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Participação na Conferência de Imprensa dos Presidentes do Mercosul - Florianópolis, 15 de dezembro de 2000
As primeiras palavras são de agradecimento, uma vez mais, pela presença de tão importantes representantes dos nossos países, Presidentes da República, e todos os seus Ministros das áreas relativas às questões do Mercosul. Em seguida, são de agradecimento, também, ao Governador de Santa Catarina e à Prefeita de Florianópolis pelo modo tão cordial, hospitaleiro, e pelas condições tão boas que nos ofereceram para este encontro, e dizer-lhes que o encontro foi muito positivo. Acho que o Mercosul entrou numa fase que não é mais retórica, não é fase de saber se vamos ou não ter união entre nós. Nós já temos a união entre nós. A fase agora é concreta, é de medidas práticas, e algumas dessas medidas foram tomadas. Muitas vezes, dão a impressão de que não têm muito significado, por exemplo, o fato de nossos cônsules aluarem indiscriminadamente, ou seja, de qualquer um dos nossos países, atendendo a qualquer nacional, de qualquer desses países que tenha dificuldade. Isso é um sinal concreto, prático, de integração Outra questão que, há algum tempo, me perturbava, era o acordo automotivo. Chegou-se a um entendimento positivo em matéria desse acordo. O Presidente Fernando de La Rua, quando a gente fala em automóveis, olha para mim, eu olho para ele, e já temos um sorriso assim entre cético e de cansaço. Pois bem, não vamos precisar olhar mais um para o outro, nessa matéria, que está resolvida. Isso é muito importante. Também aproveito a oportunidade para lhes dizer que, por mais importante que seja o acordo automotivo, isso vale não só para automóveis, mas também para quaisquer outras empresas de quaisquer países, da Bolívia, da Argentina, do Chile, do Brasil, de onde seja, do Uruguai, do Paraguai que estejam tendo problemas umas com as outras. Não quer dizer nada que os povos estejam com problemas, que os governos estejam com problemas e que os objetivos do Mercosul estejam sendo postos em causa. São fatos normais. Acredito também que o resultado positivo deste nosso encontro, foi uma compreensão mais clara de que o Mercosul é uma união aduaneira, quer dizer, nós definimos uma fronteira comercial comum. Mas ele é muito mais do que isso. Ele é um instrumento de coordenação política, de reafirmação de vizinhança, de identidades, de interesses. E é um instrumento para que nós possamos lutar em conjunto para termos melhor espaço para os nossos povos, nessa economia globalizada.
Ao dizer isso, digo também que nós estamos fazendo esforços de negociação que às vezes são individuais. O Brasil, por exemplo, está fazendo uma negociação com o México, que pertence ao Nafta. O Chile está fazendo uma negociação com os Estados Unidos, que pertence ao Nafta. Não exageremos as questões que, às vezes, se apresentam como se fossem questões extremas de um contencioso ou de uma tensão muito grande, porque não é necessário isso. Nós temos a compreensão suficiente das diferenças entre as nossas economias. E também temos a compreensão da convergência necessária no tempo, entre as nossas economias. Chegará o dia em que Bolívia e Chile não serão só Estados associados, mas membros plenos da união aduaneirã. Já são membros plenos no espírito comum de coesão entre os nossos povos. Ficou claro na reunião de hoje, ficou bastante claro o modo pelo qual nós estamos fortalecendo os nossos interesses. Por quê? Porque o interesse maior do Mercosul no plano comercial é chegar a bons resultados com realismo, de novo, em questões práticas. Bons resultados com quem? Com os grandes blocos que existem: a União Europeia, e nós estamos nos esforçando para chegar a bom resultado; a zona de livre-comércio no hemisfério, a Alça; e nós vamos nos esforçar para chegar a bons resultados.
