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Discurso do orador da Turma Eunice Paiva do Instituto Rio Branco, Secretário Arthur Praxedes - Brasília, 27 de maio de 2025
Senhor Vice-Presidente da República, Geraldo Alckmin;
Senhor Ministro de Estado das Relações Exteriores, Embaixador Mauro Vieira;
Senhora Diretora-Geral do Instituto Rio Branco, Embaixadora Mitzi Gurgel;
Senhora Professora Ana Flávia Magalhães, nossa paraninfa;
Demais autoridades;
Queridos colegas;
Senhoras e senhores,
Em janeiro de 2024, recebemos a notícia da aprovação no concurso de admissão à carreira de diplomata. Para alguns de nós, um sonho. Para outros, um alívio. Para todos, uma mistura de sentimentos difícil de traduzir.
A partir dali, pensamentos como “eu nunca vou passar nessa prova” ou “talvez seja melhor eu tentar outra carreira” ficaram para trás. O dia de hoje simboliza um importante rito de passagem, cheio de significados. É ocasião perfeita para refletirmos sobre o caminho já trilhado e reafirmarmos o nosso compromisso com o país.
Senhor Vice-Presidente,
É provável que o Presidente Lula seja a pessoa que mais participou de formaturas do Instituto Rio Branco, sendo a primeira ainda em 2003. Ao preparar esse discurso, revisitei dados sobre turmas anteriores e confirmei, na prática, algo que sempre ouvimos dizer.
Olhando as imagens antigas, fica evidente que a maior parte dos aprovados de anos anteriores era de uma só cor. O rosto da diplomacia brasileira era um só. Pouquíssimas mulheres.
Pouquíssimas pessoas negras. Eram homens, brancos, em geral, vindos de grandes centros urbanos no Sudeste. Assim como ocorria nas nossas universidades públicas, o Itamaraty tinha só um tipo de pessoa. Felizmente, a cara da universidade no Brasil mudou. E a cara do Itamaraty também tem mudado.
Desde 2002, o Instituto Rio Branco oferece Bolsas-Prêmio de Vocação para pessoas pretas e pardas. Além disso, dentre outras iniciativas, a Lei de Cotas também tem contribuído para tornar o Ministério um lugar mais plural. Os resultados dessas políticas são evidentes: com a nossa admissão houve, pela primeira vez na história do Itamaraty, 11 pessoas negras em uma mesma turma de Rio Branco. Ainda somos poucos, é verdade, mas, como já disse a grande Conceição Evaristo “o importante não é ser o primeiro ou primeira, o importante é abrir caminhos”. Esses caminhos estão sendo abertos.
Sabemos, porém, que ainda há muito a ser feito. Dentre as pessoas admitidas, apenas 17 são mulheres, proporção menor do que a registrada na turma anterior. Isso tem que mudar. Defendemos mais ações concretas — que garantam a paridade de gênero na entrada e que permitam que a diplomacia brasileira tenha, enfim, a cara do Brasil.
Escolhemos Eunice Paiva como patrona de nossa turma. Eunice transformou a dor mais profunda — a perda de seu companheiro pela violência da ditadura — em uma vida inteira dedicada à justiça e à memória. Diante da barbárie, teve a coragem de seguir em frente e de se reinventar. Formou-se em Direito e tornou-se uma das pioneiras na defesa dos direitos indígenas no Brasil. Foi decisiva na elaboração da lei que permitiu reparações às famílias de desaparecidos políticos. Ao escolhê-la como nossa patrona, prestamos homenagem não apenas à sua trajetória individual, mas também, a todas as pessoas que, com firmeza e dignidade, continuaram a sustentar a esperança em tempos sombrios.
Como paraninfa da turma, escolhemos nossa querida professora Ana Flávia Magalhães, que nos deu aula de História e Pensamento Africano e Afrobrasileiro. A professora Ana tem sido uma das principais vozes no resgate da história negra no Brasil — e, sobretudo, no reconhecimento da importância dessas vidas em nossa formação como país.
Com toda sua generosidade, didática e afeto, soube fazer a turma se manter engajada e participativa, mesmo em meio ao turbilhão de outras atividades que tínhamos.
