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Pesquisador propõe vacina sem agulha ou seringa

Bolsista de pós-doutorado da CAPES realizou estudo que pode trazer avanços em humanos e animais
Publicado em 18/11/2020 10h54

Rafael Frandoloso é graduado em Medicina Veterinária pela Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul e doutor em Imunologia e Microbiologia Veterinária pela Universidade de León, na Espanha. Foi bolsista de pós-doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) entre março de 2017 e fevereiro de 2018 na Universidade de Calgary, no Canadá. Publicado em periódico internacional, o artigo que resultou da pesquisa no país norte-americano sinaliza avanços em direção à vacinação sem agulhas ou seringas.  

Fale um pouco de você e de sua trajetória.

Minha trajetória acadêmica começou na UPF, onde fui bolsista de iniciação científica. Ingressei diretamente no doutorado, na Universidade de León, como bolsista do Programa de Formação de Professores Universitários. Ali desenvolvi uma vacina de subunidade para a prevenção da doença de Glässer, uma patologia inflamatória sistêmica que acomete leitões jovens e que produz importantes perdas econômicas para a suinocultura mundial.

Em 2011, retornei ao Brasil e iniciei minhas atividades como professor e pesquisador na UPF, onde leciono disciplinas nos cursos de Medicina Veterinária, Medicina e na pós-graduação stricto sensu em Bioexperimentação. Em 2019, fui empossado como Acadêmico Internacional da Academia de Ciências Veterinárias de Castilla y León, na Espanha.

Descreva o trabalho que levou ao artigo.

Estamos trabalhando no desenvolvimento de uma vacina de amplo espectro contra a doença de Glässer há 14 anos. Em 2015, em colaboração com os Drs. Anthony Schryvers (Universidade de Calgary), Rodríguez-Ferri e Gutiérrez Martín (Universidade de León), apresentamos (Infect Immun. 2015, 83(3):1030-8) uma nova estratégia para aumentar a antigenicidade de um antígeno vacinal estratégico (Proteína de União a Transferrina B  - TbpB) e com capacidade de proteger animais e humanos de infecções produzidas por patógenos que ceifam a vida de milhares de animais e humanos, anualmente (linha Veterinária: Glaesserella parasuis, Actinobacillus pleuropneumoniae e A. suis; na linha humana: Neisseria meningitidis e Haemophilus influenzae). 

Anos mais tarde, demonstramos os aspectos funcionais da resposta de anticorpos induzida por nossa vacina, e também, sua capacidade de proteção heteróloga contra cepas de G. parasuis com diferentes tipos capsulares.

Em 2017, fui trabalhar no laboratório Dr. Schryvers na Universidade de Calgary, com quem desenvolvo pesquisas há mais de 10 anos. Esse período foi financiado pelo Programa de Pós-Doutorado no Exterior, da CAPES.

Na Universidade de Calgary, queríamos desenvolver uma formulação vacinal nova, inteligente, e que pudesse induzir imunidade funcional na porta de entrada para Glaesserella parasuis, o trato respiratório superior dos suínos. Para tal, desenvolvemos uma vacina baseada em micropartículas imunogênicas e de liberação lenta de antígenos capaz de proteger clinicamente suínos desafiados experimentalmente com G. parasuis.

Acredita que esse seja o maior impacto de interesse veterinário para o País?

O Brasil possui um sistema de produção de proteína animal que é referência para o mundo. Somos destaque na produção de aves, bovinos e suínos e assumimos responsabilidades internacionais importantes no que tange a alimentação global. Trabalhamos para produzir proteínas de alta qualidade nutricional e sanitária. Com relação a essa última característica, as vacinas são fundamentais, pois controlam de forma biológica o desenvolvimento de patologias que comprometem a vida dos animais e afetam a produtividade dos mesmos.

Esse é o caminho racional para reduzir o uso de antimicrobianos na produção animal, uma ação em pleno desenvolvimento no Brasil. O nosso descobrimento demonstra que é possível desenvolver vacinas inteligentes, capazes de evitar a colonização de importantes bactérias respiratórias, e consequentemente, sua transmissão. Estou falando de erradicação de importantes patógenos pelo uso dessas vacinas inteligentes. 

