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O papel da ciência e das mulheres em transformar a mineração
Diretora de Desenvolvimento Sustentável na Mineração do Ministério de Minas e Energia (MME), Julevania Alves é bióloga, mestra em Políticas Públicas e Desenvolvimento e especialista em Auditoria e Perícia Ambiental. Servidora de carreira do Ibama desde 2007, atuou no licenciamento de grandes empreendimentos minerários e contribuiu para importantes marcos regulatórios, como a Resolução Conama nº 494/2020, que possibilitou de realização de audiência pública de forma remota, durante a pandemia e de documentos estruturantes como o Termo de Referência do Ibama que estabelece as diretrizes e o conteúdo necessário para a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (Rima). Com experiência em sustentabilidade, conflitos socioambientais e planejamento territorial, ela discute como ciência, gestão pública qualificada e participação feminina fortalecem a agenda de desenvolvimento sustentável na mineração.

Ascom ANM - Qual é o impacto da presença de mulheres (técnicas, gestoras e cientistas) na qualidade da tomada de decisão quanto ao desenvolvimento sustentável na mineração?
Julevania - Entendo que a agenda socioambiental é fundamental para a sustentabilidade, e nesse contexto, eu ressalto o tema da equidade de gênero. O fortalecimento da justiça social e ambiental assegura que todas e todos tenham as condições necessárias para acessar recursos e oportunidades, e que as gerações futuras não sejam prejudicadas pelas ações atuais, equilibrando as necessidades presentes e futuras por meio da equidade intergeracional, um pilar fundamental da sustentabilidade. Na minha avaliação, a presença de mulheres — sejam técnicas, gestoras ou cientistas — tem um impacto muito positivo na qualidade da tomada de decisão sobre o desenvolvimento sustentável na mineração.
As mulheres tendem a trazer uma visão mais integrada, que considera não apenas os aspectos econômicos, mas também os impactos sociais, ambientais e territoriais da atividade. Essa diversidade de olhares qualifica o debate, amplia a capacidade de diálogo com comunidades e fortalece decisões mais equilibradas, responsáveis e de longo prazo. Além disso, quando mulheres ocupam espaços estratégicos, elas ajudam a consolidar uma cultura de governança mais ética, inclusiva e comprometida com a sustentabilidade do setor, bem como inspiram, por meio de sua liderança, outras mulheres.
Ascom ANM - Quais barreiras institucionais ainda limitam a participação de mulheres na alta liderança da mineração e que políticas do Estado podem acelerar a inclusão?
Julevania - Na minha visão, as barreiras que ainda limitam as mulheres não estão na falta de capacidade técnica — pelo contrário, vejo profissionais brilhantes —, mas sim em uma cultura organizacional que ainda carrega heranças muito masculinas e rígidas. Percebo que muitas vezes o ambiente de campo e as rotinas exaustivas não foram desenhados pensando na equidade, o que, somado aos vieses inconscientes de quem contrata ou promove, acaba criando um "teto de vidro" difícil de romper. Além disso, sinto que a falta de redes de apoio e de referências femininas no topo faz com que muitas desistam no meio do caminho, não por falta de talento, mas por não enxergarem ali um espaço de pertencimento.
Para mudar essa realidade, acredito que o Estado precisa ir além do papel de fiscal e atuar como um verdadeiro indutor de transformação. Considero que o Governo Federal tem envidado esforços para possibilitar a formação de lideranças femininas. Para além dessa iniciativa, defendo que políticas públicas devem premiar e incentivar empresas que tenham diversidade real em seus conselhos, talvez atrelando isso a melhores condições de acesso a crédito ou pontuação em licitações. Mas, acima de tudo, vejo como essencial o investimento na base: precisamos de programas educacionais que incentivem meninas nas ciências e engenharias desde cedo, garantindo que a próxima geração de líderes do setor mineral seja naturalmente mais plural e igualitária.
Ascom ANM - Existem iniciativas que o MME apoia para ampliar a participação de mulheres pesquisadoras em temas relacionados ao desenvolvimento sustentável na mineração?
Julevania - O MME possui iniciativas de promoção de equidade de gênero, ampliada para todas as áreas reguladas. Mas avalio que a Secretaria Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SNGM) esteja à frente do restante dos demais setores. Hoje temos a única Secretária mulher do MME, a Ana Paula Bittencourt, eu sou a única diretora negra de todo ministério e o DDSM é composto por maioria absoluta de mulheres, sendo todas elas mães, a exceção de uma.
