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Professor realiza exposição a partir de atuação como bolsista no Timor Leste
O professor do Instituto Federal do Sul de Minas Gerais Maurício Façanha Pinheiro atuou como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no Timor Leste entre março e agosto de 2013. Agora, os registros da experiência do docente no país asiático formam a exposição fotográfica "Natureza e sociedade no Timor Leste: registros de um professor", que fica aberta até o dia 4 de março no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).
No Timor, Maurício trabalhou como articulador pedagógico de ciências naturais e professor formador no Programa de Qualificação de Docente e Ensino de Língua Portuguesa (PQLP), iniciativa coordenada pela Capes em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE). O programa teve início em 2005 e envia docentes ao Timor Leste para atuar na elaboração e revisão de materiais didáticos, acompanhar professores timorenses na implementação de propostas, desenvolver cursos de português como segunda língua, oferecer cursos de língua portuguesa, entre outras atividades.
O professor define a experiência no Timor Leste, em 2013 como “um divisor de águas” em sua carreira. “Depois de ter sido coordenador de área do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) por três anos, a atuação no outro lado do planeta consolidou a convicção de que a educação e o ensino de Ciências Naturais são imprescindíveis para o desenvolvimento sustentável de uma nação e um verdadeiro progresso, tanto tecnológico quanto social.”
Entre as atividades realizadas no semestre como bolsista, Maurício promoveu encontros com pró-reitores da principal universidade de Timor para promover a inserção de docentes brasileiros na formação de professores timorenses, participou da elaboração, juntamente com professores portugueses e demais membros da cooperação brasileira, da elaboração de uma Licenciatura em Ciências, a ser implantada no instituto de formação docente, além de auxiliar na formação de professores de química junto a uma escola na capital Díli e na gestão das atividades do grupo de professores brasileiros.
Pedagogia do oprimido
Sobre a experiência, o docente afirma que as atividades no Timor Leste o lembraram das ideias e práticas do educador brasileiro Paulo Freire. “Como educador, era impossível não se identificar com os ideais do patrono da educação brasileira, a libertação e autonomia dos oprimidos. Essa missão internacional também propiciou o conhecimento do sistema educacional português, que exerce forte influência na reestruturação da educação timorense, mas sem dúvida o patriotismo brasileiro foi digno de um orgulho humilde de missionário, ao ouvir de um timorense que durante o período de resistência à invasão indonésia, uma contribuição decisiva para a emancipação das comunidades rurais nas montanhas, foi o emprego do método Paulo Freire de alfabetização de adultos”, relembra.
Para o brasileiro, as dificuldades enfrentadas em solo timorense confirmam que a formação de professores e o protagonismo da atuação docente são o principal componente de um sistema educacional. “Os professores timorenses, assim como brasileiros em regiões com mais dificuldades, como o Semiárido nordestino, enfrentam desafios em seu cotidiano docente com um idealismo e um sentimento missionário que os faz superar todos os obstáculos pela satisfação em ver as pessoas assumindo o protagonismo no desenvolvimento de sua comunidade.”
O professor lembra que as estruturas precárias nas escolas não são exclusividade timorense. “Em alguns estados brasileiros a situação é semelhante. Semelhantes também são as relações autoritárias entre gestores e professores e destes com alunos. Se no Brasil, ainda sentimos as fragilidades de nosso regime democrático, no Timor Leste esse sentimento é mais aguçado. A todo instante percebe-se que as cicatrizes deixadas pelos colonizadores portugueses e invasores indonésios ainda provocam muita dor e afetam diretamente a sociedade, apesar das crianças e jovens do país asiático apresentarem beleza e esperança inigualáveis em seus sorrisos”, conclui.
Exposição e integração
A ideia da exposição fotográfica surgiu antes da partida para o sudeste asiático, explica Maurício. “Pensei nos registros ao estudar sobre aquela nação, que guarda semelhanças interessantíssimas com nosso país, como a influência portuguesa, como ex-colônias e a rica biodiversidade. Com uma perspectiva etnográfica, uma câmera semiprofissional e muita disposição para me inserir nas comunidades rurais nas montanhas e na rotina urbana da capital, as observações do cotidiano do país asiático propiciaram raros registros da sociedade e da natureza timorense.”, conta.
A exposição foi organizada enquanto o professor trabalhava no campus Cidade Alta do IFRN. “ O instituto possui uma bela galeria de arte em um prédio restaurado no centro histórico de Natal e pude contar com o apoio do professor Carlos Felippe (Café), mestre em Design e Especialista em artes visuais. ”
Recentemente, alguns jovens timorenses têm conquistado a oportunidade de ir estudar em uma universidade fora do país, muitas em regiões brasileiras similares ao meio ambiente do Timor, como a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Maurício Pinheiro acredita que essa é uma importante oportunidade de aprendizado para ambos países. “Se a rica experiência em Timor, com um sistema educacional de matriz portuguesa, pode ser um estágio docente formidável para mestrandos e doutorandos da pós-graduação brasileira, para professores experientes e pesquisadores da área de formação de professores, o contexto timorense pode ser muito mais que apenas um objeto de investigação científica, pode ser uma experiência docente transformadora para quem se dispõe a compartilhar do cotidiano simples e oprimido de um povo heroico que tanto lutou pela sua libertação. Para os timorenses, que se identificam mais com nossos costumes e afetividade que dos nossos ex-colonizadores, penso que podemos ser um bom exemplo de adaptação e flexibilidade para gerir o principal patrimônio de uma nação: a educação de seu povo”, conclui.
(Pedro Arcanjo)