Patentes e inovação agropecuária no Brasil: uma proxy territorial para análise da distribuição tecnológica regional (2020–2024)
Autor: Thiago Mendes Lima
Consultor em Inovação Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária
1 - Introdução
A transformação recente do agronegócio brasileiro vem sendo acompanhada por um processo acelerado de incorporação tecnológica, integração agroindustrial e digitalização das cadeias produtivas. Biotecnologia, agricultura de precisão, automação, sensores, inteligência artificial, bioinsumos, rastreabilidade e tecnologias ambientais passaram a ocupar papel crescente na competitividade do setor. Nesse contexto, a inovação agropecuária deixou de se restringir ao espaço da produção primária e passou a articular uma ampla infraestrutura científico-industrial baseada em ativos intangíveis e propriedade intelectual.
Apesar da relevância econômica e tecnológica do setor, a mensuração territorial da inovação agropecuária brasileira ainda enfrenta limitações metodológicas importantes. As bases públicas do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) disponibilizam informações por unidade federativa, titularidade e campo tecnológico IPC/CIP, mas não oferecem uma matriz consolidada que relacione simultaneamente território, domínio tecnológico e aderência ao agronegócio.
Diante dessa limitação, o presente estudo desenvolveu uma Proxy Agro, destinada a estimar a distribuição territorial das patentes agropecuárias no Brasil entre 2020 e 2024, tanto para patentes concedidas quanto para depósitos de patentes.
A proposta não pretende substituir estatísticas oficiais, mas construir uma ferramenta analítica capaz de aproximar a geografia da inovação agropecuária brasileira contemporânea.
2 - Metodologia
A construção da Proxy Agro foi baseada em dados do INPI (BADEPI e tabelas completas de indicadores de propriedade industrial) e em referências internacionais de taxonomia tecnológica e prospecção patentária, especialmente os estudos da WIPO sobre tecnologias Agrifood, do European Patent Office sobre agricultura digital e da OCDE sobre tecnologias ambientais (INPI, 2025; WIPO, 2024; EPO, 2025; OECD, 2025).
A metodologia parte da premissa de que determinados campos tecnológicos apresentam maior probabilidade de associação estrutural com o sistema agroalimentar. Contudo, reconhece simultaneamente que esses campos são transversais e frequentemente compartilhados com outros segmentos econômicos.
Por essa razão, o modelo utiliza uma lógica de ponderação probabilística de aderência agropecuária. Em vez de classificar determinados domínios tecnológicos como integralmente agropecuários, a metodologia estima diferentes graus de associação ao agronegócio com base:
- na literatura internacional de inovação;
- em taxonomias tecnológicas;
- na composição econômica dos setores;
- e na densidade observável de aplicações agropecuárias em cada domínio tecnológico.
Foram considerados especialmente os campos relacionados a:
- biotecnologia;
- química de alimentos;
- máquinas especiais;
- análise de materiais biológicos;
- engenharia química;
- tecnologias ambientais;
- telecomunicações e sensores;
- inteligência artificial e métodos computacionais.
Relatórios da WIPO/OMPI mostram que o universo global de patentes Agrifood ultrapassa 3,5 milhões de famílias patentárias publicadas nas últimas duas décadas, distribuídas entre tecnologias agrícolas, alimentos, automação e sistemas digitais (WIPO, 2024). A mesma base evidencia a crescente centralidade da agricultura de precisão; sensores; bioinsumos; fertilizantes inteligentes; controle biológico; e sistemas automatizados.
Dados do Escritório Europeu de Patentes (EPO, 2025) mostram que as tecnologias ligadas à agricultura digital vêm crescendo a taxas significativamente superiores à média global das demais áreas tecnológicas, especialmente em sensores; uso de imagens; drones; automação; monitoramento remoto; inteligência artificial; e análise de dados.
Já a OCDE trata as patentes ambientais como um domínio altamente transversal, envolvendo a mitigação climática; gestão hídrica; adaptação ambiental; sustentabilidade produtiva; e tecnologias de baixo carbono.
Essas referências permitiram calibrar a ponderação dos campos tecnológicos sem recorrer a classificações determinísticas rígidas.
3 - Patentes concedidas: capacidade tecnológica consolidada
A aplicação da Proxy Agro às patentes concedidas resultou em uma estimativa de aproximadamente 3.271 patentes agropecuárias concedidas no Brasil entre 2020 e 2024.
