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Discurso do Paraninfo, Embaixador Sérgio França Danese, por ocasião da cerimônia de formatura das turmas D. Paulo Evaristo Arns (2014-2016) e Bertha Lutz (2015-2017), do Instituto Rio Branco – Palácio Itamaraty, 20 de abril de 2017
Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Michel Temer, Excelentíssimo Senhor Presidente do Congresso Nacional, Senador Eunício de Oliveira, Senhor Ministro de Estado, Senhor Secretário-Geral, Senhor Assessor Especial da Presidência da República, Senhores Sub-Secretários. Senhor Diretor do Instituto Rio Branco e demais chefias da Casa, caros colegas e demais autoridades presentes, senhores familiares e amigos dos formandos e meus caros formandos, pois é a vocês que essas palavras se dirigem.
O seu convite para ser paraninfo me desvanece e me obriga. Espero estar à altura de tão grande honra e tamanha confiança.
A escolha que fizeram dos patronos de turma – D. Paulo Evaristo Arns e Bertha Lutz, dois expoentes da civilização brasileira – e também dos professores homenageados espelha a alma de vocês, revelando o seu culto da sabedoria, da abnegação e do pluralismo de ideias e concepções e a sua admiração por aqueles que dedicam suas vidas a fazer do Brasil um país de excelência.
Um país que se reconcilia consigo mesmo e tenta recriar a sua melhor tradição política, feita do diálogo, da conciliação, da busca de consensos ou de convergências, no respeito às regras democráticas e às instituições republicanas.
Também em outros quadrantes, países e povos olham angustiados e esperançosos para as suas próprias instituições e para as instituições da governança global e regional.
Pedem-lhes que os ajudem a resistir às recorrentes ameaças à paz, à estabilidade e ao progresso econômico e social, que há muito deviam estar banidas da existência humana e que voltam a manifestar-se em múltiplas formas, inclusive no unilateralismo dos que acreditam na salvação individual das nações num mundo sem fronteiras naturais, onde tudo pode afetar a todos, onde estiverem, a qualquer tempo.
Nesse mundo, do qual o Brasil depende muito, vocês terão de ver desafios onde há ameaças, possibilidades onde há obstáculos, oportunidades onde há problemas. Esse é o otimismo dos diplomatas.
Mas hoje, sobre o mundo e a diplomacia brasileira têm a palavra o Senhor Presidente da República e o Ministro de Estado. Quero só rememorar algumas das conversas que tive com vocês sobre a carreira.
Essas conversas tinham sempre por fio condutor a ideia da busca da felicidade na carreira, e insistirei nessa noção por todas as formas, pois se não forem felizes e realizados nesta carreira que abraçaram, pouco importará a substância do que estarão fazendo.
Vocês passaram a fazer parte de uma instituição que lhes dará uma identidade única – “sou diplomata do Brasil” –, uma identidade que livremente escolheram num universo de inúmeras possibilidades.
Insisto nesse aspecto da livre escolha porque ele enaltece a sua vontade e fortalece o seu propósito. E dá ao Itamaraty a certeza de poder cobrar-lhes o perfil e o desempenho que espera de vocês, que fizeram do serviço público o seu destino, com tudo o que a expressão “serviço público” denota, conota e exige.
Vocês escolheram ser diplomatas e fizeram muito para chegar até aqui. Sabem que essa escolha tem motivações profundas no seu ser – motivações que é preciso compreender e ter em mente. Não se escolhe esta vida errante e agitada, esta cidadania itinerante do mundo, com as suas peculiaridades, distâncias, sacrifícios e incertezas, sem que algo muito poderoso, interior, nos esteja a motivar e empurrar.
E não se escolhe esta carreira com a ilusão dos muitos clichês que a cercam, dos lugares comuns que apenas traduzem a ignorância do que é a verdadeira diplomacia.
Intimamente ligada à ideia de Estado, de soberania e de interesse nacional, a diplomacia está claramente definida, com as suas atribuições precisas, as suas idiossincrasias, as suas exigências, a forma de ser, de falar e de ocultar o pensamento que lhe são peculiares, e até a maneira de se vestir que exige dos seus quadros.
