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Os desafios e avanços das mulheres que protegem as UCs federais
Relatos de servidoras e brigadistas qualificam a construção de ferramentas para uma maior participação e liderança feminina na proteção - Foto: Divulgação/CEMIF
O fortalecimento da participação feminina nas ações de proteção das unidades de conservação (UCs) federais tem subido degraus no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Iniciativas recentes, como o 1º Seminário de Mulheres na Proteção das UCs federais, realizado em dezembro no Parque Nacional do Iguaçu (PR), evidenciam este movimento para ampliar a presença e a liderança de mulheres na fiscalização ambiental e no Manejo Integrado do Fogo (MIF).
O evento, promovido pelo Coletivo Jacarandá com apoio da Diretoria de Criação e Manejo de Unidades de Conservação (DIMAN), a Coordenação de Fiscalização (COFIS/CGPRO) e o Centro Especializado em Manejo Integrado do Fogo (CEMIF/CGPRO), reuniu servidoras de todo o país para discutir desafios, compartilhar experiências e propor caminhos para fortalecer a atuação feminina em uma área historicamente marcada pela predominância masculina.
Essa trajetória, no entanto, foi construída ao longo de anos de dedicação de servidoras que abriram caminhos dentro da instituição, como Simone Nogueira dos Santos, que em 2005 era uma das novas servidoras do concurso do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) daquele ano. Com todas as alegrias e desafios que os recém-chegados enfrentam, para Simone havia algumas camadas adicionais: mulher, negra, jovem, amazônida. Outras colegas como ela também enfrentaram uma barreira cultural: serem aceitas pelos demais e, especialmente, precisarem provar competência e capacidade para atuarem nas ações de campo.
Mas ela não está sozinha. A agenda de Proteção ainda possui números pouco expressivos em relação à participação feminina: dos 1060 fiscais portariados, elas representam pouco mais de um terço — 364 mulheres. Em 2025, das 709 operações que geraram relatórios consolidados, apenas 132 foram preenchidos por mulheres, o que indica que elas foram coordenadoras das operações ou chefes das unidades onde ocorreram essas ações. Quando se fala em instrução, dos 49 instrutores ativos em 2025, 17 eram mulheres.
No Manejo Integrado do Fogo (MIF), a maioria das mulheres que atuam na agenda são brigadistas. Porém, das mais de dez mil contratações feitas entre 2020 e 2025, cerca de 10% foram de mulheres. O número é menor ainda quando comparadas as contratações de chefes de esquadrão, função responsável por liderar combates: apenas 25 contratações no período. Não há números exatos de servidoras que atuam na área; ainda assim, dos 39 incidentes em nível nacional, oito contaram com liderança de mulheres na resposta; e, entre os 98 instrutores de brigada, 15 são instrutoras.
Os números ajudam a dimensionar um cenário que vem sendo debatido dentro do próprio Instituto: se o número de servidoras é próximo ao de seus colegas homens, por que a participação feminina nas atividades de Proteção ainda é menor? Estas e outras questões que motivaram a criação do Coletivo Jacarandá, grupo formado por servidoras que atuam na Fiscalização e no MIF e que realizou o levantamento dos dados apresentados. A partir desse diagnóstico, as integrantes passaram a discutir as razões que tornam essa agenda menos atrativa para as mulheres.
Para além de um afastamento inicial — já que a Proteção ainda é frequentemente associada ao imaginário masculino, com operações de risco em áreas de garimpo, desmatamento e incêndios florestais — os desafios aparecem em diferentes escalas. Eles vão da ausência de banheiros adequados e da questão menstrual, ao preconceito sobre a capacidade de atuação em campo das mulheres, passando pelas dificuldades de conciliar as jornadas de trabalho com os cuidados familiares e pelos casos de assédio.
No Seminário de dezembro estes temas foram levantados. “As diversas atividades que realizamos em grupos identificaram que as questões relacionadas à liderança, chefia e coordenação dominam; seguidas pelas questões relativas à maternidade e cuidados com os filhos; capacitações; machismo e assédio, indicando à instituição a necessidade de inclusão da pauta de gênero nos nossos processos e na estratégia do ICMBio”, reflete Salomé Sarachu, servidora que integra o Coletivo Jacarandá e foi comissão organizadora do evento.
O presidente da autarquia, Mauro Pires, que esteve presente no evento na unidade paranaense, reforçou na oportunidade o compromisso da gestão em promover a equidade de gênero na instituição e destacou o papel estratégico do Seminário. “A desigualdade entre homens e mulheres não é destino, nem lei da natureza. Ela é construída no dia a dia – nas piadas que se aceita, nas oportunidades que se abrem ou fecham, na forma como se distribui confiança e poder dentro das equipes”, refletiu.
Quem protege quem materna?
A servidora do CEMIF, Rita de Cássia, vive uma nova fase na carreira. Agora que as filhas estão criadas, ela está aberta a novos desafios. Neste ano, Rita fez o curso de formação de instrutores de brigada (CFI Brigadas), que pela primeira vez teve vagas reservadas às mulheres. Ela treinou durante semanas para os testes de Aptidão Física e Manuseio de Equipamentos (TAF/THUFA) e passou a integrar o grupo de instrutoras do ICMBio.
Além da questão da maternidade, Rita destaca que sua presença também representa resistência, considerando que é uma mulher com mais de 50 anos atuando em uma atividade que frequentemente privilegia a juventude.
A maternidade, por si só, não é um impedimento — mas a falta de apoio pode se tornar um obstáculo. Jackeline Spíndola, hoje lotada no Núcleo de Gestão Integrada (NGI) Grandes Unidades Oceânicas, foi mãe durante o exercício profissional na Amazônia e contou com o apoio de colegas e da chefia para que suas atividades de campo continuassem.
Segundo ela, iniciativas institucionais que considerem as diferentes realidades das servidoras podem ampliar ainda mais a participação feminina. “A instituição pode se preparar melhor para apoiar as mães, para que elas também consigam participar de reuniões de conselho e outras atividades de campo”, aponta.
Comunicação ICMBio
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