As concessões representam ativos tecnológicos efetivamente reconhecidos pelo sistema de propriedade industrial, uma vez que passaram pelo exame técnico do INPI. Por isso, esse indicador tende a refletir o estoque tecnológico consolidado da inovação agropecuária nacional.
Os resultados revelam forte concentração territorial da propriedade intelectual agropecuária brasileira (tabela 1).
Tabela 1: Total de Patentes Concedidas ao Setor Agropecuário Brasileiro
|
UF |
Patentes agro concedidas — Proxy 3.0 |
Participação nacional |
|
SP |
1.041 |
31,8% |
|
RS |
516 |
15,8% |
|
MG |
377 |
11,5% |
|
PR |
356 |
10,9% |
|
SC |
271 |
8,3% |
|
RJ |
206 |
6,3% |
|
BA |
91 |
2,8% |
|
GO |
79 |
2,4% |
|
DF |
66 |
2,0% |
|
MT |
61 |
1,9% |
|
CE |
52 |
1,6% |
|
ES |
49 |
1,5% |
|
MS |
43 |
1,3% |
|
PE |
39 |
1,2% |
|
PA |
31 |
0,9% |
|
RN |
26 |
0,8% |
|
PB |
21 |
0,6% |
|
MA |
16 |
0,5% |
|
SE |
13 |
0,4% |
|
AM |
11 |
0,3% |
|
TO |
9 |
0,3% |
|
PI |
6 |
0,2% |
|
AP |
4 |
0,1% |
|
AL |
3 |
0,1% |
|
RO |
2 |
<0,1% |
|
AC |
1 |
<0,1% |
|
RR |
1 |
<0,1% |
Fonte: Elaborada pelo autor (2026).
Os cinco principais estados concentram aproximadamente 78% das patentes agro concedidas estimadas. O resultado sugere que a geração de propriedade intelectual agropecuária permanece fortemente associada aos polos científicos; industriais; agroindustriais; e universitários do Sul e Sudeste.
4 - Depósitos de patentes: dinamismo inovativo recente
Quando a mesma metodologia é aplicada aos depósitos de patentes, os resultados apresentam distribuição territorial um pouco mais dispersa, conforme a tabela 2. A Proxy Agro estima aproximadamente 4.169 depósitos agropecuários ponderados entre 2020 e 2024.
Os depósitos representam esforço inovativo e intenção de proteção tecnológica. Diferentemente das concessões, refletem melhor a dinâmica recente de produção de conhecimento, embora não indiquem necessariamente que a patente será concedida.
Tabela 2: Total de Patentes Depositadas pelo Setor Agropecuário Brasileiro
|
UF |
Depósitos agro estimados — Proxy 3.0 |
Participação nacional |
|
SP |
1.232 |
29,5% |
|
RS |
486 |
11,7% |
|
MG |
448 |
10,8% |
|
PR |
400 |
9,6% |
|
RJ |
322 |
7,7% |
|
SC |
265 |
6,4% |
|
PB |
217 |
5,2% |
|
BA |
123 |
3,0% |
|
PE |
96 |
2,3% |
|
GO |
73 |
1,7% |
|
CE |
69 |
1,7% |
|
ES |
64 |
1,5% |
|
MS |
50 |
1,2% |
|
DF |
46 |
1,1% |
|
PA |
43 |
1,0% |
|
SE |
42 |
1,0% |
|
MT |
38 |
0,9% |
|
RN |
37 |
0,9% |
|
MA |
35 |
0,8% |
|
AL |
26 |
0,6% |
|
PI |
19 |
0,5% |
|
AM |
17 |
0,4% |
|
TO |
9 |
0,2% |
|
RR |
6 |
0,1% |
|
RO |
3 |
0,1% |
|
AC |
2 |
<0,1% |
|
AP |
2 |
<0,1% |
Fonte: Elaborada pelo autor (2026).
A principal diferença em relação às concessões é a maior dispersão regional dos depósitos, especialmente em estados do Nordeste.
O caso da Paraíba é particularmente relevante: o estado apresenta participação significativamente superior nos depósitos em comparação às concessões. O dado sugere dinamismo recente de produção científica e tecnológica, provavelmente associado à expansão universitária e ao fortalecimento de ecossistemas locais de pesquisa aplicada.
