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Discurso em almoço oferecido ao Presidente da República do Chile, Ricardo Lagos - Brasília, 13 de julho de 2000
As fórmulas habituais do discurso diplomático são aqui insuficientes. Eu hoje estou tendo a emoção de receber um amigo de longa data, que nos visita como o Chefe de Estado de um país vizinho e amigo do Brasil. De um país com o qual, como todos aqui sabem, eu tenho laços afetivos muito especiais. Por isso quero pedir aos presentes que me permitam algumas palavras em tom mais pessoal, para expressar ao Presidente Ricardo Lagos e a Luisa a nossa enorme satisfação de acolhê-los aqui em Brasília e de que possamos, juntos, dar novos passos para reforçar o entendimento e a cooperação entre Brasil e Chile. Nos anos 6o, vivi no Chile e, depois, voltei muitas vezes, inclusive entre maio e agosto de 1973. E aquele não era um momento qualquer. Era um momento em que o Brasil sofria, internamente, com o autoritarismo, e no qual o Chile - até então - era terra de asilo, abrigando tantos brasileiros que se viram forçados a sair de seu próprio país. O mesmo Chile que, a partir de 1973, também iria passar por uma experiência trágica de ruptura da ordem democrática.
Ruth e eu guardamos com afeto muito especial a memória de nossa vida no Chile. E uma das boas lembranças dessa época é a da convivência próxima com Ricardo e Luisa - de cujo pai, Doutor Hernán Durán, meu colega na Cepal, fomos vizinhos em Santiago. Ricardo e eu também fomos colegas, mas na Flacso. Mais tarde, estivemos juntos no Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. Desde essa época, sempre nos mantivemos em contato, e esta é uma amizade que prezo muito. Alguns brasileiros com quem convivi no Chile naqueles tempos são agora meus Ministros e colaboradores no Governo e, para nossa satisfação, eles puderam acompanhar-nos ontem à noite no jantar que oferecemos aos amigos Luisa e Ricardo no Palácio da Alvorada. Todas essas circunstâncias fazem desta visita, Presidente Lagos, um momento ímpar na longa história de amizade entre nossos países. E eu tenho muito prazer de protagonizá-lo com Vossa Excelência. Quem poderia pensar, tantos anos atrás, que dois pesquisadores que se conheceram naquele ambiente intelectual extremamente fecundo que pude encontrar no Chile estariam hoje aqui, juntos, investidos de nossas responsabilidades atuais? Como você disse ontem no jantar, Ricardo, estávamos envolvidos então com o mundo das ideias, com o trabalho de reflexão. Sua trajetória, como a minha, logo passaria ao campo da ação. E hoje temos a coincidência de estarmos ambos com o encargo de exercer a Presidência, de liderar, de apontar caminhos, em um momento em que são enormes os desafios que devem ser enfrentados por nossos países, na consolidação e no aperfeiçoamento da democracia, na construção de sociedades mais justas, na busca de uma inserção competitiva na economia internacional.
Hoje, aqui estamos comprometidos em dar impulso ainda mais forte às relações de amizade fraterna entre Brasil e Chile, que tanto se têm desenvolvido nos últimos anos e que têm tanto potencial para desenvolver-se ainda mais. Compartilhamos, ainda, o desafio - que é ao mesmo tempo político e intelectual - de encontrar formas criativas para a atualização do pensamento social-democrata, para o fortalecimento daquilo que agora tem sido chamado de "modo progressista de governar". De modo que, meu caro Ricardo, com todos esses aspectos que nos unem, e com a estima e admiração de sempre, seja bem-vindo ao Brasil. Se temos muito a recordar, temos também muito a enaltecer no momento atual. Em primeiro lugar, o diálogo político no mais alto nível, e com uma confiança recíproca que não poderia ser maior. A reunião desta manhã confirmou a coincidência de pontos de vista e interesses entre nossos países. E a esse diálogo corresponde um relacionamento que envolve os mais diversos setores da sociedade. Os valores que compartilhamos - a democracia, os direitos humanos, a justiça social, o desenvolvimento sustentável - nos incentivam a intensificar esforços na promoção de interesses comuns. Uma ilustração disso se vê no aumento dos investimentos recíprocos. O seminário empresarial que se realizará amanhã em São Paulo será uma mostra das potencialidades do nosso relacionamento. Na economia, Brasil e Chile têm perspectivas extraordinárias. Enfrentamos dificuldades nos últimos tempos, mas estamos no caminho da plena recuperação e, o que é muito importante, já participando, junto de nossos parceiros do Mercosul, de um exercício pioneiro de coordenação macroeconômica que haverá de ser extremamente benéfico para nossos países.
