Notícias
Água e indústria: monitoramento, outorgas e gestão hídrica no Brasil
A indústria desempenha papel relevante tanto na economia brasileira quanto no uso da água no país. Seu parque industrial, amplo e diversificado, abrange desde a produção de bens de consumo até tecnologias de ponta, reunindo processos produtivos, tecnologias e protocolos variados. Nesse contexto, a água constitui insumo essencial da cadeia produtiva, sendo utilizada tanto diretamente, como matéria-prima ou componente de processos industriais, quanto indiretamente, no resfriamento de equipamentos, na geração de energia e na limpeza de instalações.
Diante da diversidade e da complexidade desse uso, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) desempenha papel central no monitoramento e na gestão da água consumida pela indústria. A atuação da Agência envolve a produção de informações sobre as demandas hídricas, a regulação dos usos em corpos d’água de domínio da União e a articulação com órgãos estaduais, comitês de bacia e representações do setor. Essa relação também inclui o acompanhamento dos volumes captados, a definição de condições para o lançamento de efluentes e a elaboração de estudos que orientam o planejamento dos recursos hídricos.
A indústria, porém, não utiliza água de uma única maneira. A intensidade do uso depende do tipo de processo e de produto, das tecnologias empregadas, das boas práticas e do estágio de gestão de cada empreendimento. Em alguns segmentos, a água é incorporada ao produto. Em outros, é empregada como reagente, solvente, meio de lavagem ou em operações de aquecimento e resfriamento.
Essas diferenças fazem com que indústrias instaladas numa mesma região apresentem demandas distintas. Também ajudam a explicar por que o conhecimento sobre o uso efetivo da água em cada etapa da produção é necessário para a gestão das bacias hidrográficas.
Em 2024, a indústria respondeu por 9,9% da retirada de água para usos consuntivos no Brasil, com uma vazão estimada de 207,3 metros cúbicos por segundo, segundo o Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025. O setor ocupou a terceira posição entre os usos considerados pela ANA, atrás da agricultura irrigada, responsável por 50,3% da retirada, e do abastecimento urbano, com 22,3%. As projeções indicam continuidade da expansão do uso da água pela indústria no país, estimando-se um acréscimo superior a 125 bilhões de litros por ano até 2040, conforme o Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil (2024).
Em relação à eficiência do uso da água pelo setor industrial, no mais recente relatório ODS 6 no Brasil: Visão da ANA sobre os indicadores (2025), o Indicador 6.4.1, que relaciona o valor adicionado bruto (VAB) dos setores econômicos ao volume de água retirado para usos consuntivos, evidencia elevada produtividade hídrica para a indústria, decorrente do maior valor agregado gerado por unidade de água utilizada pelo setor, com a eficiência do uso da água alcançando aproximadamente R$ 117/m³ em 2022 (a preços constantes de 2015).
Outorga organiza o acesso à água
Nos rios, lagos e reservatórios de domínio da União, a ANA é responsável pela análise dos pedidos de outorga de direito de uso dos recursos hídricos. Ela autoriza o uso por determinado período e estabelece limites e condições para captações, consumo e lançamento de efluentes.
Para a indústria, a outorga faz parte do planejamento da operação. Para a gestão pública, permite conhecer as demandas existentes e avaliar se há disponibilidade para atender a um novo empreendimento sem comprometer os usos já instalados e as condições do corpo hídrico.
Entre 2021 e 2026, a indústria brasileira manteve outorgas vigentes em 64 atividades econômicas distintas, distribuídas por 22 unidades da federação, segundo levantamento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). No período, essas autorizações somaram um volume anual outorgado de quase 3 bilhões de metros cúbicos — 2.996.876.130 m³/ano —, com vazão máxima outorgada acumulada de 344.969 m³/h.
O volume outorgado cresceu de forma expressiva entre 2021 e 2024, ano em que atingiu o pico da série, com mais de 1 bilhão de metros cúbicos autorizados (1.012.775.085 m³/ano). Em 2025, o volume recuou para 850.719.681 m³/ano, e a trajetória de queda se mantém em 2026, cujos dados ainda são parciais.
Por atividade econômica, o uso industrial da água outorgada é fortemente concentrado. A fabricação de celulose e outras pastas para a produção de papel lidera o ranking, com 1.208.616.577 m³/ano outorgados no período — mais que o dobro do segundo colocado, a fabricação de produtos derivados do petróleo, com 638.766.600 m³/ano. Completa o pódio a fabricação e o refino de açúcar, com 235.082.681 m³/ano. Juntas, essas três atividades respondem por cerca de 70% de todo o volume outorgado à indústria no período, refletindo o perfil hidricamente intensivo dos processos de celulose e papel, refino de petróleo e produção sucroalcooleira.
Sob o recorte geográfico, os maiores volumes outorgados concentram-se em três estados: Pará (631.671.352 m³/ano), impulsionado pela presença de grandes empreendimentos de celulose e de siderurgia/mineração; Rio de Janeiro (364.137.208 m³/ano), puxado por terminais de regaseificação e refino; e São Paulo (330.170.809 m³/ano), refletindo seu parque industrial diversificado.
Da fábrica à escala da bacia
A aproximação entre a gestão da água e a realidade das linhas de produção pode ser observada na bacia do Rio Paranapanema, compartilhada por São Paulo e Paraná. Em atendimento às ações do Plano Integrado de Recursos Hídricos da bacia e às prioridades definidas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranapanema, a ANA coordenou um estudo sobre o uso industrial da água na região. O trabalho contou com a participação dos órgãos gestores e ambientais dos dois estados, dos comitês das bacias afluentes e de representantes do setor industrial.
A publicação A Indústria na Bacia do Rio Paranapanema: uso da água e boas práticas analisou quatro segmentos presentes na região: sucroenergético, celulose e papel, bebidas alcoólicas e produtos de carne. O levantamento utilizou registros do CNARH, bancos de outorgas federais e estaduais, informações de licenciamento ambiental, questionários, entrevistas e visitas técnicas. O cruzamento das fontes permitiu construir indicadores de captação, consumo, lançamento de efluentes e geração de cargas poluidoras.
As visitas às indústrias mostraram que o detalhamento do percurso da água dentro das unidades produtivas pode ajudar a localizar perdas e oportunidades de redução. Fluxogramas com o balanço hídrico de cada etapa, por exemplo, permitem identificar onde a água entra, como é utilizada e em que quantidade retorna ao processo ou é descartada. O estudo reuniu medidas que vão de ajustes operacionais e manutenção de equipamentos à implantação de tecnologias de reúso e ao aperfeiçoamento do tratamento de efluentes. Também foram elaborados indicadores de referência para diferentes níveis de desempenho.
Os resultados podem subsidiar a atualização do plano da bacia e o aperfeiçoamento de instrumentos como outorga, cobrança, enquadramento dos corpos d’água e sistemas de informações. A metodologia pode ainda ser adaptada para outras bacias hidrográficas ou para análises nacionais e regionais de segmentos específicos.
Assessoria Especial de Comunicação Social (ASCOM)
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
imprensa@ana.gov.br
www.gov.br/ana | Facebook | Instagram | Twitter | YouTube | LinkedIn | TikTok