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PATRIMÔNIO IMATERIAL
Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte conectam fé, memória e tradição dos romeiros
Foto: Reprodução/Iphan
Caminhar por Juazeiro do Norte, no Ceará, também pode representar uma experiência de fé. Igrejas, casas, caminhos, monumentos e até elementos da paisagem ganham significados construídos ao longo do tempo por gerações de romeiros. Reunidos em uma rede de espaços de peregrinação e devoção, os Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte são reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A relação entre os fiéis e esses lugares está ligada, especialmente, à trajetória do Padre Cícero Romão Batista e às práticas do catolicismo popular desenvolvidas na cidade. São espaços visitados para rezar, agradecer, cumprir promessas, pedir graças, realizar penitências, preservar memórias e compartilhar experiências religiosas. Com a continuidade dessas práticas, diferentes pontos do território urbano e geográfico passaram a adquirir caráter sagrado para a comunidade de romeiros.
O bem cultural não se limita aos locais formalmente vinculados à Igreja Católica. Também abrange espaços cuja importância religiosa foi construída pela própria devoção popular. Dessa forma, a sacralidade de Juazeiro do Norte está relacionada tanto à materialidade dos lugares quanto às práticas, narrativas, crenças e percursos que continuam sendo realizados pelos fiéis.
Uma geografia construída pela devoção
Entre os locais que integram essa rede está a Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, onde Padre Cícero atuou como capelão. Outro ponto central das romarias é a Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde se encontra o túmulo do sacerdote.
O conjunto compreende ainda o Santuário de São Francisco das Chagas, marcado por práticas religiosas realizadas pelos devotos, e o Museu Casa do Padre Cícero, instalado na última residência do religioso.
Mas a experiência do sagrado ultrapassa os espaços institucionalizados. Na Casa dos Milagres, por exemplo, os devotos depositam ex-votos, objetos oferecidos como expressão de agradecimento, testemunho ou pedido relacionado a uma graça. O rio Salgadinho, por sua vez, recebeu dos próprios romeiros uma associação simbólica com o rio Jordão mencionado na tradição bíblica.
A Colina do Horto concentra outros marcos ligados à peregrinação, entre eles a estátua de Padre Cícero, o antigo casarão do sacerdote, a Igreja do Bom Jesus e o Santo Sepulcro. Juntos, esses espaços formam um território no qual diferentes práticas devocionais se encontram e se renovam.
Caminhos de fé
Nos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte, o percurso também possui significado. A subida pela Ladeira do Horto, conhecida como “estrada velha”, é tradicionalmente realizada como caminho de penitência pelos romeiros. Ao longo do trajeto, pontos como a Pedra do Joelho e a casa da Mãe Dodô integram as referências religiosas e afetivas dos peregrinos.
Esses deslocamentos ajudam a compreender por que o patrimônio não pode ser entendido apenas como um conjunto de construções. Caminhar, rezar, fazer promessas, visitar determinados pontos e transmitir histórias sobre cada lugar são práticas que participam da construção de sua dimensão sagrada.
As romarias também contribuem para manter essa relação entre território e devoção. A chegada periódica de peregrinos de diferentes localidades, especialmente do Nordeste, transforma a dinâmica da cidade e mantém em circulação modos de viver e expressar a fé que atravessam gerações. O dossiê de registro identifica os romeiros como parte central da formação da paisagem cultural e religiosa de Juazeiro do Norte.
Nesse processo, histórias sobre Padre Cícero, graças alcançadas, promessas, curas, penitências e experiências vividas durante as peregrinações são compartilhadas entre familiares, grupos de romeiros e comunidades. A transmissão dessas narrativas contribui para que novos significados sejam continuamente incorporados aos lugares.
Patrimônio Cultural do Brasil
Os Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte foram registrados em 10 de junho de 2026 e inscritos no Livro de Registro dos Lugares, destinado a espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas. O registro tem abrangência no estado do Ceará.
O processo para o reconhecimento do bem começou a partir de uma solicitação apresentada em 2019 e envolveu pesquisa, documentação e participação da comunidade detentora. O dossiê elaborado para instruir o registro analisou não apenas os espaços físicos, mas as relações estabelecidas pelos romeiros com esses lugares e as práticas religiosas e socioculturais associadas a eles.
As recomendações de salvaguarda apontam ainda para a necessidade de preservar a memória dos romeiros, ampliar a pesquisa e a documentação sobre as práticas devocionais, melhorar as condições de acessibilidade e circulação nos espaços sagrados e fortalecer a preservação dos acervos relacionados à história religiosa e social de Juazeiro do Norte.
Mais do que pontos indicados em um mapa, os Lugares Sagrados formam uma rede construída pela relação entre pessoas, memória e território. São os passos dos romeiros, suas orações, promessas, narrativas e práticas transmitidas ao longo do tempo que continuam atribuindo novos sentidos a esses espaços e mantendo viva sua dimensão cultural.