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Ex-bolsista é premiado por inovação em Educação Física

Professor participará de congresso internacional onde apresentará trabalho sobre as atividades desenvolvidas na rede pública de Mato Grosso
Publicado em 02/06/2021 09h32 Atualizado em 09/06/2021 10h55

Marcos Roberto Godoi é licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mestre em Estudos da Linguagem pela mesma instituição e doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Montreal, no Canadá. Foi bolsista da CAPES no mestrado e no doutorado. Ele recebeu o prêmio Developing Country Scholar Award, da Association Internationale des Écoles Supérieures d’Éducation Physique, associação canadense de educação física, por um projeto sobre inovação em aulas. Ainda em junho ele participará de congresso internacional on-line para apresentar seu trabalho.  

Fale um pouco sobre a sua formação.
Estudei licenciatura plena em educação física pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), época em que apresentei meus dois primeiros trabalhos científicos. Um deles foi premiado com o Prêmio Jovem Pesquisador Professor Severino Márcio Pereira Meireles, daquela mesma instituição. Formei-me em 1999, passei no concurso da rede municipal de educação de Cuiabá (MT) e comecei a trabalhar em escolas.

No doutorado, minha pesquisa baseou-se na análise do trabalho curricular dos professores de educação física na rede municipal de educação de Cuiabá-MT. Esta rede lançou um novo currículo de educação física em 2012, em parceria com a UFMT. Eu quis saber como os professores lidavam com este novo currículo em suas práticas. O currículo é uma ferramenta de trabalho dos professores, mas cada professor o interpreta e o ensina diferentemente, adaptando-o de acordo com as necessidades. (Leia a tese, em francês, aqui).

Como um professor de Educação Física pode inovar em sala de aula?
É preciso que o contexto de trabalho favoreça a inovação, que o professor seja apoiado pela direção e coordenação da escola, e que até mesmo receba recursos do sistema escolar para desenvolver seus projetos. Do ponto de vista pessoal, os professores que buscam inovar têm um forte senso de compromisso e engajamento com seus alunos e comunidades. Eles são pessoas abertas, curiosas, criativas, que gostam de aprender e não têm medo de novidades. Outro ponto é que os professores precisam desenvolver uma série de habilidades e competências profissionais que favoreçam as mudanças. Por exemplo, a capacidade de analisar sua prática e o desejo de continuar  aprendendo e se desenvolvendo ao longo de toda a sua vida profissional, ter a percepção de que sua prática pode ser melhorada sempre.

Em termos práticos, o professor de educação física pode inovar de diferentes maneiras, a literatura da área no Brasil já mostrou alguns resultados nesse sentido: a articulação teoria-prática, a diversificação de conteúdos e estratégias metodológicas, a reflexão sobre a sua prática, promover uma reflexão crítica sobre a cultura corporal de movimento junto aos alunos, estabelecer parcerias na escola e fora da escola para desenvolver suas aulas e projetos, participar da vida cultural, pois isso permite ao professor ter mais ideias, adaptar os tempos, espaços e materiais escolares.

Fale sobre o trabalho que lhe rendeu prêmio internacional.
O projeto que apresentarei no congresso da Aiesep, em junho, envolveu coleta de dados em 2018 e 2019. Foi posterior ao doutorado, mas usei conhecimentos adquiridos em meu tempo financiado pela CAPES dentro e fora do Brasil. Acompanhei os trabalhos de três professores e de uma professora de educação física, todos da rede pública, em Mato Grosso. Cada um teve uma característica de inovação, seja nas aulas de educação física, seja nos projetos extracurriculares desenvolvidos nas escolas.

O professor Bruno Pinto, da Escola Municipal de Educação Básica Professora Maria Ambrósio Pommot, investe mais na diversificação de conteúdos esportivos (beisebol, badminton, tênis, esportes paralímpicos etc.) e de estratégias metodológicas. Ele promove aulas de campo, convida professores especialistas para visitarem e darem aulas na escola, exibe filmes relacionados aos conteúdos da educação física e que abordam temas sociais, adapta materiais e equipamentos, faz campanha para arrecadar raquetes de tênis, entre outras atividades.

Apenas um professor não trabalha em Cuiabá. Na Escola Municipal Dona Maria Artemir Pires, de Campo Verde (MT), Joami Cabeleira introduziu o badminton nas aulas de educação física, faz trabalho por estações ou ateliês e criou um projeto extraescolar de turmas de treinamento de badminton. A equipe já participou até dos jogos escolares brasileiros

O professor Renato Lourenço, da Escola Municipal Rural de Educação Básica Herbert de Souza, cria materiais pedagógicos e jogos de maneira artesanal, utilizando restos de madeira. Ele tem muita habilidade com marcenaria. Além disso, ele introduziu exergames (tipo de videogames que requerem movimentos corporais e simulam esportes, danças ou lutas) nas aulas de educação física, e criou uma sala temática de jogos na escola.

