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BOLSISTA EM DESTAQUE
Pesquisa aborda saúde materna de mulheres indígenas
No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a série Bolsista em Destaque entrevista a enfermeira Julia Lopes Pereira, mestranda em Enfermagem no Contexto Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e aluna especial do doutorado no Programa de Enfermagem em Saúde Pública da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Ex-bolsista da CAPES/MEC, por meio do Programa Abdias Nascimento, Julia realizou intercâmbio na Toronto Metropolitan University e investiga o letramento em saúde voltado aos cuidados maternos de mulheres indígenas. Para a pesquisadora, o acesso à informação é um elemento fundamental para fortalecer o cuidado e promover a autonomia durante a gestação, o parto e o período pós-parto. “O aspecto mais relevante da pesquisa é a construção de tecnologias desenvolvidas com sensibilidade cultural, voltadas especificamente para as realidades das populações indígenas”, conta. Sua trajetória acadêmica é marcada pela origem amazônica. “Sou uma mulher nortista, com forte identidade cultural e profundo sentimento de pertencimento às raízes da região. O contato direto com a realidade sociocultural despertou em mim o interesse em compreender os desafios vivenciados pelas populações tradicionais”, destaca.
A pesquisadora lembra que enfrentou dificuldades financeiras após a morte do pai, de forma trágica, em um acidente de trânsito quando tinha apenas oito anos de idade, e foi formada pela mãe, Maria Lúcia, e pela tia, Alda Lopes. “Foram elas que, com dedicação, resiliência e exemplo de vida, me ensinaram que a educação e o acesso ao conhecimento são caminhos essenciais para transformar realidades, ampliar oportunidades e construir um futuro melhor”.
Durante a pandemia de Covid-19, Julia integrou a equipe de resposta rápida da Secretaria Especial de Saúde Indígena, onde atuou em territórios indígenas, com os povos Sateré-Mawé e Hixkaryana. “Essa experiência foi marcante em minha trajetória profissional e acadêmica, pois evidenciou importantes desafios relacionados à comunicação em saúde, ao acesso à informação e à necessidade de estratégias de cuidado culturalmente sensíveis para as populações indígenas”, descreve. Atualmente, é docente do curso de Enfermagem da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), em Manaus.
Sobre o que é a sua pesquisa? Explique de forma mais detalhada o conteúdo do trabalho.
Minha pesquisa investiga o letramento em saúde voltado à saúde materna de mulheres indígenas, considerando que o acesso à informação em saúde é um elemento fundamental para fortalecer o cuidado e promover a autonomia das mulheres durante a gestação, o parto e o período pós-parto. A motivação para esse estudo surgiu a partir da minha experiência na assistência como enfermeira na saúde indígena. Durante minha atuação profissional, observei que muitas mulheres indígenas enfrentavam dificuldades para compreender as orientações relacionadas ao pré-natal, ao parto e aos cuidados no pós-parto. O estudo tem como objetivo desenvolver tecnologias sociais e educativas que contribuam para aprimorar a comunicação entre profissionais de saúde e mulheres indígenas, tornando as informações sobre saúde materna mais acessíveis, compreensíveis e culturalmente sensíveis às realidades dessas populações.
O que você destacaria de mais relevante na sua pesquisa?
O aspecto mais relevante da pesquisa é a construção de tecnologias em saúde desenvolvidas com sensibilidade cultural, voltadas especificamente para as realidades das populações indígenas. Mais do que produzir materiais informativos, a proposta é desenvolver estratégias de comunicação que respeitem os saberes tradicionais, os contextos culturais e as formas próprias de compreensão da saúde e do cuidado presentes nas comunidades indígenas. Meu compromisso é fortalecer a produção de conhecimento voltada às realidades amazônicas, contribuindo para o desenvolvimento de práticas de cuidado mais sensíveis às diversidades culturais e às necessidades das populações da região.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
Ao desenvolver tecnologias de comunicação mais adequadas ao contexto sociocultural dessas populações, espera-se ampliar a compreensão das orientações relacionadas à saúde materna, fortalecendo o vínculo entre os serviços de saúde e as comunidades indígenas. Além disso, o estudo pode subsidiar práticas assistenciais e políticas públicas mais sensíveis às diversidades culturais da Amazônia, contribuindo para a promoção da equidade no acesso à informação em saúde.
De que forma a bolsa da CAPES/MEC contribui para sua formação?
Foi fundamental para o fortalecimento da minha formação acadêmica e científica. Por meio desse apoio, tive a oportunidade de realizar um intercâmbio acadêmico no Canadá, onde atuei como aluna da Toronto Metropolitan University. Essa experiência ampliou significativamente minha formação e possibilitou o contato com novas perspectivas teóricas e metodológicas no campo da saúde, especialmente no que se refere às pesquisas com povos originários. Minha participação ocorreu por meio do Programa Abdias Nascimento, da CAPES/MEC, uma iniciativa fundamental para ampliar as oportunidades de internacionalização da ciência brasileira e fortalecer a formação de pesquisadores.
Recentemente, tive a honra de receber a Comenda Josephina de Melo, concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, distinção destinada a enfermeiros que se destacaram em 2025. Levar o nome do Amazonas ao cenário acadêmico internacional reforça meu compromisso com a produção de conhecimento voltado à melhoria da qualidade de vida das populações amazônicas. Acredito que o investimento em ciência e em formação acadêmica é essencial para o desenvolvimento do país e, nesse contexto, a CAPES/MEC desempenha um papel fundamental ao promover oportunidades que transformam trajetórias e ampliam horizontes para pesquisadores da região amazônica.
Como mulher amazônida, pesquisadora e docente, acredito que a ciência constitui também um importante instrumento de transformação social, capaz de abrir caminhos e inspirar novas gerações de pesquisadores comprometidos com o desenvolvimento da região e com a valorização dos saberes, das culturas e das realidades da Amazônia.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
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