentabilidade baseadas na ciência (Miami Herald, 27/09/2022)
Por Carlos França e Joaquim Leite
27 de setembro de 2022, 20h20
O Brasil está totalmente comprometido em combater as mudanças climáticas e promover uma transição energética verde. Ouvimos o chamado da ciência e atualizamos nossa Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) duas vezes em um curto período: em dezembro de 2020, conforme previsto no Acordo de Paris, e após a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 26), em novembro de 2021.
Agora nos comprometemos a reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2030, em comparação com os níveis de 2005. Também antecipamos a meta de neutralidade climática de 2060 para 2050.
Essas contribuições vão muito além da responsabilidade histórica do Brasil no problema das mudanças climáticas. Ainda assim, isso não deve nos impedir de continuar lutando e explorando novos caminhos para enfrentar esse desafio e seus impactos adversos sobre nossas sociedades.
Chegou a hora de acelerar a implementação de todas as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) no âmbito do Acordo de Paris. A ciência é muito clara nesse sentido: não há possibilidade de sucesso no combate às mudanças climáticas sem uma verdadeira transição energética global.
No Brasil, as fontes renováveis representam 48% da nossa matriz energética, mais de três vezes a média mundial de 14%. O papel das renováveis na geração de eletricidade é ainda maior: 84% no caso do Brasil, comparado à média mundial de apenas 27%. Uma transição energética efetiva já está em curso no Brasil, resultado de políticas públicas planejadas, e não de mero acaso. As fontes solar e eólica eram quase insignificantes há uma década em nossa matriz energética, mas têm crescido rapidamente nos últimos anos.
O Brasil faz parte da solução. Uma de nossas estratégias centrais e mais promissoras é o desenvolvimento de instalações de energia eólica offshore ao longo de toda a costa brasileira, com o objetivo de oferecer energia abundante e barata para a produção em massa e exportação de hidrogênio verde em suas diversas formas. O Brasil também está pronto para oferecer oportunidades de produção local de baixo carbono, ajudando a descarbonizar cadeias globais de suprimentos.
Graças às tecnologias atualmente disponíveis, o Brasil tem um claro potencial para produzir um excedente enorme e crescente de energia eólica na próxima década e nos anos seguintes. A costa brasileira tem mais de 10 mil quilômetros de extensão. Já temos instalações de energia eólica em terra próximas ao mar e pretendemos desenvolver uma vasta rede de plataformas eólicas offshore.
Esse processo já começou no Brasil e tem potencial para se tornar um divisor de águas na luta global contra as mudanças climáticas. Com um potencial de geração eólica offshore de 1.228 gigawatts (sendo 700 gigawatts considerados altamente atraentes do ponto de vista econômico), essa nova fase da transição energética no Brasil oferece oportunidades de financiamento climático racional e lucrativo para empresas nacionais e internacionais interessadas em investimentos e retornos seguros a longo prazo.
A questão já não é mais se essa estratégia é viável, mas se sua implementação será possível dentro de um cronograma compatível com a urgência das nossas metas climáticas coletivas. Já temos empresas nacionais e internacionais investindo em projetos de hidrogênio verde no Brasil, e buscamos mais parcerias com governos estrangeiros e o setor privado para garantir que essa estratégia atinja todo o seu potencial.
Devemos nos esforçar para alinhar os investimentos no setor de energia com os objetivos do Acordo de Paris, priorizando fontes renováveis de energia, como a eólica e o hidrogênio verde. Também devemos evitar incentivos perversos para setores altamente poluentes, especialmente por meio da adoção de sistemas falhos que isentem governos e empresas de suas responsabilidades.
Para combater as mudanças climáticas de forma eficaz, precisamos aprimorar nossas políticas com ações sustentáveis, racionais e com base científica. O Brasil oferece oportunidades concretas que contribuirão diretamente para a descarbonização da economia global.
Carlos França é ministro das Relações Exteriores do Brasil.
Joaquim Leite é ministro do Meio Ambiente do país.