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Estudo analisa lágrimas de animais silvestres

Pesquisa investiga como a lágrima animal segue estável em diferentes ambientes e pode ajudar o olho humano
Publicado em 06/01/2021 13h44

A bolsista Ana Cláudia Raposo é médica veterinária e faz pós-doutorado pelo Programa em Ciência Animal nos Trópicos, da Escola de Medicina Veterinária da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em seu trabalho de pesquisa, busca conhecer os componentes da lágrima de animais silvestres e de humanos, para entender as diferenças entre as espécies e identificar como o ambiente influencia os olhos de cada um.

Como surgiu o interesse por trabalhar nessa área?
Desde muito cedo me interessei por pesquisa e durante a graduação busquei a área de medicina de animais selvagens, na qual estagiei por mais de dois anos. Na finalização da minha graduação, fui convidada por minha orientadora, professora doutora Arianne Oriá, a ingressar na pós-graduação e prosseguir com os estudos no âmbito da oftalmologia, o que contemplava o entendimento sobre as diferenças entre espécies e a influência do ambiente sobre os olhos. Atualmente, atuo na área da oftalmologia de animais domésticos e selvagens. Continuo, juntamente com o Grupo de Pesquisa em Oftalmologia Veterinária da UFBA, realizando projetos em busca de entender quais são os componentes presentes na lágrima de diferentes espécies e qual a influência que o meio ambiente pode exercer sobre este fluido.

Fale um pouco sobre o seu projeto de pesquisa.
Meu projeto do doutorado, e do pós-doutorado, tem o objetivo de entender quais componentes estão presentes na lágrima de animais domésticos e selvagens saudáveis em seu ambiente natural, e comparar esta composição ao que já é conhecido em humanos. Assim, será possível justificar quais diferenças nos componentes da lágrima – como proteínas, gorduras, açúcares e sais – podem ser resultantes do processo de adaptação ao meio que estes animais vivem. Por fim, tentamos entender quais elementos proporcionam certas capacidades, como ficar mais tempo de olho aberto em baixo d’água, voar sem que a lágrima se dissipe ou passar muito tempo sem piscar sem que a lágrima evapore. Dessa forma, poderemos auxiliar humanos e outras espécies de animais que têm olho seco ou algum déficit na produção de lágrima, ao fornecer medicamentos ou elucidar quais biocomponentes estão principalmente envolvidos na saúde e na doença, em resposta ao meio ambiente em que vivem.

Como foi a execução da pesquisa?
Para realizar este projeto, entramos em contato com diferentes locais que mantêm estes animais em cativeiro. Selecionamos espécies que vivem em contato com diferentes ambientes (terrestre, marinho e lacustre) e diferentes classes: répteis, aves e mamíferos. Então, fizemos a colheita das lágrimas destes animais (cada animal tem pouquíssima lágrima, pois produzem muito menos do que nós humanos), preparamos as amostras e enviamos para o laboratório. Parte da avaliação foi feita aqui no Brasil, no Laboratório de Imunologia do Instituto de Ciência da Saúde da UFBA, sob co-orientação do professor doutor Ricardo Portela e com a colaboração do seu Grupo de Pesquisa em Biotecnologia Aplicada à Saúde Animal. Em sequência aos resultados obtidos no Brasil, entramos em contato com o professor doutor Carlito Lebrilla, que possui expertise na área de microcomponentes de fluidos, para a realização de uma etapa mais minuciosa do projeto, que exigia mais tecnologia, não disponível aqui no Brasil. Por isso, submetemos à CAPES a solicitação de bolsa de doutorado-sanduíche e eu fui contemplada para ir desenvolver o projeto na Universidade da Califórnia (UCDavis), nos Estados Unidos. Nesta etapa tivemos resultados sobre quais são as proteínas e açúcares presentes na lágrima destes animais. Com isso, foi possível entender que este fluido possui composição diferente entre as espécies, além de nos dar indícios de como estes animais conseguem ficar de olho aberto por tanto tempo, sem piscar.

O trabalho já está finalizado? Se não, quais são os próximos passos?
A parte experimental da pesquisa já foi totalmente realizada. Atualmente está em estágio de finalização e composição do último artigo, além da tramitação de outros já submetidos em periódicos internacionais de elevado fator de impacto. Apesar da finalização deste estudo estar próxima, o projeto de pesquisa pode continuar, pois é promissor e ainda tem a possibilidade de ser ampliado, buscando, por exemplo, os componentes gordurosos da lágrima. Contudo, para que sejam feitas etapas como estas, é importante o envolvimento de mais pesquisadores e de mais fomento financeiro para estes novos horizontes.

