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COP30
Inclusão de terras secas no debate climático é essencial para enfrentar a pobreza global
A inclusão das regiões semiáridas e terras secas no centro do debate sobre a emergência climática é essencial para o enfrentamento da pobreza no planeta. Este foi o ponto central da mesa redonda Terras Secas: Impactos Sociais e Econômicos das Mudanças Climáticas nos Territórios Brasileiros e da América Latina", promovida na Casa da Ciência durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudança Climática (COP30). O secretário de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social (Sedes), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e moderador do evento, Inácio Arruda, destacou que essas áreas, por abrigarem populações historicamente marginalizadas, exigem uma atenção especial para a discussão sobre meio ambiente ser verdadeiramente global.
“O debate sobre o clima e o meio ambiente precisa ser do planeta único, de um planeta só, e não de partes do planeta”, disse o secretário. Ele classificou o debate sobre terras secas como “muito necessário” durante a COP, defendendo que “não se pode discutir florestas sem discutir desertos” ou as áreas geladas sem discutir o semiárido, garantindo a atenção a “áreas significativas do mundo que, talvez por coincidência, também abrange as populações mais pobres do planeta.”
O secretário também abordou a retomada do protagonismo brasileiro na agenda climática: “O presidente Lula, mesmo antes de assumir o governo, assumiu o compromisso de realizar a COP30 aqui no País e fez essa escolha também excepcional: vamos fazer a COP no meio da floresta, em uma cidade muito importante, que é a cidade de Belém”. Arruda criticou ainda o negacionismo climático, definindo como “estupidez” a recusa em examinar o impacto das ações humanas no planeta.
A mesa contou com a participação da diretora interna da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe — Cepal no Brasil, Camila Gramkow; do professor adjunto da Universidade Federal do Ceará, Eduardo Sávio Passos Rodrigues Martins; do professor associado da Universidade Regional do Cariri, Francisco Do O' Lima; do presidente da Associação dos Produtores de Crédito de Carbono Social do Bioma, Haroldo Almeida; e do cientista sênior do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, da França, Jean-Luc Chotte. Cesar Moralles, da Cepal, participou remotamente.
Segundo Camila Gramkow, um diagnóstico da Cepal mostra que a América Latina está presa em "armadilhas do desenvolvimento" (baixa capacidade de crescimento, alta desigualdade e fragilidade institucional) agravadas pela emergência climática. O pesquisador Cesar Moralles detalhou o panorama regional, apresentando um estudo que concluiu que 16% do território latino-americano está gravemente afetado pela degradação da terra, atingindo cerca de 100 milhões de pessoas.
A principal causa de degradação é o desmatamento, e o custo da falta de reação para os países da região é estimado entre 10% e 12% do seu produto agrícola. A perspectiva internacional foi trazida por Jean-Luc Chotte, que sublinhou a relevância do Eixo Brasil-África e a Caatinga como um “reservatório significativo para a gestão do carbono”. O professor Eduardo Sávio apresentou dados concretos sobre a tendência de aridização no Ceará (CE) e defendeu que as soluções técnicas precisam ser "sociais", enfrentando a falta de intersetorialidade e a rigidez do financiamento.
Francisco Do O' Lima contextualizou o semiárido brasileiro como a área mais povoada do mundo em regiões áridas, criticando a herança dos ciclos econômicos que historicamente trataram a região como "reservatório de mão de obra". Por fim, Haroldo Almeida complementou, lembrando que a Caatinga é uma "floresta tropical seca" com potencial de absorver quase 10% do carbono do País. Ele alertou que a convivência com o semiárido precisa evoluir para a regeneração e que a pesquisa deve ser feita com as comunidades, valorizando o conhecimento ancestral.
Para os especialistas, é necessário fazer investimentos intersetoriais e flexíveis que alavanquem o desenvolvimento produtivo local, pautados no envolvimento comunitário e em soluções baseadas na natureza.
O secretário Inácio Arruda encerrou a mesa lembrando que o Brasil, por meio da Lei nº 13.653 de Combate à Desertificação e do Plano Nacional, é um protagonista nesse debate e propôs que a Conferência de Desertos e Semiáridos seja realizada no país em 2028. “O outro mundo possível não é apenas um jargão. É uma possibilidade real. Nós temos, sim, condições, com a ciência, com o conhecimento, de garantir que haja um desenvolvimento capaz de oferecer dignidade à vida das pessoas e uma riqueza sendo produzida de uma escala ainda maior, mas com a qualidade que permita a gente preservar o planeta.”
Casa da Ciência
A Casa da Ciência do MCTI, no Museu Paraense Emílio Goeldi, é um espaço de divulgação científica, com foco em soluções climáticas e sustentabilidade, além de ser um ponto de encontro de pesquisadores, gestores públicos, estudantes e sociedade. Até o dia 21, ela será a sede simbólica do ministério e terá exposições, rodas de conversa, oficinas, lançamentos e atividades interativas voltadas ao público geral. Veja a programação completa.