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Texto base do pronunciamento por ocasião do almoço oferecido ao Rei Juan Carlos l da Espanha e à Rainha Dona Sofia - Brasília, 10 de julho de 2000
É com grande satisfação que recebemos os Reis da Espanha no ano em que comemoramos o Quinto Centenário do Descobrimento do Brasil. Vossa Majestade, Rei Juan Carlos, e a Rainha Sofia são muito bemvindos. Poderão sentir de perto, nesta visita, o carinho que o povo brasileiro tem pela Espanha. Há razões para isso. Brasil e Espanha estão unidos por muitas afinidades históricas e culturais. Compartilham, em tempos recentes, a experiência de processos pacíficos de reconquista da democracia e de fortalecimento do compromisso com os direitos humanos - e a Vossa Majestade coube um papel central como garante da transição espanhola. Nossos dois países têm economias de tamanho comparável, situadas ambas entre as dez maiores do mundo. As últimas décadas registraram fases de acentuado crescimento, o que nos permitiu desenvolver nossos potenciais naturais, atrair capital externo e assimilar novas tecnologias. Além desses pontos em comum, Vossas Majestades reconhecerão aqui traços da contribuição da Espanha para a formação do Brasil. Mais de 15 milhões de brasileiros são descendentes diretos de espanhóis. Ao celebrarmos os 500 anos de nosso descobrimento, é bom lembrar também que já houve um momento - ao fim do século XVI e início do XVII - em que Brasil, Portugal e Espanha estiveram unidos em uma única jurisdição territorial, em uma única soberania. Mas digo isso sem pretensões, e quero deixar claro aos convidados espanhóis que o Brasil não tem a intenção de reivindicar o Quijote - publicado durante aquele período - como uma obra da literatura brasileira. De toda forma, estamos cada vez mais próximos da língua de Cervantes. Eu, que estudei o castelhano no colégio e sempre tive gosto por esse idioma, vejo com satisfação que no Brasil de hoje valoriza-se cada vez mais o ensino do espanhol, inclusive pelo aprofundamento da integração com nossos vizinhos. Hoje, temos o desafio de transformar nossas afinidades em realidades. Essa percepção é nítida em ambos os países e está no cerne das iniciativas e decisões que vêm dinamizando, nos últimos anos, as relações comerciais e financeiras entre Brasil e Espanha. Os contatos cada vez mais frequentes entre atores económicos permitem o desenvolvimento de confiança mútua, que se vem traduzindo no vertiginoso crescimento de associações e operações entre empresas brasileiras e espanholas. Quanto mais nos conheçamos, maiores serão as perspectivas de empreendimentos conjuntos.
Por isso, desejamos um maior intercâmbio na área cultural, em particular a cooperação entre instituições universitárias, o que ajuda a disseminar ideias e reflexões atualizadas sobre processos semelhantes e alimenta a descoberta de soluções adequadas para problemas de natureza comum. Vossas Majestades visitam agora um Brasil que está colhendo os frutos da reorganização de sua vida económica. A estabilização da moeda, que foi a primeira etapa nesse processo de transformação, trouxe como benefício o fim da espoliação inflacionária, a liquidação da injustiça de um imposto que pesava sobre a renda dos mais pobres. A etapa seguinte, que estamos concluindo, é a das reformas estruturais, que demandaram revisão da Constituição nas áreas relativas à ordem económica, à ordem social e à administração pública, de modo a viabilizar o crescimento em bases sustentáveis e em níveis compatíveis com as necessidades da população. Nesse esforço, encontramos dificuldades, inclusive as que vêm do exterior, da instabilidade dos mercados internacionais. Mas a sociedade brasileira já demonstrou, repetidas vezes, que é capaz de desmentir todos os pessimismos. Os ajustes macroeconômicos, a estabilidade, as privatizações, o êxito com que enfrentamos as turbulências financeiras tornaram ainda mais evidentes as oportunidades de investimento estrangeiro no Brasil. E as empresas espanholas souberam identificar essas oportunidades e têm demonstrado sua confiança na economia brasileira. Também as empresas nacionais, públicas e privadas, retomaram seus projetos de investimento, principalmente em setores de infra-estrutura, agro-comercial e de produção de bens duráveis. O mercado brasileiro confirma-se como um dos mais promissores do mundo. A reorganização da economia brasileira permitiu também ao Governo retomar a iniciativa na condução de programas destinados a assegurar que o crescimento económico se faça na única perspectiva que lhe dá sentido: a da justiça social.
Estamos alcançando avanços sem precedentes na educação, na saúde, na reforma agrária. Estamos atuando de forma decidida para garantir a segurança pública, que é uma exigência inescapável de qualquer sociedade. As transformações do Brasil de hoje nos dão condições para uma presença mais ativa no plano internacional. Na Europa, a Espanha é para nós um parceiro fundamental. E o adensamento de nossas relações vai além da dimensão bilateral. Pode e deve trazer um impulso significativo à aproximação do Mercosul com a União Europeia.
Assim como o Mercosul é hoje um fator essencial na estratégia brasileira de desenvolvimento, a Espanha está firmemente engajada na União Europeia, que se fortalece como ator indispensável na construção de um sistema internacional pluralista e avesso a todos os monopólios - monopólios de poder, de riqueza ou de conhecimento. Os vínculos regionais não nos distanciam. Ao contrário, favorecem uma articulação mais estreita e mais proveitosa de nossos valores e interesses comuns. O mundo de hoje não comporta opções excludentes. Isso é muito claro na América do Sul, que tende a se afirmar como um espaço integrado de paz, democracia e prosperidade. Uma região que reforça sua identidade e que, por isso mesmo, abre-se para o mundo com maior segurança e com maior capacidade de realização. Por isso, estarei proximamente reunido aqui em Brasília com os Presidentes da América do Sul para fazer avançar a agenda da integração regional e discutir questões diretamente afetas à nossa vizinhança. Além disso, Brasil e Espanha são as duas maiores economias da Ibero-América e, como tais, podem enriquecer o desenvolvimento das relações tradicionais entre a Península Ibérica e a América Latina. A densidade gerada por séculos de convívio próximo entre as duas regiões é exemplo, talvez único no planeta, de influências recíprocas que se refletem no cotidiano de muitos países. É grande o entusiasmo do Brasil diante dos resultados expressivos já alcançados em sua parceria com a Espanha. O muito que realizamos nos incentiva a avançar. Não se trata de simples projeto de governos. Esta é uma realidade que se vê no entrosamento crescente entre nossas sociedades, no aumento dos investimentos, no volume do comércio, nas iniciativas de cooperação cultural, no diálogo fluido entre lideranças políticas e parlamentares.
Majestades, em novembro se completarão os primeiros 25 anos de seu reinado. Uma data memorável, e mais ainda se vemos a transformação por que passou a Espanha nesse quarto de século - uma democracia moderna, próspera, que se internacionaliza e se afirma como uma potência cultural. Meu brinde é pelo continuado progresso da Espanha, com os votos de todos os brasileiros de que esses 25 anos do reinado de Juan Carlos I se multipliquem, e pela felicidade pessoal dos Reis da Espanha e de seu povo.