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Mulheres ampliam espaço e voz no ICMBio
O Dia das Mulheres é um lembrete de que igualdade não é concessão - Foto: Bruno Bimbato
O Dia Internacional das Mulheres costuma chegar acompanhado de flores, mensagens carinhosas e homenagens. Embora esses gestos tenham seu valor, eles não resumem o significado do 8 de março. A data nasceu das ruas, das greves e da mobilização de mulheres que lutaram para conquistar direitos básicos, como melhores condições de trabalho, participação política e reconhecimento na sociedade. Mais do que uma celebração, o Dia das Mulheres é um lembrete de que igualdade não é concessão: é resultado de luta coletiva e de transformações que ainda estão em curso.
Esta é a primeira de uma série de quatro reportagens que buscam destacar o papel das mulheres no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), trazendo reflexões sobre avanços, desafios e trajetórias de suas servidoras.
Em muitas instituições públicas brasileiras, a presença feminina cresce gradualmente, refletindo transformações sociais mais amplas e o esforço contínuo para romper barreiras históricas de desigualdade de gênero.
No ICMBio, por exemplo, as mulheres já ocupam um espaço expressivo. Atualmente, o Instituto conta com 910 servidoras efetivas e 1.199 servidores homens. Embora o número de mulheres ainda seja menor do que o de homens, a participação feminina é superior à observada em boa parte dos serviços públicos brasileiros, especialmente em áreas tradicionalmente associadas ao trabalho de campo, à fiscalização ambiental e à gestão territorial.
Mais do que uma presença numérica, a atuação das mulheres tem contribuído para transformar a cultura institucional e os processos de gestão. Hoje, essa presença também se reflete nos espaços de decisão: dos quatro cargos de diretoria do Instituto, três são ocupados por mulheres.
Para a diretora de Criação e Manejo de Unidades de Conservação (DIMAN), Iara Vasco, o ICMBio carrega heranças históricas de uma cultura institucional marcada por assimetrias de gênero. Segundo ela, valores patriarcais ainda estão profundamente arraigados na sociedade, e o Instituto herdou parte desse legado dos órgãos ambientais que o antecederam. “A cultura institucional era dominada por uma política autoritária e excludente, que reforçava as assimetrias de gênero e desperdiçava o potencial transbordante das mulheres”, afirma.
Nos dias de hoje, porém, a presença feminina já se faz sentir em todos os níveis da instituição, das diretorias às unidades de conservação e centros de pesquisa. “Com cargo ou sem cargo, as mulheres estão liderando muitos processos”, destaca Iara. Ela também ressalta a decisão do presidente do ICMBio, Mauro Pires, de escolher mulheres para ocupar a maioria dos cargos de direção do Instituto.
Essa transformação também passa pelo reconhecimento das contribuições das mulheres em diferentes áreas do Instituto. Um exemplo foi o primeiro seminário de mulheres na proteção das unidades de conservação, organizado pelo coletivo Jacarandá, formado principalmente por servidoras que atuam na fiscalização e no combate aos incêndios. O encontro abriu espaço para discutir desafios estruturais e condições de trabalho inadequadas para mulheres em atividades de campo.
“A mudança almejada não é colocar as mulheres à frente, mas caminhar lado a lado com os homens, com respeito e gratidão”, afirma Iara.
Katia Torres, diretora de Ações Socioambientais Territoriais (DISAT), também destaca que a presença feminina no ICMBio é resultado de trajetórias pessoais de luta e de processos institucionais que ampliaram a transparência e o acesso às oportunidades. Concursos públicos, processos seletivos e chamamentos abertos têm contribuído para romper círculos antes restritos.
Segundo ela, quando as mulheres passam a ocupar efetivamente esses espaços, surgem novas formas de trabalho e articulação. “Em geral, vejo as mulheres dedicadas ao fortalecimento dos coletivos, à atuação conjunta, mais transversalizada e generosa”, avalia Katia.
Apesar dos avanços, ela lembra que ainda existem desafios cotidianos. Muitas servidoras enfrentam sobrecargas relacionadas à conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares, além de exclusões que às vezes se manifestam de forma sutil. “Nossa colega ao lado muitas vezes está numa luta silenciosa para dar conta da vida doméstica, dos filhos e de todo o arranjo familiar e, mesmo assim, se dispõe a atuar em trabalhos que exigem ausências prolongadas”, observa a diretora da DISAT.
