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Guardiãs dos territórios: comunitárias fortalecem a conservação da sociobiodiversidade no ICMBio
Sâmilly é liderança jovem no Maranhão - Foto: Divulgação
Saberes ancestrais, práticas coletivas e a força cotidiana de quem cuida da terra, das águas e da vida. No mês em que celebra o protagonismo feminino, a série de reportagens “Mês das Mulheres” do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) chega ao seu fechamento destacando aquelas que, por gerações, têm se dedicado à conservação ambiental: as mulheres dos povos e das comunidades tradicionais. Entre florestas, manguezais, rios e marés – indígenas, quilombolas, pescadoras, marisqueiras, entre tantas outras categorias socioprodutivas, tecem redes de resistência, conhecimento e cuidado pela biodiversidade.
A atuação do ICMBio dialoga, reconhece e fortalece o papel das mulheres nas unidades de conservação (UCs) federais, com um olhar atento às reservas extrativistas (Resex). Criadas a partir da luta histórica dos povos da floresta, nesses territórios, o uso sustentável dos recursos naturais está diretamente ligado aos saberes tradicionais, muitos deles mantidos e transmitidos pelas mulheres.
“A Resex é mais que uma área de mar e mangue: é casa, lazer, alimento, escola, trabalho. Foi dos recursos dela que minha família se sustentou até aqui […] Mesmo sem saber conceitos legais, os moradores sabem que ela é a base de tudo que construímos na vida, é a maior provedora. E as mulheres, em especial, são aquelas que estão à frente de tudo. Elas são o recurso humano mais importante desse lugar. Sem elas, nada anda e nada acontece. Ser mulher aqui é ser uma força da própria natureza!”, coloca Sâmilly Fonsêca Carlos, liderança jovem da Resex Marinha de Cururupu, no Maranhão.
"As mulheres, em especial, são aquelas que estão à frente de tudo. Elas são o recurso humano mais importante desse lugar. Sem elas, nada anda e nada acontece. Ser mulher aqui é ser uma força da própria natureza!”, diz Sâmilly Carlos.
No Brasil, a conservação ambiental não se faz sem essas mulheres. Presentes e atuantes na linha de frente em todos os biomas brasileiros – na Amazônia, no Cerrado, na Mata Atlântica, na Caatinga, no Pantanal e no Pampa –, ainda que frequentemente invisibilizadas, carregam em seus corpos-territórios memórias, lideram, defendem e sustentam saberes ancestrais e práticas coletivas.
ICMBio e o fortalecimento das mulheres nas reservas extrativistas
Reconhecer esse conhecimento é fortalecer estratégias de gestão mais eficazes e participativas. Com ações de apoio à organização social, capacitações, incentivo à geração de renda e valorização dos produtos da sociobiodiversidade, o Instituto contribui para ampliar a autonomia das mulheres e dar maior visibilidade ao seu protagonismo.
O Projeto Jovens Protagonistas da Pesca Artesanal na Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais – UC localizada entre Pernambuco e Alagoas – e o monitoramento da pesca e do manguezal, por meio do Programa Monitora, foram portas de entrada para o fortalecimento e para o reconhecimento de Tayná Oliveira como liderança jovem da pesca e ativista socioambiental.
“Em 2019, comecei a participar do projeto, e esse foi um momento que trouxe muitos filhos e filhas de pescadores para participar das formações. Passei a ser monitora da pesca artesanal. Participei de cursos, como o de gestão socioambiental, tudo feito pelo ICMBio. Foi uma imersão que impulsionou muito para que eu desse continuidade ao que meus pais começaram”, destacou.
Desde 2023, atuando em diversas frentes locais e nacionais, Tayná Oliveira conta sobre suas conquistas e sobre os desafios de estar à frente de processos de tomada de decisão em seu território. “Há desconfortos por eu ser jovem, por ser mulher, por ser mãe solo. Mas, aos poucos, fui entendendo a dimensão e a importância desses processos”, ressalta a mobilizadora da juventude da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (Confrem).
