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PRÊMIO CAPES DE TESE
Liberdade de expressão e populismo são temas de tese premiada

- Imagem: Marca dos 20 anos do Prêmio CAPES de Tese (ASCOM/CAPES)
O fenômeno da “captura populista da liberdade”, no qual o vocabulário das lutas históricas é sequestrado para justificar o retrocesso democrático é aprofundado na tese A captura populista da liberdade: crítica imanente da regressão democrática, ganhadora do Prêmio CAPES de Tese na área de Filosofia, defendida por Thor João de Sousa Veras. Em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade de Frankfurt, o autor aponta a emergência do “batalhador da liberdade”, que abarca sujeitos precarizados em meio à economia de plataformas e à desinformação digital, que aderem ao autoritarismo em busca de agência e reconhecimento simbólico. Articulando filosofia política, experiência amazonense e psicanálise, o trabalho sustenta que o enfrentamento dos movimentos extremistas exige a reconstrução das bases materiais e intersubjetivas da vida comum.
Sobre o que é a pesquisa?
Minha tese investiga um dos paradoxos centrais da política contemporânea: como a noção de liberdade, historicamente associada a lutas emancipatórias, foi apropriada pelo populismo de ultradireita e convertida em instrumento de regressão democrática. O trabalho parte de uma reconstrução histórico-social da ideia de liberdade na modernidade, mostrando como ela esteve ligada, desde suas origens, a projetos coletivos de emancipação, igualdade e solidariedade, mobilizados em revoltas anticoloniais, lutas antiescravistas, movimentos operários, ecológicos, feministas e antirracistas.
O que há de mais relevante na pesquisa?
O principal achado da pesquisa é demonstrar que a disputa em torno da liberdade está no núcleo da política contemporânea: ela aparece em protestos, como as recentes “caminhadas messiânicas”, ou mesmo em slogans eleitorais oportunistas, mobilizando tanto lutas progressistas quanto regressivas por reconhecimento social — embora eu investigue com mais detalhe a dimensão retrógrada, reacionária e antidemocrática dessas lutas e suas apropriações populistas. Ao ganhar tração e clamor social, o populismo de ultradireita, em especial, não se centra apenas em estratégias eleitorais ou econômicas, mas ultrapassa esse limite da política tradicional por conseguir reconfigurar afetivamente a liberdade como um símbolo antissistêmico, corroendo instituições democráticas em seu nome.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
A pesquisa contribui ao esclarecer como discursos aparentemente libertários podem, na prática, minar direitos, ampliar desigualdades e corroer a democracia. Isso é fundamental para a compreensão de um novo e complexo espírito do tempo presente por parte de educadores, jornalistas, formuladores de políticas públicas e pela sociedade em geral. A tese oferece uma contribuição diagnóstica, ao revelar os mecanismos sociais, afetivos e digitais que tornam eficaz a propaganda autoritária; e uma contribuição propositiva, ao sustentar que a resposta à crise não passa apenas pelo combate à desinformação ou pelo fortalecimento institucional, mas pela reconstrução das condições materiais e simbólicas da liberdade: trabalho digno, políticas sociais, pertencimento comunitário e espaços democráticos de deliberação.
Qual a importância para você de sua tese ter sido escolhida a melhor na área?
Receber o Prêmio CAPES/MEC de Tese representa, para mim, um reconhecimento coletivo da força da universidade pública, da pesquisa crítica e da filosofia como forma rigorosa de interpretar e transformar o presente. O prêmio reafirma que pensar criticamente a democracia, a liberdade e o autoritarismo continua sendo socialmente relevante, especialmente em tempos de polarização, desinformação e ataques às humanidades. Ele também confirma que a Teoria Crítica permanece viva, capaz de dialogar com a realidade sem abdicar do rigor conceitual. Mais do que um reconhecimento pessoal, entendo a premiação como um estímulo para que mais pesquisadoras e pesquisadores se dediquem a diagnósticos críticos do tempo presente, em diálogo com outras ciências humanas, fortalecendo o papel público da filosofia.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
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