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Série Especial: Água e Desenvolvimento
A água é o fio condutor de praticamente toda atividade humana e econômica. Ela chega à mesa das famílias brasileiras, movimenta indústrias, gera energia, sustenta ecossistemas e, em grande medida, viabiliza a produção de alimentos que abastece o país e o mundo. Entender como esse recurso é usado, e distribuído entre os diferentes setores da economia, é essencial para planejar um desenvolvimento que seja, ao mesmo tempo, produtivo e sustentável.
Com base em dados técnicos consolidados sobre os usos da água no Brasil, esta série especial percorre cinco frentes em que os recursos hídricos são determinantes para o desenvolvimento do país: a produção de alimentos por meio da irrigação, a geração de energia elétrica, a navegação interior, a atividade industrial e a preservação dos biomas brasileiros. Cada reportagem apresenta um panorama de como esses setores usam ou dependem da água hoje, quais tendências se desenham para as próximas décadas e quais desafios a gestão hídrica brasileira precisa enfrentar para garantir água em quantidade e qualidade para todos os usos.
O primeiro capítulo da série trata do setor que mais demanda água no país: a agricultura irrigada.
Água e produção de alimentos: o papel da irrigação
Entre todos os usos da água no Brasil, um se destaca em volume: a irrigação. Dados da Base Nacional de Referência de Usos Consuntivos da Água mostram que, em 2024, a agricultura irrigada respondeu por 1.056,30 m³/s de retirada de água, o equivalente a 50,3% de toda a retirada nacional para usos consuntivos, que somou 2.098,7 m³/s no ano, cerca de 66,37 trilhões de litros retirados anualmente para abastecer todos os setores da economia.
A irrigação se destaca principalmente em estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia, onde a atividade responde por parcelas expressivas da retirada de água, reflexo da vocação agrícola dessas regiões e de suas condições climáticas, que muitas vezes tornam a irrigação indispensável para viabilizar determinadas culturas ou safras.
Por que irrigar
A irrigação é, para boa parte da produção agrícola brasileira, mais do que um complemento: em regiões afetadas por escassez contínua de água, como o Semiárido, ou por estiagens sazonais, como o Cerrado central entre maio e setembro, ela é o que torna a produção agrícola viável. Culturas que dependeriam exclusivamente do período chuvoso passam a contar com safras adicionais e regiões antes marginais para a agricultura se transformam em polos produtivos.
Os ganhos vão além de viabilizar o plantio. Levantamentos técnicos sobre arroz, feijão e trigo, grãos centrais na alimentação do brasileiro, mostram que, em condições predominantemente irrigadas, o rendimento chega a ser várias vezes superior ao da produção de sequeiro: no arroz, a produtividade irrigada foi 3,6 vezes maior; no feijão, 2,5 vezes e no trigo, 2,2 vezes maior, segundo comparações entre lavouras irrigadas e não irrigadas. Esse ganho de produtividade se traduz em mais alimento produzido na mesma área, o que tem relação direta com a segurança alimentar e nutricional da população.
A diversidade também é grande: outorgas de direito de uso da água para irrigação abrangem mais de 70 culturas diferentes, cada uma associada a métodos específicos, da inundação usada no arroz ao gotejamento empregado no café e na fruticultura, passando pelos pivôs centrais que irrigam grãos como soja, milho, feijão e algodão.
A irrigação e as autorizações de uso da água
O peso da irrigação na matriz hídrica brasileira também aparece nos números da regulação. Levantamentos sobre a emissão de outorgas, instrumento pelo qual a Agência Nacional de Águas (ANA) autoriza o uso da água em rios de domínio da União, mostram que a irrigação é a finalidade que mais recebe autorizações todos os anos desde pelo menos 2021, em uma média de 2.700 por ano, ou 65% dos atos emitidos, à frente do abastecimento público, da indústria e do aproveitamento hidrelétrico. Esse padrão se repete também nas outorgas emitidas pelos órgãos estaduais aos quais a ANA delega essa competência: de um total de 2.853 outorgas emitidas por essas delegatárias, 1.417 destinam-se à irrigação.
Diante desse peso, a ANA tem desenvolvido, nos últimos anos, metodologias específicas para alocar água entre produtores rurais de forma mais eficiente em bacias onde a demanda já se aproxima do limite da disponibilidade hídrica. Uma delas é a chamada Outorga com Gestão de Garantia e Prioridade (OGP), que organiza os pedidos de outorga por ordem cronológica e concede garantias de fornecimento decrescentes ao longo dessa fila, de forma que, em momentos de escassez, os usos autorizados mais recentemente são os primeiros a sofrer restrição, preservando o funcionamento geral do sistema e as necessidades ambientais.
Compatibilizar a expansão da produção de alimentos com a disponibilidade de água é um dos principais desafios da segurança hídrica brasileira nas próximas décadas. Os próximos capítulos desta série vão mostrar como a água também move a geração de energia elétrica, a navegação interior, a atividade industrial e a preservação dos biomas brasileiros.
Fontes: Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), Atlas Irrigação: Uso da Água na Agricultura Irrigada (ANA) e Superintendência de Regulação de Usos de Recursos Hídricos/ANA)
Assessoria Especial de Comunicação Social (ASCOM)
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
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