Prevalência do uso de substâncias por crianças e adolescentes
O desafio do uso de álcool e outras drogas por crianças e adolescentes transcende a esfera individual, configurando uma complexa questão de saúde pública e social que exige respostas articuladas e abrangentes. Seus impactos reverberam em diversas dimensões da vida familiar e comunitária, afetando a saúde, a segurança, a educação e o desenvolvimento socioeconômico. Diante dessa realidade, uma prevenção eficaz – que visa fortalecer os fatores de proteção e reduzir os fatores de risco, preferencialmente muito antes que comportamentos problemáticos se desenvolvam – demanda uma abordagem multifacetada que integre, de forma sinérgica, a ciência, a prática e a articulação social.
ÁLCOOL
Os dados mais recentes da PeNSE 2024 indicam uma redução geral na experimentação e no consumo recente de álcool entre adolescentes de 13 a 17 anos em comparação a 2019. Apesar disso, a precocidade da introdução ao álcool continua sendo um desafio crítico, sendo especialmente preocupante a prevalência entre meninas.
Um ponto de atenção urgente é a inversão e o alargamento da lacuna de gênero no consumo. Historicamente mais prevalente entre meninos, o uso de álcool agora é significativamente maior entre as meninas, que apresentam taxas de experimentação, de consumo excessivo e de consumo recente superiores às dos meninos. Essa diferença vem crescendo de forma sustentada desde 2015, revelando que, embora ambos os sexos estejam reduzindo o consumo, as meninas o fazem de maneira muito mais lenta. Esse fenômeno aponta para a necessidade de estratégias de prevenção sensíveis ao gênero, que considerem as motivações e os contextos específicos que têm mantido o consumo elevado entre o público feminino infantojuvenil.
Além disso, a forma de obtenção das bebidas revela uma falha grave na fiscalização, já que a compra direta em loja, mercado, bar, botequim ou padaria é o principal meio de acesso, mesmo com a proibição legal de venda para menores de 18 anos pelo ECA. Isso impacta negativamente os fatores de proteção de crianças e adolescentes.
TABACO
Os dados da PeNSE 2024 indicam uma redução consistente na experimentação e no uso do cigarro convencional entre adolescentes de 13 a 17 anos. Assim como observado com o uso de álcool, a facilidade de acesso é alarmante, evidenciando o descumprimento da proibição de venda a menores de 18 anos e potencialmente prejudicando o desenvolvimento seguro e saudável de adolescentes.
Observou-se também uma mudança no perfil de consumo que revela uma transição de mercado preocupante: enquanto o uso do narguilê caiu pela metade, o consumo recente de cigarros eletrônicos aumentou em mais de 300%. O crescimento explosivo do uso de cigarros eletrônicos, com uma prevalência notavelmente maior entre as meninas, sugere que os novos dispositivos estão substituindo formas tradicionais de fumo e atraindo um público infantojuvenil que, muitas vezes, não utilizaria o cigarro comum.
Importante: A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe, desde 2024, a fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda de cigarros eletrônicos no país.
DROGAS ILÍCITAS
Os resultados da PeNSE 2024 trazem um cenário de redução expressiva na exposição de adolescentes a substâncias ilícitas — que incluem desde maconha e cocaína até novas substâncias como K9 e sintéticos (ecstasy, LSD e MDMA).
Após um período de leve crescimento entre 2015 e 2019, a experimentação de drogas caiu de 13% para 8,3% em 2024, representando uma redução de mais de 33%. Esse declínio foi observado de forma equilibrada entre meninos e meninas, consolidando uma tendência de recuo tanto no contato inicial quanto no uso recente.
A pesquisa também aponta uma queda importante na precocidade do uso: o percentual de adolescentes que experimentaram drogas ilícitas pela primeira vez aos 13 anos ou menos recuou de 4,3% para 2,7%. Diferente do que ocorre com o álcool e o tabaco, neste domínio os meninos ainda apresentam uma maior vulnerabilidade à experimentação precoce em comparação às meninas.