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Quase 5 milhões de mulheres no Brasil ainda não têm água em casa
Um novo levantamento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), divulgado como parte do Encarte Especial sobre Desigualdades do relatório ODS 6, mostra que 4,69 milhões de mulheres vivem em domicílios sem água canalizada no Brasil. Para elas, cada dia começa com uma conta que os dados raramente revelam: a de quem vai buscar a água.
Compilado com base no Censo Demográfico 2022 do IBGE, o documento produzido pela Superintendência de Estudos Hídricos e Socioeconômicos (SHE) da Agência traz pela primeira vez uma radiografia detalhada do acesso ao saneamento desagregada por sexo, raça e situação de moradia, incluindo favelas e comunidades urbanas.
A torneira que não chega
O indicador ODS 6.1.1 mede o acesso à água potável gerida de forma segura. Em nível nacional, o Brasil registrou 98,1% de cobertura em 2023, evolução considerável frente aos 95,1% de 2015.
São Luís (MA) encabeça o ranking de municípios com maior déficit: 38.746 mulheres sem água canalizada. Em seguida aparecem Belém (PA), com 36.232, e Duque de Caxias (RJ), com 36.138. É uma lista que concentra capitais e municípios da Região Norte e do Nordeste, mas que também conta com a presença do entorno metropolitano do Rio de Janeiro.
Nas favelas e comunidades urbanas, o cenário se aprofunda. Das 16,3 milhões de pessoas que viviam nessas áreas em 2022, 347 mil mulheres — 7,4% do total feminino sem acesso no país — não tinham água canalizada em casa. Belém lidera esse recorte específico, com 28.424 mulheres em favelas sem água. São Luís vem em segundo, com 21.827, seguida de Manaus, com 20.201.
Apenas 306 municípios brasileiros atingiram a cobertura de 100% para mulheres. Os outros ainda têm trabalho a fazer — embora quase 88% deles já ofereçam acesso a pelo menos 80% da população feminina.
A distribuição regional do déficit revela uma concentração expressiva: o Nordeste responde por 63% das mulheres sem água canalizada em domicílio no país, seguido pelo Norte, com 22%. Juntas, as duas regiões concentram 85% do total nacional feminino. O Sudeste responde por 10%, o Centro-Oeste por 3% e o Sul por apenas 2%.
O esgoto que ninguém vê — mas todas sentem
Se o acesso à água apresenta déficits sérios, o esgotamento sanitário é onde a crise se torna crônica. O indicador 6.2.1a aponta que, em 2022, 44,7 milhões de mulheres no Brasil viviam sem acesso à rede coletora e tratamento de esgotos ou a fossas sépticas adequadas. Em 58% dos municípios, a cobertura alcança, no máximo, 20% das mulheres.
Nas favelas, são 3,8 milhões de mulheres sem esgoto — 8,6% do total nacional feminino nessa condição. As cidades com maiores déficits nesse recorte são Manaus (287.205), Belém (269.228) e São Paulo (207.949).
No recorte regional, o Nordeste também lidera o déficit de esgotamento sanitário entre mulheres, respondendo por 38% do total nacional. O Sudeste aparece em segundo lugar, com 29% — peso que reflete o problema das grandes metrópoles onde a coleta existe, mas o tratamento não acompanha, ou que o percentual de coleta e tratamento são bastante altos porém o déficit, mesmo sendo um percentual baixo, significa um contingente considerável de pessoas. O Norte soma 14%, o Sul 11% e o Centro-Oeste 8%.
Lavar as mãos: um privilégio de 2 milhões de mulheres ainda negado
O indicador da ODS 6.2.1b registra o acesso a instalações para lavar as mãos com água e sabão — condição básica de higiene que ficou ainda mais evidente durante a pandemia de Covid-19. Segundo o encarte, quase 2 milhões de mulheres (1.996.752) vivem em domicílios sem banheiro de uso exclusivo no Brasil.
O ranking das cidades com maior déficit é dominado pela região Norte: Breves (PA), com 17.757 mulheres sem banheiro exclusivo, Portel (PA), com 15.061, e Cametá (PA), com 14.044. Ainda de acordo com os dados, quase 96% dos municípios brasileiros estão na faixa que dão acesso a pelo menos 80% da população feminina.
É no indicador de banheiro exclusivo que a concentração regional se mostra mais aguda. O Nordeste responde por 57% das mulheres sem esse acesso e o Norte por 37% — juntas, as duas regiões somam 94% do déficit nacional. Centro-Oeste (3%), Sudeste (2%) e Sul (1%) aparecem com participações marginais, evidenciando que a privação de condições mínimas de higiene doméstica é, no Brasil, quase inteiramente um fenômeno do Norte e do Nordeste.
Os dados do encarte mostram que, em termos de acesso formal ao saneamento, mulheres têm índices ligeiramente superiores aos dos homens, com base nos dados do Censo de 2022. Entretanto, elas passam mais tempo no ambiente doméstico e carregam a maior parte das responsabilidades de cuidado da família. Quando o banheiro falha, quando a água não chega, quando o esgoto transborda, são elas que lidam com isso de perto, todos os dias. A terceira edição do relatório de monitoramento do ODS da ANA mostra que, apesar de terem acesso superior, as mulheres apresentam maiores taxas de mortalidade atribuída a serviços inadequados de água, esgotamento sanitário e higiene (WASH), conforme mostra o indicador ODS 3.9.2, monitorado pelo Ministério da Saúde.
Dados que precisam virar política
Neste Dia Mundial da Água, os números da ANA fazem um convite: olhar para quem ainda não tem acesso e entender por que, quando o sistema falha, as consequências recaem mais pesado sobre alguns do que sobre outros. Sobre mulheres que cuidam, sobre negros e indígenas que habitam territórios esquecidos, sobre moradores de favelas invisibilizados pelas médias nacionais.
O lançamento chega em momento estratégico: na metade exata do prazo da Agenda 2030, o país tem agora a oportunidade de medir com precisão o quanto avançou, e o quanto ainda precisa avançar, rumo às metas do ODS 6. O trabalho é fruto de uma construção coletiva, envolvendo IBGE, Ministério das Cidades, Ministério da Saúde, Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional e Serviço Geológico do Brasil, sob coordenação da Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (CNODS).
As publicações "ODS6: Visão da ANA Sobre os Indicadores (3ª edição)" e "Encarte Especial sobre as Desigualdades no Acesso ao Saneamento e às Instalações de Higiene no Brasil - Indicadores ODS 6 com base no Censo 2022", além do painel de monitoramento das metas do ODS 6 atualizado, podem ser acessados no link: https://www.gov.br/ana/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/ods6 .
Assessoria Especial de Comunicação Social (ASCOM)
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
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