Notícias
IPCC
Dois especialistas brasileiros participarão das oficinas sobre diversidade de sistemas de conhecimento e métodos de avaliação
Realização de oficina sobre diversidade de sistemas de conhecimento pelo IPCC sinaliza importância dos saberes tradicionais e milenares para o enfrentamento da mudança do clima. Foto: Alex Ferro/COP30 (18/11/2025)
Dois especialistas brasileiros foram selecionados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) para participar das oficinas sobre Engajamento de diversidade de sistemas de conhecimento e métodos de avaliação. As atividades serão realizadas simultaneamente na Universidade de Reading, no Reino Unido, de 10 a 12 de fevereiro.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio da Coordenação-Geral de Ciência do Clima, recebeu sete manifestações de interesse para participar das oficinas. As indicações foram submetidas pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), ponto focal nacional do órgão científico.
De acordo com informações do IPCC, 673 especialistas foram indicados por governos nacionais, organizações observadoras e integrantes do conselho, e 76 selecionados pelo órgão para participar, além dos membros do Comitê Científico Diretor (SSC, na sigla em inglês) designados para cada uma das oficinas. O papel do comitê é apoiar a organização das oficinas e preparar os relatórios com os resultados.
A brasileira Karla Soares-Weiser integra o comitê científico da oficina sobre métodos de avaliação e participará das atividades. Formada em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais e especializações pela Unicamp e Unifesp, Weiser acumula experiência de mais de 30 anos em revisões sistemáticas de evidências no âmbito internacional e, atualmente, lidera o grupo Cochrane, organização independente que revisa pesquisas sobre saúde.
“A minha contribuição será sobretudo focada na importância da evidência científica e das revisões sistemáticas para acelerar a compreensão de áreas científicas complexas e apoiar de forma mais eficaz os processos de decisão do IPCC”, afirmou a especialista. “Espero contribuir com essa experiência para fortalecer o uso rigoroso e transparente da evidência nos processos de avaliação”, complementou.
Na avaliação de Weiser, a realização da oficina pode sinalizar aprimoramentos de processos do IPCC. “Acredito que a oficina pode ajudar a desenvolver formas mais eficientes de assimilar uma quantidade crescente de estudos, combinando método científico, inteligência artificial e outras inovações, sempre de forma rigorosa e confiável”, explicou.
Importância do conhecimento indígena - O professor associado de antropologia e estudos sociais da ciência e da tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Renzo Taddei, representará o Brasil na oficina de engajamento sobre diversidade de sistemas de conhecimento. O especialista também está trabalhando na função de autor líder do capítulo sobre sistemas de informações climáticas do Grupo de Trabalho I do Sétimo Ciclo de Avaliação.
O especialista destaca que uma das razões que colocam o país no centro do debate climático global é a diversidade epistêmica, ou seja, as distintas formas de conhecimento do mundo, uma das facetas da diversidade étnica e cultural brasileira. “Os povos indígenas e as comunidades tradicionais são observadores atentos da natureza e de suas transformações. Observam os territórios com um grau de proximidade e um nível de detalhe que outros sistemas de conhecimento têm dificuldade em replicar. A biologia e a ecologia sabem, há muito tempo, que os conhecedores indígenas são parceiros fundamentais na pesquisa sobre os ecossistemas brasileiros. A comunidade de cientistas do clima inevitavelmente chegaria à mesma conclusão. Essa oficina do IPCC sinaliza nessa direção”, explica.
Ao mesmo tempo em que aborda a importância, o professor destaca os desafios envolvidos para o diálogo entre os saberes tradicionais e indígenas e as práticas científicas. Taddei lembra que neste ciclo de avaliação houve especial atenção dos líderes do IPCC para a participação direta de acadêmicos indígenas, que atuarão como autores líderes nos próximos relatórios.
Mas por que a ciência está preocupada em incluir outras formas de conhecimento? Taddei explica que o IPCC sempre buscou abordar a questão da mudança do clima de modo abrangente e multidisciplinar. De modo geral, a questão climática há muito tempo deixou de ser um tema de meteorologistas, por exemplo. “Não há campo de pesquisa científica que não tenha que lidar, hoje, com alguma dimensão das mudanças climáticas”, afirma. A perspectiva de que as alterações climáticas afetam tudo e todos é o principal motivador para ampliar o diálogo com outros grupos que observam atentamente o mundo e desenvolvem conhecimento sobre ele. “O conhecimento dos povos indígenas sobre os ecossistemas em que habitam é milenar. Os sistemas indígenas de conhecimento têm coisas a dizer sobre a natureza que estão além do alcance da ciência”, expressa.
Segundo Taddei, entre os resultados práticos esperados da oficina, estão a elaboração de diretrizes sobre como as distintas práticas e modos de conhecer o mundo serão abordados nos relatórios que estão sendo preparados. “O workshop contribui para o reconhecimento da importância dos sistemas de conhecimento indígenas e das populações tradicionais para os esforços globais de governança ambiental”, explica.