Notícias
BOLSISTA EM DESTAQUE
Filho de diarista e pedreiro, ex-bolsista assume cargo de diplomata
Filho da diarista Francisca Aparecida Ferreira Rocha e do pedreiro Neilson Cardoso Almeida, Douglas Rocha Almeida foi diplomado no quadro permanente do Ministério das Relações Exteriores (MRE), na carreira de diplomata, na terça-feira, 20 de janeiro. Ele foi um dos 50 aprovados entre quase nove mil inscritos e já começou a trabalhar nesta quarta, 21. “Foi muito emocionante a diplomação. Minha mãe chorou bastante na cerimônia de posse. É um marco que coroa uma luta. Encerra um período de muito trabalho e inicia outro, com muita estabilidade e com o que acredito ser minha vocação”, afirma.
O novo servidor público é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília (UCB), licenciado em Letras Espanhol pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em Segurança Internacional e Defesa pela Escola Superior de Guerra (ESG), etapa cursada com bolsa da CAPES/MEC. Nesta entrevista, ele conta um pouco de sua trajetória acadêmica e de vida, explica o trabalho realizado durante o mestrado e as expectativas para a carreira de diplomata.
Fale da sua trajetória acadêmica.
Fiz duas graduações e, mais tarde, concluí o mestrado. Cursei Relações Internacionais com bolsa do Programa Universidade para Todos (ProUni) na Universidade Católica de Brasília (UCB). Na UCB, participei de núcleos de pesquisa, como o United States Studies Program (USSP), no qual desenvolvi pesquisas sobre as similaridades e as diferenças entre a política externa dos EUA e a do Brasil. Também na UCB, criei um projeto de debates sobre política internacional em língua inglesa quando tive mandato como diretor de educação do centro acadêmico. Minha segunda graduação foi em Letras – Espanhol, na Universidade de Brasília (UnB), onde investiguei a cultura, a sociedade e a literatura espanhola e hispano-americana. Meu mestrado foi na Escola Superior de Guerra (ESG). Durante o mestrado, tive a oportunidade de estagiar no Centro de Estudos Estratégicos, um think tank da ESG.
Agora, virou diplomata. Fale do simbolismo dessa entrada na carreira.
Apesar de o acesso estar em uma crescente, são poucos casos como meu, historicamente, na carreira de diplomata. Fico contente com essa abertura à pluralidade e à diversidade, muito em função de políticas públicas. Essas políticas públicas são direitos, mas muitas vezes não chegam a toda a população. Sinto-me privilegiado por ter tido esse acesso. Foram várias para além da bolsa do Prouni, da bolsa da CAPES/MEC. Minha mãe recebeu Bolsa Família. Durante a pandemia, recorri ao auxílio emergencial. Estudei todo o ensino fundamental e todo o ensino médio em escola pública.
Como foi sua relação com a educação na infância?
Lembro de todos os dias acordar já com o cheiro do óleo queimando, que era minha mãe deixando a comida pronta para gente. Pela manhã ela já deixava a comida pronta. Quando eu voltava da escola, esquentava o alimento e fazia as lições de casa. Minha mãe, sempre atenta, chegava e já corrigia os deveres. Mesmo tendo estudado apenas até a quarto ano do ensino fundamental, me ajudava. Pedia, quando não sabia, para o meu pai ajudar — ele tem até o sétimo ano.
Estudei em uma escola pública no ensino fundamental em Luziânia (GO). No ensino médio, em uma de referência do Distrito Federal. Minha mãe pagava o transporte público e a passagem era cara. Em casa, minha mãe recebia Bolsa Família. E sempre trabalhamos. Comecei a trabalhar desde cedo. Primeiro como monitor de brinquedos, depois como garçom. As políticas públicas eram complementares à renda. E foi um bom complemento.
E de onde veio o interesse pela carreira de diplomata?
Foi em 2017, quando eu já estava na segunda metade do curso de Relações Internacionais. Ingressei em 2014, sem saber o que era um diplomata, e nessa época já sabia. Mas achava que não era para mim. O falecimento da minha irmã naquele ano foi decisivo. Passei a me questionar o porquê de tanto trabalho. Pela manhã, estudava na UCB, à tarde estudava línguas e, à noite, na UnB. Fins de semana eu trabalhava. Estudar e trabalhar tanto me privou do contato com ela.
