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Estudo brasileiro é publicado em jornal de repercussão mundial

Andréa Benedet é autora do trabalho sobre o processo degenerativo da doença de Alzheimer
Publicado em 14/10/2020 11h31 Atualizado em 23/10/2020 09h50

Andréa Benedet estuda processo degenerativo causado pela doença de Alzheimer (Foto: Arquivo pessoal)

Andréa Benedet, ex-bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), escreveu artigo sobre o processo de degeneração da doença de Alzheimer. O trabalho será publicado no Jornal BRAIN, um periódico de repercussão mundial, que divulga conteúdo sobre neurologia clínica e neurociência translacional, desde 1878.

Fale um pouco sobre você.
Eu sou bióloga pela Universidade de Brasília (2009), fiz mestrado em ciências médicas na mesma instituição (2011) e doutorado em neurociências pela McGill University, no Canadá (2020). Recentemente, me mudei para Gotemburgo, na Suécia, onde faço pós-doutorado em Neuroquímica, pela universidade de Gotemburgo.

Como surgiu a ideia de estudar sobre Alzheimer?
Por motivos familiares. Meu pai desenvolveu Alzheimer de início precoce, por isso tive interesse pelo assunto e pesquiso sobre a doença há mais de 10 anos, desde a graduação. Durante o mestrado, a minha pesquisa foi voltada à genética da doença e, sob orientação do Dr. Otávio de Toledo Nóbrega, investiguei se a origem genética ancestral pode afetar predisposição à doença. Durante o doutorado, sob orientação do Dr. Pedro Rosa-Neto, me especializei na análise de biomarcadores por imagem – tomografia por emissão de pósitrons e ressonância magnética. Nessa época investigamos como algumas proteínas identificadas no cérebro de pessoas afetadas pela doença se relacionam com outros biomarcadores medidos no sangue e assim avaliamos a utilidade dos marcadores sanguíneos pra fins diagnósticos.

Qual o foco da sua pesquisa atual?
Continuo nessa área durante meu pós-doutorado, porém, agora é mais voltada ao desenvolvimento de marcadores no sangue e liquor para identificar o processo de disfunção neuronal e início da patologia de Alzheimer. A ideia é que esses marcadores auxiliem na resolução de um problema “básico” – de base – para o desenvolvimento de tratamentos para o Alzheimer, que é a detecção precoce de quem tem a patologia, mas ainda não apresenta sintomas clínicos. A doença de Alzheimer é na verdade um processo lento e silencioso que se inicia muitos anos antes dos sintomas clínicos aparecerem.

Quais os desafios encontrados para o desenvolvimento do seu estudo?
A fase sintomática é o estágio mais tardio, onde a patologia já lesionou e degenerou tanto o cérebro, que se acredita não ser mais possível reverter o dano cerebral existente, ou seja, não dá mais pra tratar os pacientes quando os sintomas aparecerem. Esse é o maior desafio da pesquisa na área hoje e é também o motivo pelo qual praticamente todos os estudos clínicos falharam em desenvolver medicamentos para tratar a doença.

Andréa Benedet foi bolsista CAPES durante o doutorado-pleno, no Canadá. (Foto: Arquivo pessoal)

Como o seu estudo pode influenciar na vida das pessoas?
Os tratamentos existentes hoje são somente pra manejar os sintomas e melhorar a qualidade de vida do paciente. Atualmente, a corrida é para descobrir meios de detectar quais pessoas têm a doença no cérebro, mas ainda não apresentam sintomas e assim desenvolver medicamentos que atuem nessa fase, para evitar ou interromper processo que leva ao dano cerebral. Meu estudo então é para desenvolver esses testes laboratoriais – sangue ou liquor – que identifiquem quando o processo patológico da doença se inicia e também ajudar os ensaios clínicos a avaliarem se a terapia investigada está fazendo efeito ou não.

Fale sobre o artigo que será publicado.
Em tradução, ‘Associação estágio-específicas entre neurofilamento de cadeia leve plasmático e biomarcadores de imagem na doença de Alzheimer’. O trabalho mostra que uma proteína estrutural dos neurônios – neurofilamento de cadeia leve (NfL) –, pode ser detectada em maiores níveis no liquor e sangue de paciente em processos neurodegenerativos Ela está associada à  atrofia de substância branca e cortical cerebral e está ligada ao acúmulo das proteínas tau e amilóide no cérebro, duas grandes vilãs, tidas como causadoras da doença de Alzheimer. Além disso, mostramos como o aumento de NfL durante 48 meses está associado a uma severa atrofia cerebral em pacientes com Alzheimer, mas essa associação é muito reduzida ou quase inexistente em idosos cognitivamente saudáveis. Essa publicação é a continuação de um artigo publicado ano passado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31673598/), onde mostramos que altos níveis dessa mesma proteína NfL está relacionada a uma diminuição do metabolismo cerebral, sendo esse um outro indicativo de disfunção  cerebral e neurodegeneração. Assim, nosso trabalho reitera outros estudos na área que demonstram a utilidade do biomarcador NfL para a detecção de processos neurodegenerativos.

Fale um pouco sobre o periódico no qual o artigo será divulgado.
O jornal BRAIN publica conteúdos de neurologia clínica e neurociência translacional, desde 1878. Com fator de impacto 11.9, tem repercussão mundial, seguido por grandes grupos de pesquisa na área de neurociências e doenças neurodegenerativas. Publicar nesse jornal é garantia de que meu estudo será visualizado por grandes pesquisadores e servir de base para continuação de muitas outras pesquisas em Alzheimer. 

Qual a importância do apoio da CAPES para o desenvolvimento do seu trabalho?
A CAPES foi essencial no desenvolvimento da minha carreira acadêmica, pois sem ela eu não conseguiria realizar a pesquisa que desenvolvi durante o meu doutorado pleno em Neurociências, na McGill University no Canadá.

Legenda das imagens:
Imagem 1: Andréa Benedet estuda processo degenerativo causado pela doença de Alzheimer (Foto: Arquivo pessoal)
Imagem 2: Andréa Benedet foi bolsista CAPES durante o doutorado-pleno, no Canadá. (Foto: Arquivo pessoal)

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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