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"Acordo Mercosul-UE respeita a Amazônia": entrevista concedida pelo Embaixador do Brasil em Roma, Helio Vitor Ramos Filho, à agência de notícias italiana "Dire" - 9 de fevereiro de 2021
Da exportação de carne ao desmatamento, entrevista a Hélio Vitor Ramos Filho
ROMA 9/2 - O Brasil e seu setor privado investem muito no desenvolvimento sustentável e na qualidade do produto; isso tem permitido ao País acessar os mercados mais exigentes, sem o auxílio de grandes subsídios, como ocorre, por sua vez, na Europa": assim, em entrevista à agência "Dire", o Embaixador Helio Vitor Ramos Filho. De agronegócio, meio ambiente e exportações falou-se ontem à noite, durante episódio do programa "PresaDiretta", da Rai 3, em reportagem intitulada 'Guerra à Amazônia'.
Foi central no programa a tese segundo a qual parte das exportações de carne do Brasil também poderia ser proveniente de pastagens em áreas desmatadas ilegalmente. "Não é verdade" responde o Embaixador: "Os exportadores brasileiros são escrupulosamente controlados e seu trabalho é constantemente monitorado pelos próprios importadores, razão pela qual não é correto associá-los, com base em suposições, malabarismos interpretativos, dados infundados e ideologias, ao desmatamento". Segundo Helio Ramos, que convida os jornalistas a "virem à embaixada para obter informações mais precisas", o programa foi "um dos episódios mais tristes de soberanismo alimentar de que tivemos conhecimento até hoje".
No que diz respeito aos temas do desmatamento, o diplomata afirma que o aumento da produtividade agrícola anda de mãos dadas com a defesa da Amazônia. "Os dados falam por si só", aduz. "A produtividade por hectare/ano da produção brasileira de carne passou de 1,6% em 1990 para 4,3% em 2019, em razão de um investimento em tecnologia e pesquisa de vanguarda que tornou a agricultura do Brasil uma das mais inovadoras do mundo, conciliando preservação ambiental e competitividade". Segundo Hélio Ramos, "com esse aumento de produtividade, que deu origem a um efeito 'poupa-terra', os produtores brasileiros de carne impediram o desmatamento de 270 milhões de hectares de terras".
Foram evidenciadas, ainda, as críticas ao Acordo UE-Mercosul, citadas na Rai 3 pelos riscos que representaria para os produtores italianos. Segundo Helio Ramos, o entendimento apresentado pela primeira vez no G20 de Osaka em 2019 é "segundo declarações de alguns membros das próprias instituições da UE, o tratado de livre comércio europeu com o capítulo de desenvolvimento sustentável mais consistente já negociado pela UE". Particularmente, seriam espeitadas as "medidas sanitárias, fitossanitárias e de segurança alimentar" estabelecidas por ambas as partes. O Embaixador denuncia as tentativas de "demonização" do Acordo pelos "lobbies protecionistas europeus", a exemplo do que já aconteceu com o CETA negociado com o Canadá ou com "qualquer outro produto estrangeiro minimamente competitivo". Segundo Helio Ramos, "esse protecionismo, essa seletividade de argumentos e a insistência nas campanhas difamatórias como estratégia de competitividade não favorecem o consumidor europeu, que se vê refém da desinformação, em detrimento da qualidade dos produtos, da diversidade da oferta, da sustentabilidade global, do livre comércio e dos benefícios da globalização".
A tese é que as críticas ao Acordo UE-Mercosul são infundadas, mesmo em termos quantitativos. "A cota concedida pela UE ao Mercosul para carne bovina (99 mil toneladas) e de frango (180 mil toneladas) representa 1,2% do consumo anual da união europeia", calcula o embaixador. "A cota de carne bovina aberta aos quatro países do Mercosul (99 mil toneladas) equivale a menos de 1% do que o Brasil produz anualmente (11 milhões de toneladas)".
Um comentário sobre o caso da "bresaola", mencionada ontem à noite, a respeito de algumas empresas do Norte da Itália, especialmente no município de Livigno. "Espero que também neste caso a integração produtiva entre o Brasil e a Itália cresça cada vez mais com a sustentabilidade dos produtos de ambas as partes e que os consumidores italianos tenham cada vez mais acesso às demais inúmeras excelências agroalimentares do Brasil" afirma o Embaixador. "Também espero que a adoção de campanhas difamatórias por alguns 'lobbies' europeus se encerrem logo; a narrativa de 'pensar globalmente' comprando localmente parece, no mínimo, conflitual". Por fim, sobre as regras não escritas de comércio e globalização: de acordo com Helio Ramos, "uma potencial tentativa de separar o mercado europeu da cadeia de abastecimento alimentar internacional poderia enfrentar uma forte resposta de retaliação por parte dos parceiros globais.