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Educação superior chega aos territórios tradicionais do Maranhão com a Escola das Marés e das Águas
O evento aconteceu em Icatu, no Maranhão - Foto: Geylson Paiva/ICMBio
A comunidade quilombola de Santa Maria de Guaxenduba, localizada na Reserva Extrativista (Resex) Baía do Tubarão, no município de Icatu (MA), foi palco, nesta quarta-feira (11), de um marco histórico para a educação pública e para a conservação da biodiversidade brasileira: a aula inaugural da Escola das Marés e das Águas no Maranhão. A iniciativa, que conta com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), leva educação superior pública, gratuita, diferenciada e territorializada a povos e comunidades tradicionais extrativistas costeiros e marinhos, reafirmando que a conservação ambiental e a justiça social caminham juntas.
Construída de forma coletiva pela Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas (CONFREM), em parceria com o ICMBio e a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), a Escola ofertará 600 vagas nos cursos superiores de Tecnologia em Recursos Pesqueiros e Tecnologia em Turismo. Os cursos atenderão moradores e moradoras de seis reservas extrativistas federais, do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, da Área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba e de outros territórios tradicionais, permitindo que os estudantes concluam a graduação sem precisar sair de suas comunidades.
Para a professora Dra. Ligia Tchaicka, coordenadora-geral do Núcleo de Tecnologias para Educação da UEMA, o momento é histórico. “É a primeira vez que a UEMA oferece cursos dentro do território de unidades de conservação na região costeiro-marinha do Maranhão, chegando até o Piauí. Esses cursos nasceram das demandas dessas comunidades, e é assim que estamos cumprindo o papel da universidade com a sociedade", destaca.
A cerimônia de abertura foi marcada por falas de reconhecimento da conquista, construída a partir da mobilização social. Isso porque a Escola das Marés e das Águas não é um projeto imposto aos territórios, mas nasce da luta histórica das comunidades extrativistas pelo direito à educação superior contextualizada, que respeite os tempos das marés, os ciclos produtivos e os modos de vida tradicionais.
Alberto Cantanhede, liderança comunitária da Resex Tauá-Mirim e coordenador da CONFREM/MA, destacou que os cursos representam uma oportunidade na luta pela conservação dos territórios marinhos pesqueiros. "O que a gente tem de desafios, de possibilidades, de aliados, para poder enfrentar esses desafios que temos pela frente", pontuou o pescador, que participou como palestrante da aula inaugural.
A proposta pedagógica integra conhecimento acadêmico e saberes tradicionais, valorizando a experiência de pescadores, marisqueiras, extrativistas e juventudes costeiras como parte fundamental da formação. Uma oportunidade que Rosinalva de Nasaret Garcês, moradora da comunidade Itatuaba, na Resex Baía do Tubarão, conquistou e, agora como aluna da Escola das Marés e das Águas, se emociona ao falar da sua luta. “Para mim é gratificante, eu nunca tinha tido oportunidade. A minha expectativa é ter mais conhecimento e passar para os meus filhos. Eu consegui, estou aqui e me sinto feliz e realizada”, declarou.
Para a professora Dra. Sueli Furlan, essa é uma iniciativa que propicia muitas conexões entre sujeitos e lugares, especialmente para o desenvolvimento local, no mundo contemporâneo. “É preciso olhar para dois grandes temas, o da interseccionalidade de gênero, das mulheres pescadoras, da questão econômica para esse segmento que ainda é invisível, e o das mudanças climáticas", ressaltou a palestrante da aula inaugural.
Academia e saber tradicional caminhando juntos
Mais do que qualificação técnica, trata-se de ampliar horizontes, gerar perspectivas socioeconômicas e fortalecer o protagonismo comunitário na gestão de seus próprios territórios. Uma gestão compartilhada que o ICMBio tanto preza com as populações tradicionais.
"Esse é o resultado do protagonismo das comunidades em diálogo com o meio acadêmico para qualificar a gestão”, pontuou o chefe do NGI ICMBio São Luís, Rogério Funo.
Experiência reconhecida na agenda climática internacional
A Escola das Marés e das Águas ganhou destaque na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém (PA), onde foi apresentada como exemplo de política educacional voltada à justiça climática e à conservação dos territórios costeiros e marinhos.
A experiência já foi implementada no Ceará, com o primeiro curso Tecnólogo em Turismo Comunitário do país voltado exclusivamente a povos e comunidades tradicionais costeiras residentes em reservas extrativistas federais. No Maranhão, a iniciativa ganha dimensão ampliada pelo número de vagas e pela abrangência territorial, consolidando-se como uma das maiores experiências de educação superior territorializada voltada a populações extrativistas.
Para o ICMBio, apoiar a Escola das Marés e das Águas significa fortalecer a gestão participativa das Unidades de Conservação federais e reconhecer que povos e comunidades tradicionais são protagonistas na proteção dos ecossistemas. Ao promover educação alinhada à realidade dos territórios, a iniciativa contribui para a permanência digna das comunidades, para o fortalecimento da sociobioeconomia e para a conservação dos manguezais, estuários e demais ambientes costeiros, ecossistemas estratégicos para o enfrentamento da mudança climática.
A aula inaugural em uma das comunidades da resex simboliza mais do que o início dos cursos superiores. Representa a consolidação de uma política pública construída em rede, que une poder público, universidade e movimentos sociais em torno de um objetivo comum: garantir educação de qualidade, valorizar saberes tradicionais e cuidar da natureza com as pessoas.
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