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SEGURANÇA VIÁRIA
ANTT encerra 4º Workshop Vias Seguras com agenda que conecta dados, regulação e resposta operacional para reduzir mortes nas rodovias federais
Foto: Rebecca Omena / Comunicação ANTT
Realizado nos dias 12 e 13 de maio, no Auditório Eliseu Resende, em Brasília, o 4º Workshop Vias Seguras reuniu especialistas, representantes do setor regulado, instituições parceiras e sociedade civil para debater estratégias de redução de sinistros nas rodovias e ferrovias federais.
O evento integra o Maio Amarelo 2026 e se consolida como um dos principais espaços de diálogo técnico da ANTT sobre segurança viária. Nesta edição, o debate chegou também às crianças: cerca de 30 alunos da rede pública do Distrito Federal participaram de atividades educativas na sede da Agência, com demonstrações do Corpo de Bombeiros, visita a uma ambulância e conversa com fiscais da ANTT sobre transporte seguro. Em 2025, o evento registrou mais de 1.500 inscritos e ultrapassou 3.000 acessos na transmissão ao vivo.
Segundo dia, mais discussões
O segundo dia foi o mais denso. Quatro painéis técnicos, uma simulação ao vivo de desencarceramento e o encerramento pela Diretoria Colegiada compuseram uma agenda que partiu dos números de mortalidade e chegou a estratégias concretas de proteção aos usuários das rodovias federais.
O ponto de partida foi o grupo mais vulnerável do trânsito nacional: os motociclistas. Dados consolidados pelo Ipea e pela ANTT mostram que, enquanto o índice geral de acidentes recuou, a letalidade entre motociclistas subiu 20% no início de 2026. O Brasil registrou 34,5 milhões de motos em circulação em 2024. A estimativa é que cada novo milhão de veículos nas estradas gere 400 mortes adicionais por ano. O impacto já ultrapassa R$ 2 bilhões anuais em internações no SUS, com motociclistas respondendo por 55% de tudo o que o trânsito consome em gastos hospitalares no país.
Por trás desse número está uma transformação econômica que a infraestrutura ainda corre para acompanhar. O setor de entregas por aplicativo cresceu 149% desde 2020, e hoje 20,8% dos motociclistas acidentados atendidos são trabalhadores de plataformas em serviço. A pressão pelos prazos curtos aparece associada ao descumprimento de normas básicas: uso do celular durante a pilotagem, excesso de velocidade e ausência de equipamentos de proteção. Em vias expressas, 77% dos motociclistas trafegam acima do limite permitido. Pilotar sem capacete representa 43% das infrações registradas, e 26% circulam sem viseira.
O gerente-executivo de Atendimento Pré-Hospitalar da Motiva, Juliano Roque, colocou o argumento com precisão: a agilidade do setor de entregas não pode ser financiada pela vida do condutor, e o risco precisa ser internalizado antes que o custo hospitalar continue crescendo para toda a sociedade.
A física do problema foi detalhada pelo diretor técnico da Sttrada Segurança Viária, Luiz Fernando Romano Devico. A 100 km/h, a chance de morte ou lesão grave para um motociclista chega a 75%, contra 15% para o motorista de um automóvel na mesma velocidade.
Devico apontou ainda a necessidade de ampliar vias segregadas e destacou que a expansão do sistema ABS para toda a frota, hoje obrigatório apenas em motos acima de 300 cilindradas, pode reduzir em até 37% a gravidade dos sinistros. Estados do Norte e do Nordeste, especialmente Maranhão, Piauí e Pará, foram apontados como prioridades para ações regionalizadas.
Demonstração de resgate ao vivo
O Corpo de Bombeiros Militar encerrou o bloco da manhã com uma demonstração que nenhum dado consegue substituir. Uma equipe de profissionais reconstituiu ao vivo o atendimento a uma vítima presa em veículo após colisão grave. Ferramentas hidráulicas, corte técnico de vidro e lataria, imobilização e retirada com prancha — cada etapa executada com explicação detalhada sobre a razão do procedimento e a ordem correta de execução. A demonstração deixou claro que a segurança viária não termina na prevenção. Ela se estende ao tempo de resposta e à qualidade do atendimento de quem chega primeiro ao local do sinistro.
A tarde avançou sobre as ferramentas que atuam antes do acidente acontecer. No campo dos dados, o debate focou na integração das bases da ANTT com o SENATRAN e a PRF para construção de mapas de calor em tempo real, tecnologia que permite identificar trechos de maior risco antes que os sinistros se acumulem. O uso de inteligência artificial para monitoramento preditivo, cruzando condições climáticas e fluxo de veículos, foi apresentado como caminho para uma regulação que antecipa ocorrências. A disponibilização de dados abertos completa esse movimento, ampliando a capacidade de intervenção das concessionárias e da sociedade na ponta da infraestrutura.
No transporte de produtos perigosos, os números falam por si: cerca de 33% das cargas que circulam nas rodovias brasileiras têm componentes perigosos, e um acidente envolvendo esse tipo de carga pode custar até 15 vezes mais do que um sinistro comum, considerados os impactos ambientais e operacionais. O fortalecimento do Canal Verde, sistema de fiscalização eletrônica que identifica veículos irregulares sem necessidade de parada total, e a modernização das normas foram apontados como caminhos para ampliar previsibilidade ao transportador e segurança a quem divide a via.
A importância da sinalização fechou a programação técnica com uma meta objetiva: uniformizar 100% da sinalização vertical nas concessões federais até o final de 2026. Materiais com alta retrorrefletividade garantem visibilidade mesmo sob chuva e podem reduzir em 30% o tempo de reação do condutor, benefício especialmente relevante para motociclistas, que têm menor campo visual noturno. A discussão foi orientada pelo conceito de "via que perdoa": rodovias projetadas para minimizar as consequências dos erros humanos, onde a engenharia atua como primeira linha de proteção.
No encerramento, conduzido pela Diretoria Colegiada, os resultados do dia foram vistos em conjunto. Os R$ 2 bilhões gastos anualmente pelo SUS com motociclistas acidentados deixaram de ser número frio para se tornar referência de meta regulatória. A simulação dos bombeiros mostrou que o protocolo de resgate é o elo final de uma cadeia que começa na sinalização, passa pela fiscalização e termina no atendimento emergencial. A ANTT integra tecnologia, norma e operação para que a infraestrutura cumpra seu papel mais básico: garantir que cada usuário chegue ao destino em segurança.
Coordenação-Geral de Comunicação - ANTT
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