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BOLSISTA EM DESTAQUE
Estudo busca relacionar cultura, história e emoções na trajetória científica.
Bruna Navarone Santos é bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre e doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino em Biociências e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz (PPGEBS-IOC/Fiocruz). Em seu doutorado, realizou um período sanduíche durante um ano na Universidade de Tsukuba, no Japão, como membro do Laboratório Empowerment Sciences.
Durante a iniciação científica do PIBIC-Graduação, Bruna teve sua primeira experiência com o desenvolvimento de um projeto de pesquisa supervisionado, no Laboratório de Iniciação Científica na Educação Básica (LIC-PROVOC/EPSJV/Fiocruz). Momento em que participou do projeto “Estudos comparados sobre a emoção e a formação científica na Fundação Oswaldo Cruz com foco nos orientandos” sob orientação da Dra. Isabela Cabral Félix de Sousa e da M.sc Cristiane Nogueira Braga.
O envolvimento da pesquisadora com a iniciação científica contribuiu para o interesse de Bruna por estudos sobre as emoções e formação científica dos jovens, temas os quais aprofundou no mestrado com a pesquisa “O Papel das Emoções no Processo Formativo de Jovens do Programa de Vocação Científica na Fundação Oswaldo Cruz”.
No doutorado, deu continuidade a esses temas, articulando concepções de ciência em diferentes contextos, considerando aspectos culturais e históricos, numa pesquisa em educação comparada: “Sentidos de Ciência em Programas de Iniciação Científica no Brasil e no Japão”.
- Sobre o que é a sua pesquisa? Explique o conteúdo da sua tese.
Minha pesquisa de doutorado adota uma abordagem interdisciplinar para examinar como fatores culturais, históricos e emocionais conformam a formação científica, por meio da comparação entre dois programas: o PROVOC-EPSJV/Fiocruz, no Brasil, e o Sakura Science High School Program (SSHSP), no Japão. O estudo investiga como os sentidos de ciência, nesses diferentes contextos, podem influenciar os objetivos, o planejamento de atividades e as formas de participação dos estudantes. Também identifica como esses sentidos de ciência se articulam aos aspectos emocionais presentes nos relatos dos estudantes, especialmente no que diz respeito aos conhecimentos e as disposições necessárias às práticas de atividades científicas.
A pesquisa documental e de análise de conteúdo debruçou-se sobre registros de atividades e relatos de experiências de estudantes, publicados entre 2015 e 2019. Estas foram complementadas por observação participante realizada em 2024, no Japão, durante uma edição do SSHSP que reuniu estudantes de Ensino Médio do Peru em Kyoto e Ibaraki e abordou a sustentabilidade de cidades históricas e sua resiliência a desastres naturais.
Enquanto os estudantes do programa japonês SSHSP associam a educação científica ao desenvolvimento tecnológico-industrial e à diplomacia internacional, os participantes do programa brasileiro PROVOC-EPSJV/Fiocruz priorizam o amadurecimento pessoal e a preparação para escolhas profissionais futuras, evidenciando uma distinção cultural entre o foco no progresso coletivo e na formação individual.
No que diz respeito ao que ambos os programas possuem em comum, esses fornecem atividades de iniciação científica que motivam a problematização de noções prévias sobre ciência e quem faz ciência. Além disso, os estudantes de ambos os programas destacam a importância da relação com as pessoas que os supervisionam nesses espaços acadêmico-científicos, professores-pesquisadores e demais colegas participantes para a realização das atividades científicas.
Minha tese aborda os sentidos de ciência na formação científica e buscou ampliar a compreensão sobre as relações entre cultura e educação científica, evidenciando o papel das emoções, das interações sociais e dos contextos históricos na formação científica. Essa pesquisa comparada destaca a importância dos aspectos culturais e históricos que moldam a compreensão da ciência.