As dificuldades ocasionais no intercâmbio bilateral, sobretudo em razão das turbulências financeiras internacionais, não nos desanimaram. Os últimos meses são de franca recuperação, e os dados mais recentes mostram a vitalidade de nossas trocas comerciais. Este é um dos paradoxos de nosso tempo. Há uma crise na Ásia, do outro lado do mundo, e em consequência retrai-se o comércio entre Brasil e Chile! É um exemplo de como são complexos os problemas com que temos que lidar no âmbito global. É também uma ilustração da necessidade de reforçar os vínculos no âmbito regional. Quanto mais densos os nossos laços de integração, maior será nossa capacidade de enfrentar instabilidades no plano global. Quanto mais avance nossa integração, mais ouvida será a nossa voz. O Presidente Lagos falou ontem à noite, no jantar que lhe oferecemos no Alvorada, de seu empenho em que falemos com uma única voz. Pois este é o sentido deste encontro: a profunda identidade de interesses e aspirações que nos une ao Chile, ao Mercosul, aos nossos vizinhos, que é a garantia de que a nossa voz, sendo uma, será mais forte. Tudo isso reforça a grande importância da aproximação do Chile com o Mercosul. Como já foi dito tantas vezes - e sempre é bom repetir - o Mercosul é, para nós, uma prioridade absoluta. É um processo irreversível rumo à construção de um mercado comum. Tem uma dimensão política, fundada no comprometimento com a democracia. Considero, portanto, fundamental - e sei que assim também pensam nossos outros parceiros no processo de integração - avançar com determinação com vistas à incorporação do Chile como membro pleno do Mercosul, como sócio em pé de igualdade deste que já é um marco histórico da integração latino-americana. As conversas que mantivemos há pouco em Buenos Aires, e agora em Brasília, evidenciam que não há obstáculos intransponíveis e que os Governos do Brasil e do Chile têm percepções coincidentes. Por isso, o Presidente Lagos e eu decidimos esta manhã iniciar negociações efetivas para permitir-nos chegar a este objetivo. Este é, sem dúvida, um momento histórico.
Tenho confiança de que, em breve, o Chile deixará a condição de simples membro associado para tornar-se, ao lado da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai, membro pleno do Mercosul. E no futuro - confiamos - também com a Bolívia. Congratulo-me com Vossa Excelência, Presidente Lagos, por este entendimento de grande significado não só para nossos países, mas para toda a região. Brasil e Chile estarão juntos também na reunião dos Presidentes da América do Sul, que realizaremos proximamente aqui em Brasília. Nossa região - que é praticamente um continente em si mesma - atravessa um momento particularmente importante de sua história.
Todos os países sul-americanos vivem em regimes democráticos e estão comprometidos com o aperfeiçoamento e o aprofundamento das instituições do Estado de Direito. Temos, hoje, a capacidade de olhar e planejar o desenvolvimento, sem a distorção do Estado paternalista, dirigista, do passado, e com a vantagem de conduzir esse processo em uma perspectiva regional. Para isso, é fundamental a integração física, que hoje nos permite levar a efeito um verdadeiro redesenho da geografia económica da América do Sul. Estamos confirmando a vocação sul-americana de liberdade e de prosperidade compartilhada. Estamos reforçando a identidade própria de nossa região - e isso é essencial para fortalecer nossa presença nos diversos cenários internacionais. Presidente Ricardo Lagos, Na reunião de trabalho desta manhã, o tema da ciência e da tecnologia destacou-se como um dos mais importantes. Isso não é surpreendente. Não é à toa que, em nosso tempo, já se fala em uma "economia do conhecimento", uma economia na qual a informação e a técnica são fatores de produção de primeira ordem. Hoje, mais do que nunca na história da humanidade, "saber é poder". Não o poder no sentido tolo de imposição de interesses, mas no sentido de ser capaz de resolver problemas, de ter influência e de participar em condições de igualdade do jogo das relações internacionais. Brasil e Chile são países que têm condições para responder a esse desafio do conhecimento e da técnica. Temos ótimas universidades, empresas modernas e estamos fazendo avanços extraordinários na educação, que é a base de tudo o que se pode fazer nessa área.
Por isso, é fundamental que caminhemos juntos e que procuremos explorar de forma concreta as possibilidades de cooperação científica e tecnológica. E que exploremos possibilidades também em áreas como defesa, cultura, educação, e tantas outras em que a parceria brasileiro-chilena abre perspectivas de interesse para nossos povos. Estamos decididos a continuar a trabalhar juntos, e os resultados desta visita nos confirmam a qualidade excepcional de nosso diálogo e o empenho que temos em prosseguir no rumo de uma aproximação cada vez mais estreita, tanto no plano bilateral quanto no Mercosul. É com esses objetivos em mente que desejo fazer um brinde ao contínuo aprofundamento dos vínculos de amizade entre Brasil e Chile, e à felicidade pessoal de Ricardo Lagos e Luisa.