Memorial das Comunicações - Leia depoimento sobre a CRYPTO-HAGELIN HC-570

- OC Cristovão Cardoso Naud ao lado da cifradora CRYPTO-HAGELIN HC-570, em exposição no Memorial das Comunicações.
Depoimento do Oficial de Chancelaria Cristovão Cardoso Naud:
"Visitei o Memorial das Comunicações no térreo e revivi toda uma fase de vida que tive na antiga Divisão de Transmissões Internacionais, a enorme repartição instalada no sexto andar, desde a prumada dos elevadores do lado leste até o fim do bloco. Trabalhávamos em turmas espalhadas em cinco turnos, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todas as minutas do ministério passavam por lá e já no fim dos anos 70 se usava código numérico digitado para entrar pela porta de aço, embora ninguém imaginasse, ainda, a instalação das rotineiras catracas nas entradas do prédio.
Ao me deparar com a sugestão de relatar eventos da época, lembrei-me da minha primeira missão ao exterior. Corria o ano de 1979 e se realizaria em Havana reunião do G-77. Como o Brasil é membro e se tratava de reunião multilateral, foi enviada delegação, chefiada pelo então ministro José Artur Denot Medeiros, assessorado pelo futuro embaixador Georges Lamazière, em início de carreira, e integrada por mais dois funcionários que se ocupariam das comunicações. Além dos servidores da antiga DPC, participaram funcionários do Ministério das Minas e Energia. Iniciava-se o revolucionário programa de alternativa energética no Brasil e o pró-alcool certamente tinha afinidade com um país açucareiro.
Ficamos no hotel Habana Libre e nossa missão, enquanto funcionários das comunicações, era estarmos presentes 24 horas por dia para receber, preparar as coleções de telegramas, digitá-los, e, principalmente, cifrar e decifrá-los. O equipamento levado foi uma HC-570 (a suíça Hagelin, em exposição), a máquina de criptografia mais avançada que tínhamos, na época. Entre os técnicos, cada modelo tinha um apelido de 4 letras. Se não me falha a memória tomaram emprestado para ela o nome de rosa, o mesmo da TLE (da mesma fabricante, em exposição), que trabalhava com duas fitas perfuradas simultâneas e já vinha se tornando obsoleta, além de dar muito truncamento, porque as fitas tinham que correr perfeitamente sincronizadas. Havia ainda a BCX, a barulhenta café, por sua semelhança com uma cafeteira, oriunda dos tempos da 2ª guerra, a mala (Gretag, no formato de uma maleta), depois a maga, até a nita, ultimamente, nacional e ainda mais moderna que a HC, dentre outras. Tinha até dicionário, onde cada palavra se traduzia em um grupo de letras sem nexo.
Por questões de segurança absoluta, o aparelho não podia ser despachado, seguiu como correio diplomático, mas como era muito grande e pesado não podia viajar como bagagem de mão. Assim, foi comprada uma passagem para a Dona Rosa, que viajou acomodada entre meu parceiro e eu na fileira de três poltronas. Mas, como o Brasil não tinha relações diplomáticas com Cuba, as rotas eram complicadas, também pelas dificuldades políticas entre Washington e Havana, de forma que fizemos uma escala de umas quatro horas em Nova York e seguimos para Montreal, de onde finalmente voaríamos para a capital cubana, pela companhia de mesmo nome. Nunca vou me esquecer do momento em que tomamos assento no Ilyushin, de fabricação russa, já à noite. Para um jovem de 23 anos que nunca tinha pensado em nada parecido para o seu futuro, era como estar dentro de um filme. Enfim, desembarcamos em Havana e rumamos de táxi para o hotel, onde nosso quarto já estava reservado e devidamente equipado. As máquinas criptográficas mais modernas faziam seu trabalho com rapidez, mas nenhuma delas transmitia. Para isso precisávamos de um aparelho de telex (muito semelhante ao que está exposto no memorial), já previamente instalado no quarto específico, a pedido do MRE. Ocorre que o carregador de malas, um simpático e atencioso senhor que nos conduziu até o quarto, não sabia disso. Assim que ele abriu a porta deparou-se com aquele trambolho em cima da mesa, algo completamente inusitado em sua rotina de trabalho e na mobília do hotel. Ficou muito assustado, barrou nossa entrada e ligou muito nervoso para a recepção: “es que hay uma cosa, no sé que es...hay un aparato aqui...” A situação foi quase tensa. Enfim, tudo esclarecido, finalmente pudemos descansar. O “aparato” não funcionava exatamente como telex, era o que se chamava de canal ponta a ponta, disponível para postos como DELBRASONU, DELBRASUPA e mais uns poucos, em comunicação instantânea com a DTI. Não era possível se comunicar com outros números, como se fosse um telefone. Funcionava mais ou menos como o zap de hoje, digamos assim. Teclava lá, recebia aqui, e vice versa, ou seja, era possível conversar on line com os colegas, apenas em claro, obviamente. Os despachos telegráficos chegavam cifrados em forma de fita perfurada (2 + 3 furos), que era recolhida e passada na HC para decifrar e imprimir. Com os telegramas gerados durante a reunião era o contrário, recebíamos a minuta, digitávamos para produzir a fita perfurada, e cifrávamos para transmitir pelo assustador aparato. Alguém que nos grampeasse veria apenas inumeráveis linhas com grupinhos de 5 letras aleatórias.
A missão transcorreu na mais pura tranquilidade (pelo menos para nós, teletipistas) e, fora o problema de acessibilidade ao quarto, não tivemos qualquer inconveniente ou dificuldade, felizmente. Vale ainda registrar que a delegação brasileira foi tratada com muito respeito e distinção pelo governo local. Houve dois eventos gastronômicos sociais para os quais todas as delegações foram chamadas, com convites nominais a cada integrante. Meu colega Zacharias foi no primeiro, que não me recordo se foi numa churrascaria ou na Floridita. Eu fui jantar num local que não lembro o nome também, mas que se abria num grande pátio, todo amadeirado, sob tendas, com muitas mesas grandes. Lá estavam todos os representantes de 77 países, todos dispostos em suas respectivas mesas, quando chega o presidente Fidel Castro, evidentemente ansioso por reatar relações com o Brasil, o que só viria a acontecer 7 anos depois, no governo Sarney. El Comandante adentrou o salão com sua comitiva e se dirigiu ao nosso chefe, muito amigavelmente. Trocaram algumas palavras cordiais e apertaram-se as mãos. Depois rumou para a sua mesa e a nenhum outro delegado dispensou atenção tão especial.
No ano seguinte repeti a dose com outra delegação e a mesma máquina, dessa vez para uma reunião da FAO e talvez tenha sido o brasileiro que mais fez viagens oficiais a Cuba em tão pouco tempo, antes da normalização diplomática entre os dois países.
Mas nunca mais encontrei Fidel".