Com orgulho, ela relembra sua participação na construção do Coletivo Jovem da Rede de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) – uma iniciativa voltada ao fortalecimento, à formação e à incidência política de jovens indígenas, quilombolas, extrativistas e de outros grupos tradicionais brasileiros. “Eu venho de uma família em que as mulheres faziam acontecer, com ou sem companheiros. Eu cresci fazendo acontecer. Sou mãe solo e me perguntava: como vou dar conta de tudo com uma criança? Mas fui entendendo que preciso trazer minha filha para participar. E isso é fantástico. O maternar, o cuidar, também está em inspirar outros jovens e trazê-los para atuar junto comigo. Ao longo do processo, isso fortalece muito”, compartilha.
Tayná também representa o Coletivo dos Jovens Protagonistas e a Rede de Mulheres Pescadoras da APA Costa dos Corais, além do Instituto Diversos e da Associação de Jangadeiros Artesanais de Barra de Santo Antônio, em Alagoas.
Espaços de articulação e troca de experiências
Na produção audiovisual “Mulheres do Manguezal”, disponibilizada no canal do ICMBio e exibida pelo Canal Gov, são apresentadas narrativas de algumas lideranças e o olhar sociopolítico cultural de pesquisadores e analistas ambientais do Instituto sobre a atuação feminina na pesca na Resex Marinha de Soure, no Pará.
Além dessas iniciativas de apoio ao protagonismo feminino, os espaços de escuta e articulação promovidos pelo Instituto têm ampliado essa presença nos processos de gestão participativa das unidades, reforçando que políticas públicas eficazes se constroem com a participação ativa de quem vive no território. A exemplo, o I Encontro de Mulheres das Águas, das Marés e das Florestas, promovido pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT/ICMBio).
Com o tema “Mulheres, Extrativismo e Sociobiodiversidade: Fortalecendo Redes e Cooperação”, o encontro teve como objetivo promover o intercâmbio entre mulheres protagonistas das UCs federais e estaduais de diversas regiões do Brasil. Para a coordenadora do CNPT, Gabriele Soeiro, foi uma oportunidade única, “Juntas foi possível visualizarmos estratégias e, principalmente, valorizar o protagonismo feminino. Reunimos diversas frentes que fortalecem os territórios tradicionais, promovem a conservação da sociobiodiversidade e o empoderamento das mulheres”, relembra.
Redes que fortalecem: articuladoras do presente e semeadoras do futuro
Entre as experiências de redes, exemplos como a Rede de Mulheres das Marés, das Águas e dos Manguezais Amazônicos do Maranhão e Piauí (Remulmana), exitosa e transformadora. A rede compõe a linha de frente pela conquista da Escola das Marés e das Águas. A iniciativa educacional inovadora, apoiada pelo ICMBio, leva cursos superiores a comunidades tradicionais costeiras no Maranhão, Piauí e Ceará, com foco nas áreas do Turismo e Recursos Pesqueiros.
Para Sâmilly Carlos, que cresceu em meio ao processo de construção da Resex Marinha de Cururupu (MA), a participação ativa de seus pais, fez com que ela desenvolvesse desde cedo uma relação muito consciente com a importância do lugar onde morava e com alguns de seus desafios. Hoje formada em Ciências Biológicas, com especialização em Educação Ambiental, trabalha como coordenadora de meio ambiente na Secretaria Municipal de Meio Ambiente do município de Cururupu e como tutora da Escola das Marés e das Águas na Resex.
Para ela, povos e comunidades tradicionais precisam estar organizados antes de ir à luta por suas demandas – do contrário, não serão ouvidos. Isso parte do entendimento de que lutas individuais não refletem o todo, sendo necessário atuar em coletividade, especialmente em movimentos voltados ao fortalecimento de mulheres.