O artigo cita lesões causadas por agulhas e seringas. Qual o principal avanço trazido pelo trabalho em uma possível "migração" para a aplicação sem elas?

A aplicação de vacinas veterinárias e humanas é realizada fundamentalmente pela via intramuscular através do uso de seringas e agulhas. Esse procedimento não é muito agradável, mas necessário para nos manter vivos. O uso de agulhas na imunização de animais de produção (suínos, por exemplo) favorece a transmissão horizontal de patógenos, já que esses animais não são vacinados com agulhas de único uso. Na medicina humana e veterinária, as agulhas representam um risco biológico de infecções, já que são frequentes os acidentes com agulhas (perfuração acidental). A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 20% da população humana não se vacina em razão do medo de agulhas, representando um risco de manutenção ativa de patógenos para a população em geral.

Em nosso estudo, demonstramos que a aplicação da nossa vacina através de um dispositivo de injeção sem agulha diretamente na mucosa jugal (mucosa da parte interna da bochecha), não causa dor e estimula uma robusta resposta de mucosa e sistêmica contra G. parasuis. Essa mesma resposta foi conseguida ao aplicar a vacina pela via intradérmica, novamente utilizando um dispositivo de vacinação sem agulha. Estamos convencidos que esse é o caminho que a indústria farmacêutica veterinária e humana seguirá.  

O artigo cita que a observação mais notável da pesquisa foi que a vacinação sem agulhas não só preveniu a infecção, mas eliminou a colonização. Vocês pretendem avançar nisso em um estudo futuro?

Esse de fato é o resultado mais surpreendente do nosso estudo. Ao aplicar uma vacina sobre a mucosa oral precisamos evitar que o sistema imunológico tolere o antígeno vacinal. Nossa imunidade de mucosa faz isso muito bem e de forma elegante; razão pela qual toleramos o que comemos, bem como, todos os patógenos que formam o nosso microbioma. Nossa vacina foi preparada para ativar estrategicamente as células dendríticas associadas a mucosa oral, bem como aquelas presentes na derme. Em termos práticos, a vacina foi capaz de evitar a colonização de G. parasuis no trato respiratório de suínos mantidos em uma instalação com circulação endêmica desse agente.

Essa descoberta possui uma aplicação direta e sem precedentes para humanos, que podem potencialmente usar a mesma estratégia de imunização e até o mesmo aplicador de vacina do estudo. Estamos falando de uma estratégia de imunização nunca antes realizada e com chance de mudar o cenário preventivo de patógenos que entram nos animais e humanos através das mucosas oral e respiratória.

Vocês querem levar os testes para humanos, mas citam prováveis dificuldades de conseguir recursos. Já há tratativas nesse sentido?
Em razão da importância dos nossos resultados, precisamos seguir estudando o perfil de resposta imune induzido pela nossa vacina. Conforme mencionei, a proteína TbpB é um antígeno promissor para prevenir infecções humanas causadas por N. meningetidis (causa meningite em crianças), H. influenzae (causa pneumonia e meningite em crianças) N. gonorrheae (causa gonorreia), e veterinárias por G. parasuis e A. pleuropneumoniae e A. suis.

Estamos convencidos de que a imunização direta sobre mucosa oral (depositar os antígenos no espaço subepitelial) poderá trazer benefícios preventivos ainda não experimentados pelos humanos; no entanto, precisamos de recursos financeiros para avançar. Essa é a minha maior preocupação nesse momento. Meu laboratório está há anos sem recursos financeiros, e basicamente, se mantém com doações internacionais. Trabalhamos com uma abordagem aplicada, sempre almejando descobrimentos que possam a curto prazo melhorar a vida dos animais e dos humanos. Adoraríamos avaliar essa estratégia de imunização contra o SARS-CoV-2 (coronavírus).

Legenda das imagens:
Imagem 1: Dispositivo sem agulha utilizado no estudo (Foto: Arquivo pessoal) 
Imagem 2: O pesquisador Rafael Frandoloso supervisiona os porcos usados no experimento de vacinação (Foto: Arquivo pessoal)

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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