Aplicação das Ciências Comportamentais na gestão para aumentar a produtividade
Aplicação das Ciências Comportamentais na gestão para aumentar a produtividade
Por Bianca Schneider*
Um tema recorrente na gestão é a produtividade. Frequentemente, buscamos estratégias e frameworks para aumentar a eficácia das nossas ações no ambiente de trabalho, mas muitas dessas estratégias são voltadas para decisões que precisam ser pensadas e exigem mais esforço. No entanto, é comum que os trabalhadores percam mais tempo, e sejam menos eficientes, em tarefas que realizam de maneira automática. Como podemos, então, promover mudanças nesses comportamentos automáticos? As ciências comportamentais oferecem ferramentas valiosas para isso¹.
A economia comportamental introduziu o conceito de processo dual da teoria da mente², que sugere que grande parte das nossas decisões diárias é tomada de forma automática (sistema 1), enquanto uma menor parte das decisões utiliza nossas capacidades reflexivas e lógicas (sistema 2). Normalmente, as ferramentas para melhorar a eficácia são direcionadas para decisões do sistema 2, mas as ciências comportamentais também conseguem identificar vieses e sugerir modificações no ambiente que podem melhorar a produtividade das decisões tomadas pelo sistema 1.
Um exemplo disso é o viés de informação, a tendência de buscar informações em excesso que não impactam ou não são úteis para uma ação. Muitas vezes, participamos de reuniões que não têm relevância para nossas atividades ou que poderiam ser resolvidas em 30 minutos, mas acabam durando uma hora inteira. Um nudge de gestão eficaz seria alterar o tempo padrão das reuniões. Em vez da sugestão de duração das reuniões no software utilizado ser de uma hora, poderia ser alterada para 30 minutos, criando assim também uma nova norma social no ambiente de trabalho.
Outro fenômeno que pode afetar a produtividade é a falácia de planejamento, que é a tendência de subestimar o tempo necessário para completar uma tarefa causada pelo viés de otimismo. As pessoas, ao planejarem novas tarefas, tendem a acreditar que serão mais rápidas e competentes, sem considerar que desafios e empasses poderão surgir ao longo do caminho. Um nudge eficaz seria o uso de compromissos prévios, onde as pessoas se comprometem publicamente com etapas específicas e prazos intermediários, apresentando resultados parciais para a equipe regularmente (por exemplo, semanalmente). Dessa forma, o viés de otimismo pode ser reduzido e o fenômeno de falácia de planejamento pode ser evitado, já que as pessoas levarão em consideração que terão que apresentar resultados em intervalos menores e pensar em prazos mais realistas, pois vão considerar também sua situação e tarefas paralelas atuais.
Muitas vezes subestimamos o impacto negativo da troca frequente de atividades ou da interrupção constante na realização de um projeto. O Viés de Custo de Alternância de Tarefas refere-se ao custo cognitivo associado à transição entre tarefas não relacionadas ou à interrupção delas. Isso é comum em culturas de trabalho que exaltam a capacidade de realizar multitarefa, quando uma estratégia mais eficaz seria a priorização de tarefas mais importantes, evitando a troca frequente entre elas. Algumas formas de minimizar a perda de produtividade incluem adotar dias sem reuniões³, e alterar as configurações padrão de notificações de e-mails para que apareçam com menos frequência (ex: de hora em hora), evitando que os trabalhadores sejam interrompidos a cada email recebido.
Os vieses e nudges discutidos neste artigo foram apresentados em um contexto corporativo, mas também podem ser aplicados a outras formas de gestão, como no caso de trabalhadores autônomos e funcionários de organizações públicas. As ciências comportamentais podem contribuir significativamente para a gestão, ajudando a identificar barreiras e desafios que os empregados enfrentam, especialmente nas atividades realizadas de forma automática. Ao criar um nudge de gestão, é importante que as intervenções no ambiente de trabalho sejam não intrusivas, facilmente escaláveis e causem o mínimo de interferência na rotina já estabelecida. Essas mudanças, implementadas tanto no ambiente físico quanto no online, devem estar alinhadas à comunicação de novas normas sociais na empresa, promovendo a adesão dos funcionários.
REFERENCIAS:
¹ Ebert e Freibichler (2017) Nudge management: applying behavioural science to increase knowledge worker productivity. Journal of Organization Design. 6(4). DOI: 10.1186/s41469-017-0014-1
² Sustein e Thaler (2009) Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth and Happiness. Peguin Books. Londres.
³ Laker et al. (2022) O surpreendente impacto dos dias sem reuniões. MIT Sloan Management Review Brasil. Acesso em: https://mitsloanreview.com.br/o-surpreendente-impacto-dos-dias-sem-reunioes/