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Pesquisa analisa mobilização de trabalhadores em plataformas digitais
Débora Leite dos Santos é formada em Engenharia Ambiental e Sanitária pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e em Direito pela Universidade Tiradentes (UNIT), onde foi bolsista do Programa Universidade para Todos (Prouni). Durante o mestrado na Universidade de São Paulo (USP), a pesquisadora se dedicou a compreender as mudanças contemporâneas nas relações de trabalho, especialmente diante da expansão das plataformas digitais.
Em sua pesquisa, investigou o trabalho mediado por aplicativos, com foco nos entregadores de plataformas digitais. O estudo foi desenvolvido de forma interdisciplinar, dialogando com o direito do trabalho, a sociologia do trabalho e a teoria social crítica, com o objetivo de compreender como trabalhadores inseridos em relações de trabalho altamente flexíveis e mediadas por algoritmos constroem formas próprias de mobilização, interpretação e resistência no cotidiano do trabalho.
Sobre o que é a sua pesquisa? Explique o conteúdo da sua tese.
Minha dissertação investiga como trabalhadores precarizados e sem vínculo formal de emprego constroem formas de organização coletiva fora da estrutura sindical tradicional.
O ponto de partida da pesquisa foi a constatação de uma tensão central: no trabalho por aplicativos, há trabalho, há conflito e há exploração, mas muitas vezes não existe um enquadramento jurídico adequado para a representação coletiva desses trabalhadores.
Inicialmente, a hipótese da pesquisa era que os entregadores estariam desenvolvendo formas horizontais e plurais de organização coletiva por meio das redes sociais, especialmente em espaços digitais utilizados pelos próprios trabalhadores.
Para investigar essa hipótese, analisei mais de 134 mil interações publicadas em grupos públicos de entregadores no aplicativo Telegram, observando como esses espaços funcionam como ambientes de troca de experiências, denúncias, mobilização e debate político.
A análise revelou que esses grupos digitais se tornaram importantes espaços de sociabilidade e articulação coletiva entre trabalhadores que, em grande medida, estão fora das estruturas tradicionais de representação sindical.
O que vale destacar de mais relevante na sua pesquisa?
Um dos principais resultados da pesquisa foi demonstrar que os trabalhadores de plataformas digitais estão produzindo formas intensas de interação coletiva e debate político em ambientes digitais, mesmo na ausência de organizações formais de representação.
Esses espaços funcionam como arenas onde os trabalhadores compartilham experiências de trabalho, denunciam abusos das plataformas, discutem estratégias de mobilização e elaboram interpretações sobre sua própria condição laboral.
Ao mesmo tempo, a pesquisa revelou um elemento particularmente relevante: as interpretações dos trabalhadores sobre direitos, autonomia e regulação do trabalho são marcadas por importantes ambiguidades e disputas ideológicas.
Muitos trabalhadores valorizam a autonomia associada à possibilidade de obter renda imediata, o que faz com que direitos trabalhistas tradicionais sejam frequentemente percebidos de forma ambivalente ou até mesmo crítica. Essas tensões revelam a complexidade das formas contemporâneas de consciência e organização coletiva no trabalho mediado por plataformas.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
A pesquisa contribui para ampliar a compreensão sobre as profundas transformações que vêm ocorrendo no mundo do trabalho, especialmente diante da expansão das plataformas digitais e da crescente informalização das relações de trabalho.
Ao analisar como os próprios trabalhadores interpretam suas condições de trabalho e constroem formas de mobilização coletiva, o estudo oferece elementos importantes para o debate público sobre regulação do trabalho em plataformas, proteção social e representação coletiva.
Além disso, a pesquisa evidencia que as redes sociais e os espaços digitais podem desempenhar um papel relevante na articulação de trabalhadores que se encontram fora das instituições tradicionais, o que ajuda a compreender melhor os desafios contemporâneos da organização coletiva no século XXI.
Foi bolsista da CAPES/MEC? Se sim, de que forma a bolsa contribuiu para sua formação?
Sim, fui bolsista de mestrado da CAPES/MEC durante o desenvolvimento da pesquisa. A bolsa foi fundamental para que eu pudesse me dedicar integralmente ao trabalho acadêmico, o que possibilitou a realização de uma pesquisa extensa, incluindo a coleta e análise de um grande volume de dados produzidos pelos próprios trabalhadores.
O financiamento público da pesquisa desempenha um papel essencial na formação de pesquisadores e na produção de conhecimento científico sobre temas socialmente relevantes. No meu caso, o apoio da CAPES foi decisivo para que a pesquisa pudesse ser desenvolvida com profundidade e rigor.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
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