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Estudo analisa critérios de seleção de pautas LGBTI+ no webjornalismo
Antônio Guilherme de Lima Santos é mestre em comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Acre (Ufac). Ainda na graduação, desenvolveu uma monografia a partir do caso de uma travesti assassinada em Rio Branco, no Acre. Ao analisar como a reprodução de estereótipos heteronormativos por webjornais regionais, ao retratarem a vítima, contribuiu para reforçar estigmas sobre a comunidade LGBTI+, em desacordo com o código de ética profissional. O pesquisador conta que foi fortemente influenciado pelas experiências profissionais durante estágios na imprensa, em que, por se identificar como jornalista gay, era frequentemente acionado para cobrir pautas relacionadas à comunidade LGBTI+.
O trabalho foi avaliado com nota máxima na defesa e, posteriormente, foi utilizado como referência pela Procuradoria da República no Estado do Acre e pelo Ministério Público Federal no Acre, que convocaram jornalistas locais para discutir e reforçar a importância de um tratamento ético nas coberturas jornalísticas sobre a comunidade LGBTI+.
Em seu mestrado, Guilherme deu continuidade à investigação sobre o campo do jornalismo e a pauta LGBTI+. Sua pesquisa produziu um estudo comparativo dos enquadramentos jornalísticos sobre a comunidade LGBTI+. Atualmente, dá continuidade à pesquisa na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB).
Sobre o que é a sua pesquisa? Explique o conteúdo da sua tese.
Minha pesquisa deixou de focar o modo de produção da notícia, pois, no mestrado, já compreendi que estereótipos e estigmas heteronormativos podem influenciar os enquadramentos, entendidos como processos de construção e retratação das notícias até sua divulgação, e as coberturas jornalísticas sobre diversidade sexual e de gênero. Neste momento, estou desenvolvendo uma metodologia de pesquisa, com minha atual orientadora, que me permite analisar como são definidos e selecionados os modos pelos quais a comunidade LGBTI+ é pautada por editores e coordenadores em uma redação jornalística. Dessa forma, parto da hipótese de que a organização jornalística exerce influência nesse processo de seleção, uma vez que os jornalistas são orientados por diretrizes de uma linha editorial consolidada. Ou seja, o fato de a pauta LGBTI+ ser priorizada ou invisibilizada por um veículo pode implicar ambivalências na capacidade crítica dos jornalistas na produção de conteúdo, especialmente quando não há instrumentos institucionais que promovam e sustentem a desconstrução de vieses estereotipados.
O que vale destacar de mais relevante na sua pesquisa?
Os pressupostos que fundamentam minha tese de doutorado derivam de um dado específico obtido na minha dissertação, o qual considero ter sido o principal elemento a me instigar a aprofundar sobre o tema. Em determinado momento da coleta de dados dos materiais jornalísticos, observei que dois webjornais de um site de notícias, em comparação aos demais, publicavam com maior frequência conteúdos sobre a comunidade LGBTI+. Na ocasião, não consegui compreender o que motivava esse recorte de cobertura, pois houve jornais que, ao longo de um ano, realizaram cerca de dez publicações, enquanto esses dois veículos divulgaram um volume quatro vezes maior de notícias. No entanto, ao entrevistar os editores responsáveis por esses webjornais, pude entender a razão dessa maior visibilidade atribuída aos conteúdos LGBTI+, especialmente quando revelaram suas próprias identidades sexuais, uma vez que também pertenciam à comunidade LGBTI+. Dessa forma, torna-se evidente que o critério de seleção das notícias possui um componente subjetivo, pois, além da influência das percepções individuais de cada jornalista, a ausência de iniciativas institucionais nas organizações jornalísticas para consolidar esse tipo de abordagem ao longo da atuação de diferentes profissionais contribui para a inviabilização da pauta LGBTI+ por fatores estruturais e institucionais.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
Acredito que o jornalismo tem função primordial na mediação dos desafios do cotidiano, além de influenciar a forma como as pessoas compreendem os acontecimentos e transformam suas próprias concepções de mundo. Muitas vezes, é por meio da leitura de notícias que os indivíduos constroem novas percepções sobre a realidade. Por isso, a imprensa exerce forte influência social, já que é por meio dos jornais que são relatadas as reivindicações sociais.
No entanto, a maneira como o acesso à informação é mediada pelas lentes jornalísticas pode ser determinante para esse processo. Diante disso, ao se observar a comunidade LGBTI+, historicamente marcada pela ilegitimidade de suas vivências, o jornalismo deve atuar como aliado, e não como um meio que potencializa marcadores que invisibilizam essa pauta. Assim, a inquietação que orienta minha pesquisa pode contribuir para que a imprensa brasileira avance rumo a uma releitura sobre a importância de abordar a diversidade sexual e de gênero de forma mais ampla e qualificada.
Foi bolsista da CAPES/MEC? Se sim, de que forma a bolsa contribuiu para sua formação?
Fui bolsista durante o mestrado e, em breve, serei também no doutorado. A bolsa não é apenas um meio de garantir que nós, pesquisadores, tenhamos a possibilidade de sustentar nossas subjetividades pessoais, mas também uma forma de reconhecer o papel de nossas atividades e o impacto de nossas produções acadêmicas, que são determinantes para o progresso social.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
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