Bons resultados implica dizer o seguinte: nós temos muitas questões importantes. Não queremos discutir umas sim, outras não, ou seja, queremos discutir as questões agrícolas, queremos discutir as questões de acesso aos mercados industriais, queremos discutir as questões das regras que dizem respeito, por exemplo, à propriedade intelectual. A questão dos serviços, as compras de estatais. Mas não queremos permitir uma negociação fatiada. Quer dizer, isto sim, aquilo não. Porque aí nós corremos o risco de atender aos interesses do Nafta, dos Estados Unidos, da Europa ou o que seja, e não os nossos parceiros. Nós queremos, sim, exportar de uma maneira mais livre, para a Europa, a nossa produção agrícola. Nós queremos. Nós não achamos que seja correto impor barreiras sanitárias a todo instante, para dificultar o acesso aos mercados, e menos ainda as leis antidumpings, que são regidas por cada país do Norte e que afetam a nós, aqui, indiscriminadamente. Então, não é só discussão de preferências comerciais. É discussão daquilo que se prega no mundo todo e que estamos praticando - mas os mais ricos e poderosos não estão praticando - que é, realmente, ter um comércio que seja um comércio correto, acessível a todos e cujas regras sejam definidas com a nossa participação. Daí porque - e foi a proposta do Presidente Mbeki; depois, me referirei a ele - também é nosso sentimento comum a necessidade de uma nova rodada de negociações na Organização Mundial do Comércio, porque precisamos de regras melhores no comércio.
Não podemos estar submetidos aos painéis que são feitos lá, que seguem regras que não foram elaboradas por nós e que correspondem aos interesses dos países já industrializados, mas não a nós. Precisamos de um acesso negociador claro. Portanto, precisamos de mais poder no mundo. E o Mercosul é isso. Como precisamos de mais poder no mundo, estamos muito felizes com a presença do Presidente Mbeki, da África do Sul. Primeiro porque, no caso brasileiro, temos uma enorme similitude cultural. A presença negra no Brasil é muito forte, as culturas africanas no Brasil são muito fortes. E é natural que estejamos mais próximos da África do Sul, assim como de outros países da África. Mas não é só isso, não. É que a África do Sul, hoje, é um país que tem 135 bilhões de produto interno bruto. Aqui, no nosso Cone Sul, quantos países têm isso? Talvez só dois, isoladamente. É um país importante economicamente a África do Sul. É um país democrático, que é cláusula nossa, do Mercosul, de só negociar dentro do âmbito da democracia. O Presidente Mbeki está fazendo alguns memorandos de entendimento conosco, no sentido de que - quem sabe? - venha a ser a África do Sul o primeiro país a ter um acordo com o Mercosul na direção de uma área de livre-comércio. E tomara ele possa fazer com que a SADC, que é o grupo regional ao qual a África do Sul pertence, faça esse acordo conosco. E o Presidente Mbeki veio trazer uma palavra de otimismo sobre a África. Nós, que somos otimistas com relação à América do Sul, ao Mercosul, e sabemos que estamos construindo as nossas nações para o futuro, ficamos muito felizes de ver que na África também há quem pense que é preciso ter uma visão positiva.
Sei dos esforços da África do Sul, a começar pela inspiração do Presidente Mandela. Aliás, quero aproveitar a oportunidade para dizer que falei, ontem, pelo telefone, com o ex-Presidente Mandela - Mandiba, como eles dizem na África - para comunicar a alegria que tínhamos de ter recebido o Presidente Mbeki e para dizer que a Universidade de São Paulo, a USP, deu ao Presidente Mandela o título de doutor honoris causa. E a USP, creio que nos últimos dez anos, não dá doutorado honoris causa a ninguém. Ele ficou de voltar ao Brasil, a caminho do Chile, onde vai estar, creio que em março. E vamos tê-lo aqui, entre nós, também. Então, há muitas razões para essa identidade. E essa visão do Presidente Mbeki de que existe na África todo um movimento renovador, um renascimento, tem que ser também valorizada por nós.
Já falei bastante. Já fiz muitas exposições. Não quero monopolizar a palavra, mas quero lhes dizer que dei apenas alguns exemplos de como, no plano político - e nosso querido amigo, Presidente do Uruguai ressaltou, com muita razão, que o nosso primeiro dever, em um encontro dessa natureza, é político, visto que o trabalho de negociação é feito pelos Ministros e pelos técnicos - dizer que, politicamente, essa reunião foi uma reunião de muito êxito, com consequências práticas e com consequências, sobretudo, dessa visão de ampliação dos nossos espaços com a África do Sul. O embaixador da Suíça esteve presente também, manifestando o desejo de alguns outros setores da Europa de estarem em contato conosco. E dizer que estamos dispostos a jogar o grande jogo, ou seja, vamos fazer, cada vez mais, firme a nossa voz no concerto internacional, porque o mundo está globalizado e nós não queremos sofrer os efeitos da globalização. Geralmente quando se diz sofrer os efeitos, são os maus, sem nos beneficiarmos dos bons. Havendo bons podem contar conosco, havendo maus estamos prontos a nos defender contra qualquer pressão que seja negativa sobre os nossos povos.