Já a professora Viviani Rabelo, da Escola Municipal de Educação Básica Maria Tomich Monteiro da Silva, desenvolve projetos extracurriculares de ginástica rítmica e de dança na escola. O projeto de dança é interdisciplinar, acontece durante todo o ano e envolve também um enredo, baseado na literatura infantil. Ela também promove um espetáculo anual em um dos teatros de Cuiabá. Os alunos que participam do projeto se apresentam, as famílias são convidadas para assistir o espetáculo e alunos de outras escolas também.

Existem muitas possibilidades de inovar, não existe uma receita. Cada professor cria seu caminho, mas é importante notar que a inovação é um processo, não algo acabado.

Qual o efeito que você acredita que o prêmio terá em sua carreira?
O prêmio de acadêmico de país em desenvolvimento da Aiesep é mais simbólico do que material, mesmo assim fiquei muito feliz pelo reconhecimento. Eles analisaram o meu curriculum vitae, o resumo do trabalho que enviei para o congresso e também pediram uma carta de recomendação de um professor ou uma professora associado/a à Aiesep. De certo modo é um reconhecimento da minha trajetória acadêmica e da minha produção científica. Não sei exatamente os efeitos que o prêmio terá na minha carreira, mas a Aiesep é uma associação científica internacional muito importante na área de educação física. Espero que me traga oportunidades de colaborar, estabelecer parcerias e aprender com acadêmicos de outros países e também do Brasil.

Qual foi a importância da CAPES em sua trajetória acadêmica?
Fui bolsista da CAPES no mestrado e no doutorado. Sempre tive vontade de estudar no exterior. Achava um sonho muito distante, mas nunca desisti dele. Comecei a me preparar, tanto na elaboração do projeto de pesquisa quanto em curso de línguas. Participei de um congresso em Florianópolis e lá conheci a professora Cecilia Borges, da Universidade de Montreal, no Canadá. Ela me apoiou muito no processo de seleção do doutorado na universidade e também para a seleção da bolsa da CAPES. Fui aprovado, mudei de país, de cultura, com um outro modo de vida.

Morei e estudei em Montreal entre setembro de 2013 e agosto de 2017. Posso dizer que aprendi muito, seja como pessoa e também como profissional e pesquisador. Participei de vários congressos no Canadá, na França e na Tunísia. Tive a oportunidade de conhecer pessoas e pesquisadores de vários países. Também participei do grupo de pesquisa da professora Cecilia Borges e do professor Maurice Tardif, que é uma referência na área da educação.

Qual a importância do seu trabalho para a realidade brasileira?
Os resultados de pesquisas nem sempre chegam na ponta, no caso da educação aos professores que atuam nas escolas. Penso ser importante divulgá-los com uma linguagem mais acessível em outros meios de comunicação além das revistas científicas. Esse é um trabalho em que todo pesquisador deveria investir, a sociedade precisa saber o que fazemos.
Escrever ou dar entrevistas para jornais e sites, como o da CAPES, ajuda a popularizar os resultados das pesquisas.

Além disso, os resultados parciais dessa pesquisa sobre os professores de educação física como experts adaptativos e a busca da inovação foi publicado na revista Linhas Críticas, da UnB (Universidade de Brasília). Eu também fui convidado para participar de dois eventos científicos da área de educação física, um congresso na Unesp (Universidade Estadual Paulista) Rio Claro e outro na UEL (Universidade Estadual de Londrina), é uma boa oportunidade de divulgar os resultados das pesquisas que venho desenvolvendo.

Quais são seus próximos passos?
Atualmente eu dou aula e sou professor efetivo numa escola municipal, e também estou trabalhando como professor substituto no IFMT (Instituto Federal de Mato Grosso). Pretendo passar num concurso para professor efetivo em alguma universidade, continuar a desenvolver minhas pesquisas.
Um projeto que gostaria de desenvolver futuramente é uma pesquisa com professores experientes de educação física abordando o processo de seu desenvolvimento profissional, sendo que o produto final, além das publicações, seria um documentário que pudesse ser utilizado na formação inicial ou continuada de professores de educação física.

Legenda das imagens:
Banner: Imagem ilustrativa (Foto: iStock.com/OlekiiLiskonih)
Imagem 1: Prêmio vencido pelo ex-bolsista é destinado a pesquisadores de países em desenvolvimento, como o Brasil (Foto: Divulgação - Twitter @aiesep)
Imagem 2: Marcos Roberto Godoi apresentará projeto sobre inovação em Educação Física durante congresso internacional (Foto: Arquivo Pessoal)

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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