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PRÊMIO CAPES DE TESE
Dignidade trabalhista e social são temas de tese premiada

- Imagem: Marca dos 20 anos do Prêmio CAPES de Tese (ASCOM/CAPES)
Ex-bolsista da CAPES, Daniel Mendonça Lage da Cruz transitou entre a antropologia, o direito e a comunicação social durante sua trajetória na Universidade de Brasília (UnB). Em sua tese, Give a Girl a Job . Reflections on Ethnography, Money and Suffering among South African Women, ele constrói uma análise dos preconceitos em torno do auxílio de transferência de renda para famílias abaixo da linha de pobreza. O programa, conhecido como child-support grant, é criticado pela sociedade por supostamente estimular o ócio entre os participantes. Vencedor do Prêmio CAPES de Tese na área de Antropologia, o estudo traz discussões sobre fertilidade, violência de gênero e as barreiras impostas pelo desemprego e pelo trabalho doméstico na vida de mulheres sul-africanas.
Sobre o que é a sua pesquisa? Explique o conteúdo da sua tese.
Minha pesquisa trata de um dos maiores programas de transferência de renda do Sul Global, a chamada child-support grant, na África do Sul. O programa é equivalente ao Bolsa Família: consiste em auxílio mensal em dinheiro, pago por cada criança nascida em famílias de baixa renda. Assim como no Brasil, essa política de assistência social é criticada por supostamente estimular a ociosidade. Minha tese demonstra que esse tipo de preconceito ignora o fato de que as beneficiárias da transferência de renda desejam trabalhar, mas enfrentam uma barreira estrutural: a política econômica de alto desemprego e concentração de renda que vigora na África do Sul desde a década de 1970, quando o país ainda vivia no regime do apartheid. A tese também discute outros aspectos da vida de mulheres sul-africanas, como o valor da fertilidade e o problema da violência de gênero.
O que vale destacar de mais relevante na sua pesquisa?
A interdisciplinaridade. Vali-me das ciências sociais, da psicanálise e da história social em minha proposta de interpretação das variáveis proeminentes na vida de jovens mães sul-africanas. Também refleti sobre o estar afetado e o afetar meus interlocutores, bem como sobre questões majoritariamente recalcadas na pesquisa social, como o pagamento por entrevistas e as críticas de cidadãos comuns à investigação empírica como forma de exploração.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
Acredito que a tese pode estimular uma reflexão mais profunda e menos preconceituosa sobre o valor do trabalho entre cidadãos de baixa renda, ou melhor, sobre o valor das formas de trabalho que essas pessoas consideram dignas. Este é um ponto capital: as beneficiárias da child-support grant que entrevistei certamente gostariam de dar vazão à sua inteligência e criatividade mediante atividades profissionais. Mas há formas de trabalho, como os empregos domésticos, que definitivamente não desejam e não exercem, na medida em que ofendem seu senso pessoal de autonomia e dignidade.
Qual a importância para você de sua tese ter sido escolhida a melhor na área?
O reconhecimento do trabalho feito e o estímulo para o trabalho a fazer, a percepção incontornável de que o "meu" trabalho é a confluência propícia de muitos trabalhos. Fico, assim, muito feliz em ter tido a tese premiada e em poder abraçar tantas e tantos que, de um jeito ou de outro, trabalharam comigo.
Foi bolsista da CAPES/MEC? Se sim, de que forma a bolsa contribui para sua formação?
Sim, fui bolsista da CAPES/MEC e do CNPq por uma década, ao longo da qual não exerci qualquer outra profissão, a não ser a de mestrando e doutorando. Digo profissão — profissão mesmo —, porque sempre entendi a pós-graduação como um trabalho e minha bolsa como pagamento ou retribuição correspondente ao meu esforço e dedicação profissional, tal como um salário recompensa um trabalhador qualquer. Essa condição de ‘estudante-trabalhador’, ‘bolsista-assalariado’, permitiu-me não apenas sobreviver materialmente, mas também socialmente, isto é, manter a cabeça erguida apesar de críticas como: “não trabalha”, “não faz nada”, “só estuda”. A bolsa, em outras palavras, deu-me as condições materiais e simbólicas para seguir trabalhando naquilo que mais desejo: a pesquisa entre populações vulnerabilizadas.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
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