Daí precisava de um propósito e o propósito foi ser diplomata. Só com um salário como o de diplomata poderia dar uma vida melhor para a minha mãe.
E como foi a diplomação?
Foi muito emocionante. Minha mãe chorou bastante na posse. É um marco que coroa toda uma luta. Encerra um período de muito trabalho e inicia outro, caracterizado por estabilidade e com o que acredito ser minha vocação. No meu primeiro dia, estou em uma correria, mas é uma correria boa, para a qual eu estudei.
Você foi bolsista da CAPES/MEC no mestrado. Sobre o que é sua pesquisa?
Minha pesquisa investiga de que maneira a narrativa de pertencimento a uma comunidade de segurança no pós-Guerra Fria afetou a busca por autonomia de Argentina e Brasil em suas políticas nucleares. A dissertação parte de uma abordagem construtivista das Relações Internacionais para discutir o conceito de comunidade de segurança e analisar se o Cone Sul pode ser compreendido a partir dessa categoria analítica. O estudo centra-se no período de 1991 a 2011 e utiliza a comparação pareada entre Argentina e Brasil para analisar os objetivos de suas políticas nucleares e avaliar em que medida a cooperação regional e a ideia de pertencimento a uma comunidade de segurança influenciaram a consecução desses objetivos em um sistema internacional marcado por assimetrias e regimes de não proliferação.
O que vale destacar de mais relevante na sua pesquisa?
O principal destaque da pesquisa está na articulação entre três dimensões que raramente são analisadas de forma integrada: comunidade de segurança, autonomia e política nuclear. Ao deslocar o debate sobre autonomia para o campo da governança nuclear global, a dissertação contribui para uma compreensão mais situada e concreta do conceito, respondendo à pergunta “autonomia para quê?”. Além disso, o trabalho problematiza a ideia de que a cooperação regional e a formação de uma comunidade de segurança produzem automaticamente ganhos de autonomia, mostrando que esses efeitos são condicionados por fatores sistêmicos, regionais e domésticos. Outro ponto relevante é a identificação das limitações empíricas do argumento, especialmente a ausência de fontes primárias e de evidências sobre a politização explícita da noção de comunidade de segurança por autoridades estrangeiras, o que leva a uma confirmação apenas parcial da hipótese.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
A pesquisa contribui para a sociedade ao oferecer uma reflexão crítica sobre as estratégias adotadas por países do Sul Global para ampliar sua margem de autonomia em um sistema internacional hierárquico e desigual. Ao analisar o caso das políticas nucleares de Argentina e Brasil, o estudo ilumina os dilemas enfrentados por Estados que buscam conciliar desenvolvimento tecnológico, responsabilidade internacional e soberania decisória. Além disso, a dissertação fornece subsídios analíticos para o debate sobre regionalismo, cooperação e multilateralismo, especialmente em um contexto em que a confiança, a previsibilidade e a solução pacífica de controvérsias são centrais para a estabilidade regional e global. Por fim, o trabalho pode contribuir para formuladores de políticas públicas e para o debate acadêmico ao evidenciar tanto as potencialidades quanto os limites da cooperação regional como instrumento de projeção internacional e de fortalecimento da autonomia nacional.
Como a bolsa CAPES/MEC contribuiu para sua formação?
A bolsa da CAPES/MEC foi fundamental para a minha formação acadêmica, pois possibilitou que eu me dedicasse de maneira integral à elaboração da dissertação, sem a necessidade de conciliar os estudos com atividades laborais voltadas à subsistência. O auxílio contribuiu diretamente para a redução de inseguranças financeiras, permitindo melhores condições de moradia, alimentação e estudo, o que teve impacto positivo tanto na qualidade da pesquisa desenvolvida quanto no meu aproveitamento acadêmico. Esse auxílio não apenas viabilizou a realização do trabalho, mas também criou um ambiente material e intelectual mais propício à reflexão, à leitura sistemática e à escrita acadêmica.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação ASCOM/CAPES)
A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura ASCOM/CAPES
