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Pesquisa contribui para o fortalecimento da identidade de crianças negras
Sobre o que é a sua pesquisa?
De modo geral, a pesquisa buscou evidenciar o papel das famílias no combate ao racismo e no fortalecimento da identidade de crianças negras. Realizamos estudos com famílias brancas e negras. Com as famílias brancas, investigamos como os pais promovem a educação antirracista para as crianças brancas. Já com as famílias negras, evidenciamos o papel protetivo dos pais para o fortalecimento da identidade e da autoestima das crianças negras. Estudar a família é fundamental, visto que ela é o primeiro contexto de socialização das crianças e, assim como as escolas, as famílias também possuem um papel importante na luta antirracista. Além disso, os pais são as principais figuras de referência e modelos de comportamento para as crianças.
Defendemos a tese de que a educação antirracista nas famílias é essencial para o combate ao racismo e, consequentemente, para que as crianças cresçam mais respeitosas, tenham experiências intergrupais mais positivas e se desenvolvam de forma mais plena.
Nas famílias brancas, destacamos a importância dos pais na promoção da educação antirracista para as crianças brancas. Nas famílias negras, enfatizamos a importância do papel protetivo dos pais no fortalecimento da identidade racial das crianças negras.
O que você destacaria de mais relevante na sua pesquisa?
A nossa pesquisa foi realizada com famílias negras e brancas. No contexto dessas famílias, o racismo costuma se apresentar de forma específica e gerar diferentes implicações, inclusive na maneira como os pais abordam o tema com os filhos. Observamos que, de modo geral, as famílias brancas falam menos sobre o racismo com as crianças do que as famílias negras. Apesar de o racismo ser um tema relacionado a todos os grupos étnico-raciais, nossos achados indicam que muitas famílias brancas ainda não promovem uma educação antirracista e as crianças brancas são pouco informadas pelos seus pais sobre esse tema.
Por outro lado, notamos que, nas famílias negras, muitos pais conversam regulamente com os filhos sobre o racismo, com o propósito de protegê-los de experiências de preconceito e discriminação e de fortalecer sua identidade e autoestima. Já no caso das famílias brancas, a ausência de uma educação antirracista muitas vezes é justificada pela percepção dos pais de que esse não é um tema relevante para suas crianças.
No entanto, defendemos que as crianças brancas também precisam receber uma educação antirracista, uma vez que elas fazem parte de um grupo étnico-racial e, muitas vezes, reproduzem atitudes negativas aprendidas na sociedade. Nesse sentido, ao promovem uma educação antirracista, os pais contribuem para que as crianças se tornem mais respeitosas, tolerantes, empáticas, conscientes e engajadas na luta antirracista.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
Destaco duas principais contribuições. A primeira delas são para as famílias e as crianças, sobretudo as crianças negras. Elas são as primeiras a sofrer os efeitos do racismo e, infelizmente, muitas são vítimas de discriminação nos primeiros anos de vida, inclusive em espaços onde deveriam se sentir protegidas, como as escolas. Na minha tese, demonstramos que, assim como as escolas, as famílias têm um papel fundamental na proteção das crianças negras contra os impactos do racismo. Evidenciamos que diálogos sobre raça e racismo em casa podem fortalecer a identidade e a autoestima das crianças negras. Em nossas pesquisas, descobrimos que, quanto mais os pais reforçam o orgulho racial e a valorização da negritude e conversam sobre o racismo, mais as crianças negras gostam de ser negras e de ter os cabelos cacheados e crespos. Ou seja, o diálogo em casa tem um papel protetivo para o desenvolvimento das crianças negras, pois fortalece a identidade e autoestima e promove o seu bem-estar psicossocial.
A segunda contribuição da tese diz respeito à educação antirracista, sobretudo nas famílias brancas. Muitos pais de crianças brancas não promovem uma educação antirracista, acreditando que não é um assunto importante para seus filhos. Em nossa tese, buscamos fornecer evidências da importância da educação antirracista nas famílias e de como os pais de crianças brancas podem se engajar em conversas sobre raça e racismo de forma adequada e acessível. Por exemplo, demonstramos que diversas práticas parentais podem contribuir para o combate ao racismo, tais como: evidenciar a diversidade étnico-racial de forma positiva para as crianças; apresentar livros, animações ou filmes infantis com protagonismo negro e indígena; dispor de brinquedos e livros infantis com representatividade negra e indígena positiva; incentivar a inclusão e as amizades multirraciais; levar as crianças a espaços ou eventos onde celebram a cultura e a história da população negra e indígena; e desenvolver conversas regulares sobre racismo e discriminação com as crianças. Além disso, essa contribuição é mais ampla e busca fomentar a educação antirracista em todos os contextos — como escolas, famílias e comunidades — e grupos étnico-raciais, especialmente entre pessoas brancas.
De que forma a bolsa da CAPES contribui para a sua formação?
A Bolsa CAPES contribuiu de várias maneiras para a minha formação. Com o apoio da CAPES, pude dedicar mais tempo ao doutorado e participar das atividades de ensino, pesquisa e extensão na universidade. Além disso, a bolsa me permitiu cobrir despesas relacionadas à pesquisa e à moradia. Como resultado, consegui produzir ciência com mais qualidade e motivação. Além da tese, publiquei diversos trabalhos acadêmicos, como artigos e capítulos de livros, apresentei pesquisas em congressos nacionais e internacionais e participei de inúmeras atividades de extensão. Em 2024, minha tese recebeu um reconhecimento nacional: o Prêmio Ciência Pela Primeira Infância, honraria concedida pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) — uma coalizão que trabalha para sensibilizar, mobilizar e capacitar lideranças no fortalecimento de programas e políticas públicas voltadas ao enfrentamento das desigualdades que afetam as crianças. Após finalizar o doutorado, realizei o estágio de pós-doutorado com uma nova bolsa CAPES. Em suma, o apoio da Fundação foi fundamental para minha entrada, permanência e conclusão na pós-graduação.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação CGCOM/CAPES)
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