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Discurso no jantar em homenagem ao Presidente da Bolívia, Jaime Paz Zamora - Brasília, 14 de agosto de 1990
Senhor Presidente, Com grande satisfação apresento a Vossa Excelência as boas-vindas do Governo e do povo brasileiros. A visita de Vossa Excelência e os entendimentos que vimos mantendo reforçam minha convicção de que as relações entre nossos países atravessam período extremamente fecundo. Os fatos demonstram que, com imaginação e coragem, estamos passando da fase retórica de nossa integração para sua realidade. Temos à nossa frente um mundo em rápida transformação. Nossa geração é testemunha do esgotamento da guerra fria; da multipolarizacão dos cenários econômicos e políticos; do revigoramento, com base em novos parâmetros, do relacionamento coletivo; do reordenamento global dos grandes espaços econômicos; da criação da consciência ecológica que prescreve que não há desenvolvimento sadio sem proteção efetiva ao meio ambiente. Assistimos também ao processo de consolidação da democracia como padrão de convivência política, e temos como certo que esse impulso democrático e renovador deve estar presente nas relações internacionais. Sem temores nem preconceitos, haveremos de buscar participação mais ampla de nossa região nas decisões sobre o destino da comunidade internacional.
Esse destino deve seguir os caminhos da paz e da cooperação. É absolutamente imperativo que se evitem ações violatórias dos princípios da convivência entre povos soberanos, que possam ameaçar a continuidade do desanuviamento das tensões globais e regionais. Os atos de força tendem a provocar respostas na mesma linguagem — e o mundo tem hoje a esperança de banir para sempre o idioma da violência.
Os desafios que devemos enfrentar são de grande magnitude. Na difícil, mas indispensável, etapa de ajuste interno de nossas economias, cabe-nos inscrever o que podemos denominar «a face humana» da atuação do Estado. O combate às duras realidades da miséria e do atraso não se vence no quadro de um Estado autárquico. Penso interpretar também o pensamento de Vossa Excelência ao dizer que a redefinição do papel do Estado e a inserção competitiva de nossas economias neste novo cenário internacional, com os corolários da modernidade e da eficiência, visam garantir o desenvolvimento econômico sustentado e criar condições para que os países de nossa região promovam o bem-estar de seus povos — finalidade última do Estado e meta de que não se podem afastar os governantes. Na América do Sul encontramos exemplos claros de percepções e aspirações comuns. Aí está o Pacto Andino, que, por força do espírito prospectivo dos líderes dos países que o compõem, ganha novo e salutar impulso. No Cone Sul também avançam, com vigor, os esforços de integração. Nenhuma dessas iniciativas deve ser vista como excludente. Ao contrário, certamente serão fenômenos complementares. Acreditamos que a integração latino-americana, imperativo constitucional para o Brasil e prioridade de nossa política externa, irá desenvolver-se progressivamente, assentada sobre bases realistas e traduzida em ações efetivas.
Nossas relações bilaterais, Presidente Paz Zamora, não fogem à regra da priorização de interesses. Obedecem, ademais, à lógica do benefício compartilhado. Somos, pelo capricho da geografia, os únicos países da América do Sul tributários das duas principais bacias hidrográficas do continente, a do Amazonas e a do Prata. A isso a Bolívia soma a condição de membro do Pacto Andino, resultando, assim, condômina dos três grandes espaços associativos da América Meridional. O Amazonas e o Prata condicionam, em larga medida, os diversos projetos e programas que compõem nossa agenda de trabalho. Merecem ainda registro dois projetos de singular importância para nós: a integração energética e a cooperação fronteiriça. Os acordos de integração energética, Senhor Presidente, representam um salto qualitativo cujas repercussões talvez não possamos ainda avaliar por inteiro. Simbolizam o elemento mais visível de nosso esforço integracionista. Bolívia e Brasil estão abrindo as portas para uma série de atividades complementares, onde a participação de nosso empresariado e das outras forças vivas da sociedade — artífices de qualquer processo legítimo de integração — terá papel decisivo. A cooperação fronteiriça, cujos primeiros resultados esperamos celebrar a curto prazo, reforça nossa determinação de harmonizar nossas áreas de contato, tendo presentes os interesses e aspirações de brasileiros e bolivianos que ali vivem e trabalham.
Senhor Presidente,
Ao recebê-lo, há poucos momentos, no quadro da Ordem do Cruzeiro do Sul, o Governo brasileiro quis prestar justa homenagem ao estadista que é Vossa Excelência, e ao grande país que representa. Gostaria, também, que esse gesto fosse percebido como símbolo da tradicional e fraterna amizade que une nossos povos. Inspirado por essa amizade, que só há de fortalecer no futuro, convido todos a elevarem suas taças em um brinde pela crescente prosperidade do povo boliviano, pela saúde e felicidade pessoais do Presidente Paz Zamora.