Para além da nossa Secretaria, o MME possui iniciativas como Pacto Nacional por Mais Mulheres na Energia e na Mineração, lançado em setembro de 2024. Este é o compromisso mais robusto do MME atualmente. Firmado em parceria com o Ministério das Mulheres, o pacto visa fortalecer a equidade de gênero em um setor onde as mulheres ocupam apenas 32% da força de trabalho global; e o Comitê Permanente para Questões de Gênero, Raça e Diversidade (COGEMMEV), o órgão interno que coordena as políticas de diversidade, equidade e inclusão dentro do MME e suas entidades vinculadas (como a Agência Nacional de Mineração - ANM e o Serviço Geológico do Brasil - SGB). Além disso, o MME apoia iniciativas externas, como Women in Mining Brasil (WIM Brasil). O ministério participa ativamente de debates e apoia o plano de ação deste movimento, que monitora a evolução de indicadores de gênero no setor e promove a excelência técnica feminina.
Ascom ANM - Quais são as prioridades do MME para os próximos anos a fim de aprofundar a mineração responsável e ampliar o protagonismo de mulheres na ciência e na mineração? Que mensagem a senhora deixa às jovens que desejam construir carreira no setor?
Julevania - O recado que deixo para outras tantas mulheres e meninas que pensam em construir uma trajetória na mineração é para que tenham foco e persistência. Eu espero que em breve eu, mulher, negra, casada e mãe não seja mais uma exceção ou uma minoria em ambientes de tomada de decisão, em cargos estratégicos e de liderança. Que as próximas gerações tenham referências em posições estratégicas que reflitam a diversidade brasileira.
Homens e mulheres são diferentes, mas merecemos oportunidades iguais, que possamos deixar de ser penalizadas por questão de gênero, raça e por sermos mães. Somos capazes, não precisamos nos masculinizar para alcançar nossos objetivos, mas precisamos de espaços, oportunidades e acima de tudo, de empatia para sermos de fato competitivas. Não dá mais para no século XXI sermos vítimas de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho; sermos penalizadas por termos filhos; subestimada por causa do gênero, merecemos respeito e queremos igualdade de oportunidades.
Ascom ANM - Quais avanços normativos e institucionais recentes a senhora destaca na agenda de desenvolvimento sustentável no setor mineral?
Julevania - Considero que 2025 foi um ano de entregas muito relevantes para o setor mineral. Destaco a inauguração do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), em 16 de outubro, com a criação de um grupo de trabalho voltado ao desenvolvimento sustentável. O grupo trata da classificação de empreendimentos estratégicos para licenciamento especial, do risco da pesquisa mineral e do Plano de Ação Nacional para a Mineração Artesanal e em Pequena Escala (MAPE) de ouro, compromisso do Brasil na Convenção de Minamata, a ser concluído no primeiro semestre de 2026. Também elaboramos e colocamos em consulta pública o Referencial Básico para a Mineração Brasileira Sustentável, que orienta boas práticas e a promoção do trabalho digno, servindo como referência para políticas públicas e ações de fomento. Publicamos ainda a Portaria nº 120/2025, que define critérios para enquadramento de projetos de transformação de minerais estratégicos — cobalto, cobre, lítio, níquel e terras raras — no âmbito das debêntures incentivadas, ampliando o acesso a financiamento e fortalecendo a transição energética.
O DDSM coordenou o grupo de trabalho das indústrias extrativas na construção da Taxonomia Sustentável Brasileira, alinhando a mineração às melhores práticas internacionais. Outro marco foi a sanção da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que traz mais clareza e segurança jurídica. Em julho, lançamos o Panorama Nacional da MAPE do Ouro (Projeto Ouro sem Mercúrio), diagnóstico abrangente realizado em cinco estados da Amazônia Legal, revelando potencial econômico, mas também desafios estruturais e ambientais. Participamos, ainda, das discussões sobre a revisão do decreto de cavidades naturais, da regulamentação da PNAB, da atualização do Plano Nacional de Política Mineral (2050) e dos Planos Setoriais do Plano Clima.
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Marize Torres Magalhães — ASCOM da Agência Nacional de Mineração |