5 - Discussão
A comparação entre depósitos e concessões revela uma característica importante da inovação agropecuária brasileira contemporânea.
As concessões permanecem fortemente concentradas nos polos históricos de capacidade científico-industrial do Sul e Sudeste. Já os depósitos sugerem expansão mais recente da atividade inovativa para além dos territórios tradicionalmente dominantes.
O resultado também evidencia uma dissociação importante entre:
- capacidade produtiva agropecuária;
- e capacidade territorial de geração de propriedade intelectual.
Estados do Centro-Oeste, apesar de sua enorme centralidade econômica no agronegócio brasileiro, apresentam participação relativamente modesta no universo patentário estimado. Isso sugere que parcela significativa da modernização tecnológica regional ocorre por meio da incorporação de tecnologias desenvolvidas em outros territórios ou por titulares externos.
Ao mesmo tempo, os resultados indicam emergência gradual de novos polos tecnológicos associados à agricultura digital; à bioeconomia; à sustentabilidade; às tecnologias climáticas; e à adaptação produtiva regional.
6 - Considerações finais
A Proxy Agro sugere que o agronegócio brasileiro opera cada vez mais como um sistema intensivo em ciência; tecnologia; ativos intangíveis; plataformas digitais;e integração agroindustrial.
Mais do que medir apenas a produção agropecuária, a metodologia busca capturar a territorialização da capacidade tecnológica associada ao sistema agroalimentar brasileiro.
Os resultados mostram que a inovação agropecuária permanece fortemente concentrada nos polos científicos e industriais do Sul-Sudeste, mas também revelam sinais de dispersão recente da atividade inovativa para novos territórios, especialmente no Nordeste.
7 - Referências
CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA (CEPEA); CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL (CNA). PIB do Agronegócio Brasileiro. Piracicaba: CEPEA/ESALQ-USP; Brasília: CNA, 2025. Disponível em: https://cepea.org.br/br/pib-do-agronegocio-brasileiro.aspx. Acesso em: 3 jun. 2026.
EUROPEAN PATENT OFFICE (EPO). Digital Agriculture Technology Platform. Munich: European Patent Office, 2025. Disponível em: https://www.epo.org/en/searching-for-patents/technology-platforms/digital-agriculture. Acesso em: 10 jun. 2026.
EUROPEAN PATENT OFFICE (EPO). Digital Agriculture: patent trends and technological developments. Munich: European Patent Office, 2025. Disponível em: https://www.epo.org/en/about-us/observatory-patents-and-technology/technologies/digital-agriculture. Acesso em: 10 jun. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). PIB cresce 2,3% em 2025 e fecha o ano em R$ 12,7 trilhões. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45968-pib-cresce-2-3-em-2025-e-fecha-o-ano-em-r-12-7-trilhoes. Acesso em: 15 jun. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL (INPI). Base de Dados Estatísticos da Propriedade Industrial (BADEPI). Rio de Janeiro: INPI, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inpi/pt-br/inpi-data/dados-e-series-temporais/badepi. Acesso em: 5 jun. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL (INPI). Estatísticas preliminares de propriedade industrial. Rio de Janeiro: INPI, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inpi/pt-br/inpi-data/dados-e-series-temporais/estatisticas-preliminares. Acesso em: 7 jun. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL (INPI). Tabelas completas dos indicadores de propriedade industrial. Rio de Janeiro: INPI, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inpi/pt-br/inpi-data/dados-e-series-temporais/tabelas-completas-dos-indicadores-de-pi. Acesso em: 6 jun. 2026.
ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Patents on Environment Technologies. Paris: OECD, 2025. Disponível em: https://www.oecd.org/en/data/indicators/patents-on-environment-technologies.html. Acesso em: 10 jun. 2026.
WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION (WIPO). Patent Landscape Report: Agrifood. Geneva: WIPO, 2024. Disponível em: https://www.wipo.int/web-publications/patent-landscape-report-agrifood/en/. Acesso em: 9 jun. 2026.
WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION (WIPO). Patent Landscape Report: Agrifood – Key Findings. Geneva: WIPO, 2024. Disponível em: https://www.wipo.int/web-publications/patent-landscape-report-agrifood/en/key-findings.html. Acesso em: 9 jun. 2026.