Agentes do Estado, agentes do diálogo entre os Estados, os diplomatas cumprem um papel imorredouro nas nossas sociedades. Enquanto houver soberanias, haverá diplomatas. E, enquanto houver diplomatas, haverá uma linguagem da diplomacia, feita de palavras, gestos e atitudes, que é preciso aprender, praticar e valorizar.
Esta é também uma carreira que se elege com a consciência de tudo aquilo que o Estado e o seu povo precisam extrair da relação com o mundo – mais acesso, mais conhecimento, mais recursos, mais segurança, paz e estabilidade em todo o mundo, a prevalência da democracia e dos direitos humanos, o império do direito sobre a força e da razão sobre a prepotência.
É uma escolha que pressupõe uma permanente disponibilidade para o seu país, abertura ao mundo e à diversidade cultural, capacidade de colocar-se na perspectiva do interlocutor, imensa generosidade, a disposição sincera de ajudar os brasileiros no exterior e um permanente estado de alerta para o interesse nacional e a sua defesa.
É a lembrança perene dessa escolha que os guiará quando a sua vontade for uma e outra vez testada pelas exigências desta carreira complexa que tem a missão de administrar uma sólida política externa que o Estado brasileiro persegue, com consistência invejável, ainda que com matizes e modulações, desde a nossa independência.
Caros formandos,
A partir de agora, deixam de ser individualidades, apenas, para serem também uma encarnação do Estado brasileiro, onde quer que estejam, o que quer que façam, na vida pública como na vida privada.
A diplomacia engendra imensa responsabilidade, antes de tudo perante vocês mesmos e o Estado, mas também perante aqueles que lhes são próximos, a família, os amigos, o companheiro ou companheira que os segue com amor nessa vida errante, os filhos que nascerão itinerantes em uma vida de itinerâncias, em que quase nada se repete, onde a mudança tem a primazia e em que a diversidade e a constante variação amparam, completam e dão sentido à vida.
Abracem essa carreira como a sua própria identidade, com naturalidade, com a serenidade que vem da boa convicção. Não se deslumbrem, nunca. O deslumbramento é a toxina que envenena o diplomata e corrompe-lhe a existência. Combatam com a força e a competência do seu trabalho os clichês que ainda teimam em rodear uma carreira à qual, em geral, os países devem muito. O Brasil, certamente.
Pensem na instituição, no nosso Itamaraty, uma das mais sólidas e reconhecidas chancelarias do mundo, com 200 anos de bons serviços prestados à Nação brasileira, como a sua própria Casa. Lembrem-se de que é na fortaleza institucional que nós nos realizamos individualmente. Nós só seremos respeitados como diplomatas, oficiais e assistentes de chancelaria se vivermos em uma Casa querida e amparada pelos seus.
E essa Casa sempre recompensa a lealdade, a dedicação e o jogo honesto.
Vivam a sua carreira com plenitude.
Não deixem que a ansiedade, essa antecipação sofrida do futuro, tão propensa a aparecer na nossa vida cheia de mudanças, os impeça de desfrutar cada etapa, cada cadência da carreira e cada momento da vida diplomática naquilo que têm de próprio, de especial, de irrepetível.
Vocês passam agora a ter uma trajetória com cadências marcadas pelos sucessivos eventos que nela se vão perfilando: as lotações, as remoções, os quadros de acesso, as promoções, os cursos de ascensão funcional, as mudanças de chefias e de colegas – cadências que se têm de tratar com serenidade e sabedoria, não com angústia ou ansiedade.
Lembrem-se, sempre, da velha imagem da carreira, não como uma corrida desabalada de cem ou quatrocentos metros, mas como uma longa e demorada maratona, difícil, em que o êxito está na boa administração da forma física e mental, nos tempos bem contados e nos esforços bem medidos para aguentar todo o trajeto e chegar ao final, em boa posição.
E saibam que, mais importantes do que concluir essa maratona diplomática, são o caminho que se percorre, as etapas vencidas, a paisagem que se admira, o ar que se respira, os companheiros que correm em pelotão ao nosso lado, os espectadores que, da margem, com o olhar bondoso e satisfeito, nos acenam e incentivam. A realização não está no fim, na chegada a qualquer custo, mas no processo de avançar em direção ao final, na carreira completa que se faz até ali.