Mulheres na gestão e nas unidades de conservação
Longe de Brasília, em regiões mais afastadas dos grandes centros, o trabalho nas unidades de conservação apresenta realidades e demandas mais específicas. Para Cláudia Rios, gerente regional Sul do ICMBio, a presença de mulheres em posições de liderança tem ampliado a diversidade de perspectivas para lidar com esses desafios.
“A presença de mulheres em funções de liderança contribui para uma gestão mais diversa e sensível às diferentes realidades presentes nas unidades de conservação”, comenta Cláudia. Segundo ela, quando mulheres ocupam esses cargos, outras servidoras passam a se reconhecer nesses espaços, fortalecendo a participação feminina e estimulando ambientes de trabalho mais colaborativos.
Mesmo assim, atuar diretamente nas unidades de conservação ainda pode apresentar obstáculos adicionais. Cláudia aponta que muitas condições de trabalho no campo foram historicamente pensadas para equipes majoritariamente masculinas, o que exige adaptações e mudanças institucionais. Além disso, algumas mulheres ainda enfrentam a necessidade de reafirmar constantemente sua competência profissional.
A gerente regional Norte, Carla Lessa, também observa que o trabalho na conservação ambiental ainda convive com percepções baseadas no machismo estrutural. Em seu entendimento, preconceitos relacionados à suposta fragilidade física ou à capacidade de liderança das mulheres ainda aparecem em determinados contextos.
Na prática, porém, essas ideias têm sido cada vez mais desmentidas pela experiência. “A realidade tem comprovado que nada disso se sustenta”, afirma, destacando que atividades complexas de gestão e proteção ambiental exigem sobretudo inteligência emocional, capacidade de comunicação e resiliência — qualidades que não dependem de gênero.
Outro desafio recorrente é a chamada dupla jornada, que muitas vezes recai sobre as mulheres. A responsabilidade pelo cuidado com filhos, família e tarefas domésticas pode dificultar a participação em atividades que exigem longos períodos em campo ou afastamento da residência. Para Lessa, cabe às instituições reconhecer essa realidade e buscar soluções que ampliem a equidade de oportunidades.
Formada em engenharia civil em uma época em que havia poucas mulheres na área, ela enfrentou desafios desde o início da carreira em ambientes predominantemente masculinos. Segundo a gerente regional, ainda é comum que mulheres tenham sua capacidade mais questionada em determinadas situações profissionais.
Apesar disso, Carla acredita que o fortalecimento das redes de apoio entre servidoras e o engajamento de colegas homens comprometidos com a igualdade são fundamentais para avançar. Para ela, o momento exige atenção, já que o machismo e a violência contra a mulher continuam presentes na sociedade.
No ICMBio, como em tantas outras instituições públicas, o Dia Internacional das Mulheres é, portanto, um momento de reconhecimento — mas também de reflexão. O 8 de março segue sendo um convite para reconhecer as trajetórias, os desafios e as contribuições das mulheres que, todos os dias, ajudam a construir uma sociedade mais democrática e plural.
Organização e mobilização nas unidades de conservação
A presença feminina também se destaca nas unidades de conservação espalhadas pelo país. Um exemplo é a Reserva Extrativista Verde Para Sempre, em Porto de Moz (PA), atualmente gerida por uma equipe formada integralmente por servidoras mulheres. A experiência evidencia como a participação feminina vem se consolidando também na gestão direta dos territórios protegidos.
Nos dias 7 e 8 de março, a unidade sedia o 1º Encontro de Mulheres da Resex Verde Para Sempre, reunindo extrativistas do campo e da cidade para discutir garantia de direitos, acesso a políticas públicas e fortalecimento da organização coletiva. A programação inclui mesas de diálogo e a 1ª Marcha das Mulheres Portomozenses, realizada no Dia Internacional das Mulheres.
Segundo a gestora da unidade, Ranara Silva, o encontro foi pensado como um espaço amplo e democrático de diálogo e articulação. “As mulheres extrativistas estão na linha de frente da proteção dos territórios e são também fortemente impactadas pelas mudanças do clima. Ao se organizarem, ampliam sua capacidade de enfrentar ameaças como desmatamento, grilagem e exploração predatória”, destaca.
Realizado pelo ICMBio, pela Associação de Mulheres de Porto de Moz e pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), o encontro reúne diversos parceiros e marca um momento de mobilização, reconhecimento e celebração das mulheres que sustentam a sociobiodiversidade na região.
Mais do que flores, o 8 de março segue sendo um convite para reconhecer as trajetórias, os desafios e as contribuições das mulheres que, todos os dias, ajudam a construir uma sociedade mais democrática e plural.
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