Senhor Vice-Presidente,
Ano passado, duas semanas após nossa posse, já estávamos longe de Brasília, trabalhando na reunião de chanceleres do G20. Desde o começo, participamos da retomada da política externa brasileira e da reconstrução da presença do Brasil no mundo. Estivemos na Amazônia, afinal, para protegê-la de forma eficaz, precisamos conhecê-la e compreender suas múltiplas realidades. Ajudamos a repatriação de brasileiros do Líbano por meio da Operação Raízes de Cedro, a maior operação de resgate já conduzida pelo Itamaraty, que trouxe mais de 2600 brasileiros e familiares de volta ao país em total segurança. Desde o início, nossa rotina tem sido intensa, de muito trabalho e de muito aprendizado.
Somos muito gratos ao Instituto Rio Branco, por estar conosco nesse processo. Este ano, o Instituto completa oito décadas de funcionamento. Celebrar seus 80 anos é, acima de tudo, agradecer — por tudo o que vivemos e por tudo o que levaremos adiante.
Queremos prestar uma homenagem especial às nossas queridas professoras — Antonietta, de francês e Susie, de inglês.
Antonietta, com sua paciência e dedicação, organizou debates interessantíssimos entre nós e nos deixou mais confiantes para interagir em francês, mesmo aqueles que, assim como eu, eram mais iniciantes no idioma.
Susie, com seu jeito meigo de ser e com uma memória de dar inveja a qualquer concurseiro, nos ajudou a melhorar profundamente o inglês em contexto diplomático.
Agradecemos também ao Seu Francisco, à Alzeni e aos demais funcionários responsáveis pelo dia a dia do Instituto, pela alegria e disposição nos ajudar sempre quando precisamos.
Também fazemos questão de homenagear uma pessoa que para nós é um exemplo: o diplomata Daniel Machado da Fonseca, que, infelizmente, faleceu em missão no ano passado. Daniel era um dos principais nomes do Itamaraty nos temas de energia e mudança climática. Quem conheceu o Daniel sabe o quão competente, dedicado e querido ele era. Neste ano em que o Brasil se prepara para sediar a COP 30, sentiremos de forma ainda mais dolorosa sua ausência.
Senhoras e senhores,
Se conseguimos concluir essa longa travessia é porque tivemos enorme apoio de nossos pais, familiares, companheiros, companheiras e amigos. Quem sonha junto, sobe junto. Agradecemos por terem sonhado junto com a gente.
Antes de concluir, eu gostaria de relembrar uma frase do grande jurista Cançado Trindade. Certa vez, ele disse "há épocas em que pouco ou nada parece acontecer, e outras em que tudo acontece". De fato, nos últimos anos, tudo parece ter acontecido. Pandemia. Guerras no Oriente Médio e na Europa. Intensificação das mudanças climáticas. Tensões tarifárias e comerciais. Em um cenário internacional cada vez mais volátil, a diplomacia brasileira torna-se um ativo ainda mais valioso.
A tradição diplomática do Brasil é construída sobre bases sólidas: o respeito ao direito internacional, o compromisso com a solução pacífica de controvérsias, a defesa do multilateralismo. Em tempos de profunda incerteza, esses princípios não são apenas orientações: são um exemplo para o mundo inteiro. Sabemos dos imensos desafios que enfrentaremos. E estamos prontos para enfrentá-los.
Senhor Vice-Presidente,
Reafirmamos hoje o nosso compromisso com o Brasil, com o desafio maior de contribuir para o desenvolvimento do nosso país, com justiça social. Muitos de nós estudaram por mais de uma década até conseguir a sonhada aprovação. Há pessoas aqui nesse auditório que prestaram o concurso 12, 13 vezes. Não desistiram. É a dedicação de uma vida para estar aqui no dia de hoje. E hoje, toda essa dedicação está a serviço do Brasil e do povo brasileiro. Que possamos continuar nos esforçando para aprimorar nossas habilidades, seja como negociadores, especialistas em temas técnicos ou atividades consulares. Que continuemos determinados, como todo sonhador. Mas, principalmente, que sejamos humanos e solidários, como todo diplomata deve ser.
Muito obrigado!