Sejam felizes como terceiros secretários, talvez a etapa mais despreocupada e instigadora da carreira; sejam felizes como segundos secretários, primeiros, conselheiros, ministros e embaixadores.
Encontrem o encanto de cada uma dessas classes, postos e situações que vão viver, e valorizem o conhecimento, a experiência, e a memória que cada um deles, bem vivido, vai proporcionar-lhes.
Sejam felizes no Brasil e no exterior e nunca, nunca se transformem naquele diplomata para o qual, parodiando o poeta, “qualquer posto passado sempre foi melhor”, e que não acha a felicidade senão na saudade tristonha ou na antecipação angustiada do futuro.
Procurem sempre servir nos postos e lugares que tenham “enredo”, ação. Saibam que muitos deles são consulados e postos C e D, onde as oportunidades de realização pessoal e profissional são muito maiores do que em muitos outros lugares confortáveis. Sirvam nos países onde o Brasil seja muito importante. Na América Latina, sempre que puderem.
Sejam ousados, sem serem temerários. Identifiquem e assumam plenamente as suas responsabilidades. Não aceitem a explicação que tantas vezes lhes darão para a lerdeza das coisas – “porque sempre foi feito assim”. Não confiem cegamente nos processos burocráticos. Lembrem-se de que “papel não tem perna”. E de que, como me ensinaram meus queridos pais, “quem quer faz, quem não quer manda”.
E tenham vida interior, hobbies, distrações, mas separando claramente a sua agenda profissional da sua agenda pessoal. O Itamaraty dá espaço para a realização plena de ambas as dimensões.
Caros formandos, e eu concluo,
O mundo de hoje, da comunicação instantânea, da onipresença de tudo e de todos nos espaços digitais, não permite há muito a decisão isolada, o autoritarismo da vontade solitária.
Não temam pedir conselho e ajuda aos muitos amigos e bons chefes que colecionarão. Não andem sozinhos pela carreira e pela vida. Não há felicidade nem realização no isolamento e no encerro.
E quando a solidão de um posto qualquer pesar, quando bater um desespero ou um abandono, e que vocês recordem, talvez, o conselho que lhes dei sobre a utilidade de ler obras como “Esperando Godot”, “Nada de novo no fronte”, “As ilusões perdidas” ou “O deserto dos tártaros”, lembrem-se de procurar, no mastro lá fora, ou num canto, onde quer que esteja, a nossa bandeira, para nela encontrar de novo o sentido que talvez momentaneamente lhes escape, dizendo, como numa oração:
“Auriverde pendão da minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança...”
Quantas vezes, mesmo retirada do seu contexto tão singular, essa linda imagem não virá trazer-lhes, em alguma terra estrangeira, a lembrança da pátria distante, recordando-lhes o sentido maior, último, republicano, da longa e peculiar carreira em que, por vontade própria, por força interior, vocês ingressaram.
“Auriverde pendão da minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança...”
A lembrança da pátria onde quer que estejamos, ensinou-nos para sempre o Barão. Que privilégio é poder servi-la como diplomatas, amparados por um prestígio fundado em continuadas conquistas pacíficas e na consciência plena do dever cumprido que Rio Branco, que hoje celebramos, encarna como poucos na história deste país.
“Auriverde pendão da minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança...”
Eis ali, expressão da vontade de um povo, símbolo da nossa soberania e independência, a razão maior de vocês ingressarem na carreira.
Honrem essa bandeira, levem-na no coração e na mente em todos os momentos, lembrem-se dela a qualquer temor ou hesitação, confiem na inspiração que lhes trará e no simbolismo que reveste.
E, como um estandarte, ela os conduzirá, estou certo, a imensas realizações, que não serão apenas pessoais, mas do país que escolheram servir como diplomatas e da Casa que os acolhe agora, para sempre.
Sejam muito felizes. Que Deus os abençoe e acompanhe no seu caminho.
Muito obrigado.