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BOLSISTA EM DESTAQUE
Pesquisa reconstrói a história e ancestralidade das comunidades nos territórios Laje e Canjembre
Em celebração ao mês da mulher, o quadro Bolsista em Destaque entrevista a arqueóloga Luciana Alves Costa, bacharel em Arqueologia pela Universidade Federal de Sergipe, mestre em Arqueologia pela Universidade de São Paulo e, atualmente, doutoranda na mesma instituição. O interesse pela pesquisa surgiu na graduação, por meio da participação em pesquisas de iniciação científica e projetos arqueológicos externos à universidade. Sua linha de pesquisa se dedica a duas perspectivas temáticas principais: as arqueologias afrodiaspóricas e a arqueologia do cangaço, com suas pesquisas laureadas em três premiações acadêmicas: duas concedidas pela Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) e uma pelo governo federal, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
No ano passado, a dissertação de mestrado de Luciana, intitulada “O caminho de casa: arqueologia, ancestralidade e aquilombamento nos territórios Laje e Canjembre, antiga Fazenda e Olaria Carmo, em Rosário, Maranhão” recebeu o Prêmio de Excelência Acadêmica na primeira edição do Prêmio Niède Guidon, concedido pela Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB).
Em sua tese, a pesquisadora propõe reconstruir e fortalecer a história e a identidade de uma comunidade tradicional negra, com ascendência indígena, por meio da arqueologia da diáspora africana e da autoarqueologia, uma das abordagens da arqueologia do presente, que viabiliza pesquisas conduzidas por descendentes em suas comunidades. A partir desses relatos e experiências, Luciana pretende reconstruir a história de como essas pessoas aquilombaram e transformaram uma fazenda escravista pertencente à Ordem Religiosa Carmelita, a Fazenda e Olaria do Carmo, nas comunidades Laje e Canjembre, analisando cerca de 325 anos de história desde a construção da fazenda.
Sobre o que é a sua pesquisa? Explique o conteúdo do seu trabalho.
Situada no Maranhão, minha pesquisa nasce de um encontro entre gerações que recorrem à arqueologia para reconectar-se com a própria história. O estudo alcançou três séculos (325 anos) e (re)identificou a antiga Fazenda e Olaria do Carmo, pertencente à Ordem Carmelita, evidenciando como nossos ancestrais familiares, ali escravizados, aquilombaram o território ao mobilizar tecnologias tradicionais e afirmar seus próprios sentidos de mundo. Mais que um estudo arqueológico, a pesquisa tem atuado como uma ferramenta de reumanização afrodiaspórica, de reconhecimento e de proteção do nosso território e modo de vida tradicional, atravessados pelo colonialismo e historicamente invisibilizados pelo Estado no pós-abolição.
O que vale destacar de mais relevante na sua pesquisa?
Para mim, a arqueologia é uma ciência do cotidiano que quanto mais próxima das pessoas, mais possibilidades e resultados ela oferece, ou seja, mais potente ela se torna. A arqueologia não precisa ser algo inalcançável, restrito a nós, pesquisadores. Quando colocamos em confluência diferentes sistemas de conhecimento, como os da arqueologia e os das comunidades tradicionais, ampliamos as potencialidades da ciência. O que mais me encanta nesse processo é que, junto à minha comunidade, inclusive familiar, conseguimos, por meio da arqueologia, compreender a história do nosso território e de nossos ancestrais, a nossa própria história. Muitas comunidades tradicionais, formadas a partir dos horrores do colonialismo, como a escravidão indígena e africana, foram historicamente invisibilizadas e permanecem desassistidas pelo Estado. Nesse contexto, a arqueologia tem sido nossa esperança e estratégia.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
Essa pesquisa arqueológica, resultado da minha dissertação, é a materialização de que é possível fazer ciência para além da academia, valorizando os conhecimentos que estão fora de seus muros, sem abrir mão do rigor metodológico-científico, acadêmico. Isso porque comunidades tradicionais também produzem ciência. Para além disso, a pesquisa traz à tona uma parte da história deste país ao evidenciar o colonialismo interno e a resiliência secular das comunidades tradicionais, inclusive na manutenção de seus territórios. Trata-se de mais uma possibilidade de conhecer um pouco mais sobre a história do Brasil e, consequentemente, sobre a nossa própria história.
Foi bolsista da CAPES/MEC? Se sim, de que forma a bolsa contribui para sua formação?
A bolsa da CAPES/MEC garantiu que eu pudesse me dedicar à pesquisa e à realização do trabalho de campo. Sem dúvida, sem esse investimento eu — e nós enquanto comunidade — não teríamos conseguido.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
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