“Elas que são as grandes construtoras das comunidades. Tudo só acontece aqui, na grande maioria das vezes, porque as mulheres estão à frente, elas representam suas famílias em muitos momentos, são as vozes dos seus entes queridos e, claro, também têm sua própria voz”, enfatiza Sâmilly Carlos
Outras redes de destaque são o coletivo “Mães do Mangue”, a “Rede de Mulheres Pescadoras da Costa dos Corais”, a “Rede de Mulheres de Comunidades Extrativistas Pesqueiras do Sul da Bahia”, a “Rede de Mulheres Produtoras do Cerrado e Pantanal”, entre tantos outros coletivos pertencentes a territórios e maretórios que entrelaçam meio ambiente e cuidado comunitário.
Do território ao mundo: mulheres no centro da conservação
Como forma de reconhecer e apoiar mulheres extrativistas que se organizam em redes locais, regionais e nacionais, promovendo o fortalecimento comunitário, a defesa de direitos e o enfrentamento de desafios como a mudança climática, o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) tem sido um dos principais espaços de articulação, reunindo lideranças de todo o país e ampliando a participação das mulheres nas instâncias de decisão.
Em se tratando de agendas globais, em 2025, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, Pará, organizações parceiras e instituições governamentais consolidaram o protagonismo feminino na defesa da Amazônia reunindo lideranças no Encontro Nacional das Mulheres Extrativistas.
Já na última semana, na 15ª Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, destacou-se que a conservação depende diretamente do conhecimento e da atuação cotidiana das mulheres nos territórios. Para a secretária nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Rita Mesquita, as mulheres manejam territórios fundamentais para a vida. “É necessário incentivar e dar visibilidade a esses esforços e trazer as mulheres, especialmente as jovens, para o centro dos espaços de decisão e governança”, ressaltou a secretária durante o evento.
Esse reconhecimento reflete nas políticas públicas brasileiras. O novo Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima), com horizonte até 2035, incorpora a Estratégia Mulheres e Clima, integrando pela primeira vez a perspectiva de gênero como eixo estruturante das ações climáticas. A diretriz reconhece que, embora as mulheres sejam desproporcionalmente afetadas pela mudança climática, são também protagonistas na conservação da biodiversidade e na resiliência dos ecossistemas.
Vozes do território: saberes que atravessam gerações
Um olhar e um fazer ancestral feminino são os da liderança da Terra Indígena Pindaré e Arariboia, Arlete Guajajara, gestora de projetos do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) que atua em parceria com as associações do Mosaico Gurupi. Este conjunto estratégico de áreas protegidas localiza-se na região amazônica entre o Maranhão e o Pará, onde está a Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi, gerida pelo ICMBio.
Em sua trajetória de formação social, Arlete sempre esteve envolvida e atuante em defesa do território. “Já fui conselheira distrital de saúde, já fiz parte de um grupo de mulheres da agricultura familiar que deu o pontapé inicial das associações em busca de políticas públicas para nosso território”, relembra.
“Quando se é liderança dentro do território, a gente faz um pouco de tudo. Mas acredito que quando as mulheres estão envolvidas nos processos de tomadas de decisão tudo flui melhor. A gente enquanto mulher consegue resolver no diálogo, com sabedoria e confiança”, destaca Arlete, que atuou também como presidente da Associação Comunitária Mainumy da Terra Indígena Rio Pindaré por quatro anos.
Valorizar as mulheres dos povos e das comunidades tradicionais é reafirmar o compromisso com uma conservação socioambiental e biodiversa. É compreender que proteger ecossistemas passa, necessariamente, por ouvir, respeitar e caminhar junto com quem sempre esteve na linha de frente desse cuidado.
Ao encerrar esta série, o ICMBio reforça que são muitas as formas de fazer conservação e que, entre elas, o protagonismo das mulheres é fundamental. São histórias de luta de quem escolheu pesquisar, proteger, conservar e inspirar novas gerações no cuidado com o que é de todos nós – a natureza.
Confira as demais reportagens da série
- Mulheres ampliam espaço e voz no ICMBio
- Mulheres na ciência da conservação: pesquisadoras fortalecem a biodiversidade no ICMBio
- Os desafios e avanços das mulheres que protegem as UCs federais
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