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Discurso no jantar em homenagem ao Presidente da República do Líbano, Elias Hraoui - Brasília, 2 de setembro de 1997
É uma honra para o Governo e o povo brasileiro dar as boas-vindas ao Presidente do Líbano, nesta sua visita de Estado ao Brasil. Nós o acolhemos como o líder de um povo irmão, que tem em nosso país um segundo lar. A presença de Vossa Excelência entre nós reveste-se de um significado muito especial. Ela fala da extraordinária amizade entre duas nações afastadas pela geografia, mas unidas pelos laços profundos das relações humanas e do afeto entre povos que só a imaginação é capaz de criar. Nos mais diversos pontos do Brasil, Vossa Excelência poderá confirmar o carinho que os brasileiros das mais variadas etnias, credos e raízes culturais guardam pelo povo libanês. É natural que seja assim. Afinal, o Brasil deve muito à sua comunidade libanesa, a mais numerosa em todo o mundo. É nosso o privilégio de abrigar tantos descendentes de libaneses que, com talento e dedicação, ajudaram na construção deste grande país. Em todos os campos - no comércio, na indústria, na cultura e na política - , a presença libanesa tem-se traduzido em progresso e bem-estar para o povo brasileiro. Somos agradecidos aos nossos irmãos libaneses.
Hoje, um novo fenómeno nas relações entre nossos países é motivo de justificado orgulho para todos no Brasil: a presença de um grande contingente de brasileiros que retornaram ao Líbano para participar da tarefa de reconstrução de seu país de origem. Assim, reforçamos o elo humano entre nós. Ao prestar-lhe esta homenagem, na presença de tantos ilustres brasileiros ligados ao Líbano, quero renovar o reconhecimento pelo papel insubstituível da comunidade libanesa na formação da nacionalidade brasileira. Senhor Presidente, temos acompanhado com admiração e interesse o esforço de reconstrução nacional e de reinserção do Líbano nas relações internacionais. Temos sido testemunhas da saga de um povo corajoso e consciente de que a promessa de um futuro de paz e liberdade requer, mais do que tudo, a capacidade de superar diferenças na busca de um verdadeiro progresso material e espiritual. O Líbano pode ser um exemplo para sua região e para o mundo, ao mostrar, como vem fazendo, que a verdadeira paz deve erguer-se sobre a tolerância e a concórdia. Que não pode haver felicidade baseada no sofrimento de outros. Que não pode haver liberdade sem o reconhecimento dos direitos de todos, independentemente de qualquer distinção de raça ou credo. Esse valor da diversidade e da tolerância está inscrito em nossa própria experiência como nação de muitas origens. O Brasil não quer ser um mero observador nessa grande obra de coragem do povo libanês.
Queremos contribuir, com a força da nossa amizade, para que o Líbano volte a viver em paz e em prosperidade, para que possa ser novamente um pólo de irradiação de cultura e comércio, um ponto de interseção de civilizações e uma fronteira aberta entre o Ocidente e o Oriente. Para estar à altura desse desafio, para dar expressão a essa amizade entre dois povos que formam uma imensa família, o Brasil está dedicado à renovação de sua parceria com o Líbano. Essa tem sido uma diretriz básica da nossa diplomacia.
Foi justamente para levar uma palavra de solidariedade e amizade fraternal do povo brasileiro que fiz questão de enviar o Chanceler Luiz Felipe Lampreia ao Líbano em fevereiro de 1997. Aquela visita representou a consolidação de um novo patamar em nossas relações, cujo impulso decisivo do lado libanês foi dado pelas visitas ao Brasil do Primeiro-Ministro Rafic Hariri, em 1995, e do Presidente da Assembleia Legislativa Libanesa, Nabih Berri, no ano passado. É uma agenda cornum de visitas que reflete a vontade política dos dois governos de aprofundar as relações tão especiais que existem entre o Brasil e o Líbano. Há pouco mais de um mês, o Presidente da Câmara dos Deputados, o meu amigo Deputado Michel Temer, um dos mais destacados homens públicos brasileiros, liderou uma expressiva missão parlamentar ao Líbano. Vamos, dessa forma, fortalecer uma relação que transcende em muito a esfera do Executivo e que, cada vez mais, engaja os agentes políticos e económicos brasileiros no processo de reconstrução em curso no Líbano. Enviamos uma delegação de alto nível à reunião dos Amigos do Líbano, realizada em Washington, no ano passado, e estamos trabalhando para materializar uma cooperação que se insira com proveito nos esforços do Governo libanês. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para estender nossa colaboração ao Líbano.
Estamos plenamente conscientes de que o desenvolvimento económico e social no Líbano passa necessariamente pelo caminho da paz. Por isso, o Brasil tem levado sua voz a todas as tribunas internacionais em favor da aplicação da Resolução 425 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Governo brasileiro reitera - e o faço agora de forma solene diante de Vossa Excelência - o seu apoio irrestrito aos legítimos anseios do povo libanês de soberania e independência nacional. Esperamos que o Líbano, livre de interferências, possa consolidar seu processo de reconciliação nacional e voltar a desempenhar plenamente o papel que lhe cabe nos cenários regional e internacional, como ponto entre o Ocidente, de um lado, e a Ásia e o mundo árabe, do outro.
Mas o Líbano dificilmente encontrará o caminho da paz, enquanto o Oriente Médio estiver sob o manto do conflito e da intolerância. Por isso, o Brasil tem buscado apoiar, naquilo que está ao seu alcance, o processo de paz. Temos defendido o fiel cumprimento das Resoluções 242 e 338 do Conselho de Segurança e dos princípios estabelecidos na Conferência de Madri e nos Acordos de Oslo, que, juntos, formam a base de uma paz justa, abrangente e duradoura para todos os povos e Estados da região. Continuaremos a atuar, decididamente, em todos os foros, junto a todos os nossos interlocutores, em prol da paz no Oriente Médio. Em paz, o Oriente Médio será uma região de progresso, riqueza e bem-estar para todos os seus habitantes e um pólo de atração para todo o mundo. É minha intenção ir pessoalmente, no próximo ano, levar essas mensagens ao povo e ao Governo do Líbano, atendendo ao convite que me foi gentilmente estendido por Vossa Excelência. Senhor Presidente, com sua visita, damos mais um passo na jornada comum de nossos países e de nossos povos. Olhemos para frente com confiança, seguros de que estaremos juntos na busca de um futuro de paz e prosperidade para libaneses e brasileiros.
É com esse espírito que peço a todos que se juntem a mim em um brinde ao valor e à grandeza do povo libanês, ao êxito de seus esforços pela paz, à consolidação dessa grande família brasileiro-libanesa a que pertencemos todos e à saúde e felicidade pessoal de nossos amigos, o Presidente Elias Hraoui e a Senhora Mouna Hraoui