Como você acredita que seu trabalho pode contribuir para a melhoria da vida das pessoas?
Este trabalho é diverso e importante desde sua essência. Primeiramente, devido ao cenário da saúde única que engloba a saúde animal, humana e ambiental. É preciso saber quais são as moléculas que permitem que os animais vivam em diferentes ambientes saudáveis ou como eles podem responder a insultos ambientais, como poluentes, similares ao que já é desenvolvido em humanos. Além disso, diretamente, a vida das pessoas pode ser impactada se conseguirmos isolar qual ou quais mecanismos estão ligados a estes “superolhos” com “superlágrimas”. Futuramente, sintetizar e industrializar alguns destes componentes e propiciar aos humanos uma forma de tratar o olho seco, doença de alta incidência, principalmente em tempos onde se faz necessária uma longa exposição à tela de computador, celular etc. Daqui a alguns anos, quem sabe possamos desenvolver um “supercolírio” que fique duas horas sobre o olho, sem deixa-lo ressecar? Tal como os jacarés e corujas que ficam bastante tempo sem piscar, e a lágrima não resseca.

Como foi desenvolvido o trabalho com os animais?
A parte mais interessante da pesquisa é esse manejo com os animais. Eu, particularmente, gosto muito de estar em contato com eles. Quanto mais selvagens e agressivos eles possam parecer, mais desafiadora é a colheita. Para tanto, contamos em todos os momentos com as parcerias do Centro de Triagem de Animais Silvestres, o Projeto Tamar, o Zoológico de Salvador e o Criatório Comercial Mister Cayman (Maceió-AL). Todo o projeto de pesquisa foi submetido à Comissão de Ética e Bem-estar Animal da Escola de Medicina Veterinária da UFBA e toda a colheita foi feita preservando o conforto e bem-estar dos animais, sendo o procedimento minimamente invasivo, causando o mínimo incômodo possível. Utilizamos mais de 100 jacarés (como eles produzem pouquíssima lágrima, precisávamos de mais indivíduos), além de dezenas de tartarugas-marinhas, jabutis, corujas, araras, gaviões, cavalos e cachorros. Também foi feita a colheita em dez humanos que serviram para nós como modelo comparativo. A colheita foi realizada sob supervisão e colaboração de médico oftalmologista.

Quais os obstáculos encontrados?
Não foi uma pesquisa fácil, pois dependíamos de uma grande rede de colaboradores além da necessidade do suporte financeiro. As diversas viagens que fizemos foram possibilitadas pelo auxílio dado por nosso programa de pós-graduação e pela bolsa de estudo (minha e de outros bolsistas) e, mesmo assim, o dinheiro era escasso frente ao trabalho laborioso. O envio das amostras para os Estados Unidos foi possível por auxilio da minha família e de minha orientadora. Por fim, o mais desafiador é a submissão dos trabalhos para revistas de elevado fator de impacto, que são pagas. Como elas cobram em dólar, o valor fica extremamente alto, muito além do valor da bolsa de estudos para o doutorado e o pós-doutorado. Perante isto, temos pedido auxílio à nossa universidade, que, dentro do possível, tem nos ajudado.

Qual a importância da bolsa da CAPES para o desenvolvimento do seu projeto?
Eu recebo bolsa CAPES desde o mestrado. Ou seja, tive o financiamento oriundo dessa autarquia para o mestrado, doutorado, doutorado-sanduíche e pós-doutorado. A bolsa me possibilitou investir na aquisição de conhecimento, compra de materiais básicos para o desenvolvimento da minha pesquisa e minha dedicação exclusiva durante todos esses anos. Sem ela e o auxílio da minha família, realmente seria impossível prosseguir na pós-graduação e na realização dos projetos.

Legenda das imagens:
Imagem 1: Estudo analisa os componentes da lágrima de animais selvagens, para entender como o ambiente influencia nos olhos de cada espécie (Foto: Arquivo pessoal)
Imagem 2: Ana Claudia Raposo é veterinária e faz pós-doutorado na UFBA (Foto: Arquivo pessoal)
Imagem 3: A coleta do material foi feita por meio de parcerias com instituições especializadas e de forma minimamente invasiva aos animais (Foto: Arquivo pessoal)

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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