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PRÊMIO CAPES DE TESE
Rankings acadêmicos são assunto crítico de tese em Educação

- Imagem: Marca dos 20 anos do Prêmio CAPES de Tese (ASCOM/CAPES)
Os rankings acadêmicos e sua influência no cotidiano das universidades públicas foram objeto de estudo na tese Rankings acadêmicos no Brasil e nos Estados Unidos: contornos locais de uma experiência global, de André Martins, vencedora do Prêmio CAPES de Tese na área de Educação. Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador teve o fomento da CAPES para a realização do trabalho. A análise mostra que o uso dessas classificações como "selo de qualidade" afasta as instituições de sua função social prioritária. Faz-se o alerta de que o uso acrítico dessas classificações internacionais, para atestar qualidade, na ausência de metas públicas claras, enfraquece a legitimidade social das instituições brasileiras. O estudo destaca a urgência de o ensino superior criar métricas próprias e de fortalecer o diálogo com a sociedade, a fim de proteger sua autonomia diante de ameaças autoritárias.
Sobre o que é a sua pesquisa? Explique o conteúdo da sua tese.
Minha tese analisa os efeitos da popularização dos rankings acadêmicos sobre a administração de universidades públicas no Brasil e nos Estados Unidos. O interesse pelo tema surgiu da constatação de que, apesar das críticas e fragilidades metodológicas apontadas pela comunidade científica, esses rankings repercutem fortemente no cotidiano universitário, afetando estudantes, docentes e gestores. A revisão de literatura mostrou que os Estados Unidos foram pioneiros na popularização dessas classificações, em um contexto institucional muito distinto do brasileiro. Lá, os rankings se institucionalizaram como guias para a escolha dos estudantes em um mercado de admissão altamente competitivo. Os rankings passaram a integrar a vida institucional da educação superior porque os estudantes os utilizavam para decidir onde estudar, e as universidades, competindo pelos alunos mais talentosos, passaram a observar atentamente os instrumentos que orientam essas escolhas. No Brasil, embora não exista esse mercado educacional para as universidades públicas, os rankings também adquiriram significativa popularidade entre essas instituições. A questão central da pesquisa foi, então: como os rankings acadêmicos, enquanto instrumento global de avaliação e classificação de universidades, têm se institucionalizado em campos de educação superior tão distintos? Para responder a essa questão, desenvolvi uma análise comparada da institucionalização dos rankings na administração de quatro universidades públicas, no Brasil e nos Estados Unidos. A pesquisa analisou atas de reuniões deliberativas das quatro instituições e realizou entrevistas com seus gestores, procurando avaliar, para além dos relatórios e demais documentos oficiais, como os rankings se tornaram referências importantes na produção de sentido na administração universitária.
O que vale destacar de mais relevante na sua pesquisa?
Os rankings criam microoportunidades de ação empreendedora tanto dentro quanto fora das universidades. Internamente, diferentes atores utilizam essas classificações para conferir legitimidade a suas reivindicações em instâncias deliberativas, apropriando-se da autoridade simbólica dos rankings como avaliação externa. Externamente, as universidades procuram projetar sua imagem por meio dos rankings que oferecem maior visibilidade pública, e não necessariamente daqueles que refletem melhor qualidade científica. Assim, o critério de mobilização é menos científico e mais estratégico: ao utilizarem rankings de forma empreendedora, as próprias universidades acabam legitimando essas classificações, mesmo diante de suas fragilidades. A ausência de uma comunicação efetiva entre universidades, sociedade e poder público, pautada por objetivos compartilhados, abre espaço para que os rankings ocupem esse vazio. Na Califórnia, onde há uma política explícita de definição de metas públicas para as universidades, os rankings tendem a ser percebidos como elementos que desviam da missão institucional. No Brasil, ao contrário, universidades e autoridades têm mobilizado essas classificações como parâmetro de qualidade, o que fragiliza a construção de vínculos capazes de sustentar uma legitimidade social mais sólida — condição especialmente relevante em um cenário de avanço do populismo autoritário e de contestação crescente da legitimidade das universidades.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
Acredito que a pesquisa pode cumprir um papel importante na conscientização acerca dos riscos associados ao atrelamento da legitimidade social das universidades a rankings acadêmicos. Diante do avanço de regimes autoritários que ameaçam a autonomia universitária, é fundamental que as instituições reforcem sua legitimidade social por meio de uma comunicação efetiva com a sociedade. Essa construção deve se apoiar em instrumentos próprios e adequados a diferentes contextos sociais, econômicos e institucionais, de modo a reafirmar a missão pública das universidades.
Qual a importância para você de sua tese ter sido escolhida a melhor na área?
Estou muito feliz e honrado pela escolha da minha tese. Não tenho dúvidas de que o prêmio contribuirá significativamente para a divulgação do trabalho, fomentando a discussão crítica sobre rankings acadêmicos no país.
De que forma a bolsa da CAPES/MEC contribuiu para sua formação?A bolsa da CAPES/MEC foi essencial como política de permanência, pois me deu condições de me dedicar intensivamente ao doutorado. Também contei com o apoio da Comissão Fulbright, por meio do Doctoral Dissertation Research Award, que viabilizou meu trabalho de campo nos Estados Unidos. Esses dois apoios foram decisivos para que eu pudesse desenvolver a pesquisa com a profundidade necessária.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
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