Foi possível na tese estudar como os sentidos de ciência são situados e relacionais em seu processo de construção no contato com o outro, valores e práticas sociais. Esse enfoque pode levar a compreensão de que modo fatores culturais podem fundamentar estratégias pedagógicas capazes de integrar o pensamento crítico, apoiando o desenvolvimento desses estudantes na formação científica. Dentre essas estratégias, a tese apresenta como proposta um guia educacional para uma futura oficina, utilizando mangás e animações japonesas como recursos pedagógicos, enquanto uma iniciativa para envolver os estudantes em discussões interculturais e reflexões sobre a relação entre indivíduo, natureza e sociedade.
- O que vale destacar de mais relevante na sua pesquisa?
Os relatos de experiências dos estudantes no PROVOC-EPSJV/Fiocruz e no SSHSP demonstram que a ciência não se reduz a técnicas ou conteúdos objetivos, mas envolve processos de socialização mediados por valores históricos, culturais e emocionais. Reconhecer que os sentidos da ciência são situados e relacionais e essa complexidade do processo de formação científica é fundamental para construir políticas educacionais capazes de ampliar oportunidades para os estudantes.
Entende-se que aprender a fazer ciência na educação científica, assim como o ato de aprender, também é um processo que depende do engajamento de diferentes profissionais: da coordenação pedagógica, que organiza a seleção e acompanha a formação do estudante, e dos orientadores, coorientadores e estudantes engajados no processo de planejamento e realização das atividades científicas.
Finalmente, é muito enriquecedor promover colaborações internacionais e formar cientistas críticos que possam lidar com desafios globais a partir de experiências coletivas e valorização de saberes múltiplos.
- Foi bolsista da CAPES? Se sim, de que forma a bolsa contribui para sua formação?
Fui bolsista da CAPES durante o doutorado e por meio do programa CAPES-PrInt, que viabilizou meu doutorado sanduíche na Universidade de Tsukuba, no Japão. Essas bolsas foram fundamentais para a minha formação, porque garantiram a continuidade da pesquisa. A bolsa internacional para estudar no Japão possibilitou uma experiência internacional decisiva para o desenvolvimento da pesquisa e de seus desdobramentos. Além disso, foi essencial para que eu pudesse me dedicar integralmente ao projeto de pesquisa do doutorado, com foco, tempo e condições adequadas para dar andamento as atividades previstas.
O financiamento do doutorado sanduíche pela CAPES viabilizou uma imersão acadêmica no Japão que permitiu o acompanhamento das atividades do SSHSP e a participação ativa no Projeto de Iniciação à Ciência (PIC) da Associação de Pesquisadores Brasileiros no Japão. Idealizado pela m estra em Educação Eri Hachiman, o projeto fomenta o interesse científico e o acesso ao ensino superior para jovens brasileiros, iniciativa na qual a autora segue colaborando remotamente como mediadora de Tertúlia Científica Dialógica.
O doutorado sanduíche com financiamento da CAPES também teve desdobramentos importantes após o meu retorno do Japão. A partir da orientação das atividades de pesquisa durante esse período, a Dra. Tokie Anme demonstrou interesse em conhecer de forma mais aprofundada instituições de ensino e pesquisa brasileiras. Nesse contexto, ao final de 2023, antes do meu retorno ao Brasil para a conclusão do doutorado, fui convidada por ela para coordenar a organização de sua visita institucional ao Rio de Janeiro, realizada entre os dias 3 e 10 de outubro de 2025. Essa iniciativa envolveu o planejamento e realização de atividades junto à FIOCRUZ e à UFRJ, por meio de reuniões institucionais, visitas técnicas e palestras. Além disso, esta iniciativa favoreceu o estabelecimento de diálogos sobre possibilidades de futuras parcerias acadêmicas e científicas entre os profissionais dessas instituições envolvidas.
Também houve importantes desdobramentos da pesquisa de doutorado com publicação de dois artigos, um em revista internacional “Scientific Concepts in Programs in Brazil and Japan for High School Students” e outro em revista nacional “Perspectivas de Ciência no Programa Sakura Science”, além de uma comunicação em congresso internacional “: The Sakura Science High School Program: Peruvian Students Exploring Science, Technology, Culture, and History in Japan”.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC). (Brasília – Redação ASCOM/CAPES) A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura ASCOM/CAPES
