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2º Sinafogo aponta caminhos para prevenção e resposta integrada a incêndios florestais
Mesa de abertura do 2º Sinafogo, em Brasília, destacou a implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e a importância da integração entre instituições para fortalecer a prevenção e a resposta aos incêndios florestais. - Foto: Vinicius Cardoso/Ibama
Brasília (01/07/26) — Em um cenário de eventos climáticos extremos e aumento dos desafios relacionados aos incêndios florestais, Brasília sediou, de 24 a 26 de junho, o 2º Simpósio Nacional sobre Gestão do Fogo (2º Sinafogo). Promovido pelo Ibama, por meio do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), o encontro reuniu representantes do poder público, da comunidade científica, da sociedade civil, de comunidades tradicionais e especialistas internacionais.
Com o tema “Ações estratégicas e integradas para implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo”, o simpósio marcou dois anos de vigência da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF) e consolidou uma mudança de paradigma na forma como o país lida com o assunto: de uma lógica centrada apenas no combate aos incêndios para uma abordagem preventiva, planejada e compartilhada.
Desde a primeira edição do Sinafogo, realizada em 2024, o Brasil avançou na estruturação institucional do manejo integrado do fogo. A PNMIF passou a orientar ações que articulam conhecimento científico, saberes tradicionais, prevenção, monitoramento, resposta rápida e corresponsabilidade entre União, estados, municípios, setor privado e sociedade civil.
Para o presidente do Ibama, Jair Schmitt, esse compartilhamento de responsabilidades é uma das principais contribuições da Política.
“A Política do manejo integrado do fogo trouxe um elemento importante, que é o compartilhamento de responsabilidades. Ela tornou mais claro quais são os papéis dos órgãos federais, estaduais, sociedade civil e do setor privado. O incêndio florestal não é mais uma responsabilidade exclusiva”, afirmou.
Ao longo dos três dias, os debates evidenciaram que o manejo integrado do fogo depende tanto de instrumentos normativos e sistemas de informação quanto da valorização das brigadas comunitárias, da atuação dos produtores rurais, da integração entre instituições e do reconhecimento das especificidades de cada território.
No primeiro dia, o foco esteve na governança da PNMIF e nos instrumentos criados para dar sustentação à política. O Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo (COMIF) foi apresentado como peça central dessa nova estrutura. Em dois anos, o colegiado aprovou cinco resoluções estruturantes, incluindo parâmetros para prevenção em imóveis rurais e a Estratégia Nacional do Voluntariado no Manejo Integrado do Fogo.
A presença do Comitê Estadual de Gestão do Fogo de Tocantins reforçou a necessidade de uma atuação interfederativa permanente. A implementação da política, segundo os participantes, exige coordenação entre os três níveis de governo, participação do setor privado e envolvimento direto dos atores que vivem e atuam nos territórios. A Sala de Situação, coordenada pela Casa Civil, também foi apresentada como estrutura estratégica para antecipar cenários e fortalecer a atuação do Estado em crises climáticas severas.
Outro destaque foi a apresentação do Sistema Nacional de Informações sobre o Fogo (Sisfogo), plataforma criada para integrar dados nacionais sobre fogo e conectar informações obtidas por sensores satelitais à realidade em campo. A proposta é reunir, em uma mesma base, registros de ocorrências de incêndios florestais, autorizações de queimas prescritas e controladas, monitoramento de alertas e mapeamento de recursos humanos e materiais empregados nas ações de resposta.
O sistema não deve substituir plataformas já existentes nos estados e municípios, mas funcionar como referência nacional para padronizar informações e permitir maior interoperabilidade entre instituições. Também foi destacada a Autorização por Adesão e Compromisso (AAC), mecanismo que busca simplificar o acesso do produtor rural à legalidade no uso responsável do fogo.
“O Sisfogo nasce com essa missão complexa de qualificar a informação, trazer o ciclo completo do fogo, desde as autorizações, detecções, combate, registro e, principalmente, a padronização da informação. Não existe interoperabilidade sem padronização”, explicou Lawrence Nóbrega, da Coordenação de Monitoramento e Combate aos Incêndios Florestais do Prevfogo/Ibama.

- Participantes acompanham os debates do 2º Sinafogo, realizado em Brasília, sobre governança, prevenção, tecnologia e resposta integrada aos incêndios florestais - Foto: Rômulo de Oliveira/Ibama
Ainda no primeiro dia, o painel sobre resposta a incêndios destacou o papel do Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Nacional (Ciman), que reúne cerca de 20 instituições para integrar esforços federais em áreas como análise meteorológica, monitoramento de regiões críticas e acionamento de operações de maior complexidade.
Assista à transmissão completa do primeiro dia do 2º Sinafogo
O segundo dia ampliou o debate para os impactos econômicos, a meteorologia e as experiências internacionais. A economista Mariana Conte Grand apresentou estudo produzido pelo Banco Mundial que estimou em aproximadamente US$ 35,9 bilhões os prejuízos causados pelos incêndios de 2024 na Amazônia. O cálculo inclui a carga de mortalidade associada à exposição a partículas finas e reforça que o custo da inação supera, de forma expressiva, os investimentos necessários em prevenção.
A participação internacional foi um dos diferenciais desta edição. Portugal apresentou a experiência da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), criada após as tragédias causadas pelos incêndios florestais em Portugal em 2017. O modelo português combina responsabilidade individual do proprietário rural, portal público com informações cartográficas e normativas, e investimento contínuo em prevenção. A experiência mostrou que a gestão do fogo envolve não apenas tecnologia e capacidade operacional, mas também mudanças culturais, institucionais e comunicativas.
A meteorologia aplicada à tomada de decisão também ganhou espaço nos debates, com contribuições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A análise de dados climáticos foi apontada como ferramenta essencial para orientar ações preventivas, planejar operações e reduzir riscos em períodos críticos.
No período da tarde, especialistas discutiram os desafios do combate a incêndios na Floresta Amazônica. A logística complexa do bioma, as longas distâncias e a dificuldade de acesso reforçam a importância das brigadas comunitárias como atores fundamentais na primeira resposta. O debate também sinalizou um alerta para o cenário de 2026, marcado pela combinação entre o fenômeno El Niño e o ano eleitoral, contexto que exige maior robustez institucional, planejamento antecipado e continuidade das políticas públicas.
A experiência do Chile no monitoramento e combate aéreo a incêndios, apresentada pela Corporação Florestal Nacional (CONAF), completou o panorama internacional do segundo dia.
Assista à transmissão completa do segundo dia do 2º Sinafogo

- Painel do 2º Sinafogo destacou o protagonismo feminino no manejo integrado do fogo e a valorização dos saberes ancestrais na proteção dos territórios - Foto: Vinicius Cardoso/Ibama
No terceiro dia, o simpósio voltou-se às práticas em campo, à corresponsabilidade e aos caminhos para fortalecer a política nos territórios. A base legal do manejo integrado do fogo foi detalhada por Leonardo Gomes, da Coordenação-Geral de Políticas para o Manejo Integrado do Fogo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Ele destacou a Resolução Comif nº 3, que estabelece parâmetros mínimos para prevenção em imóveis rurais e define responsabilidades para propriedades situadas em áreas prioritárias ou que realizem queimas prescritas.
Mateus Tavares, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), apresentou experiências de capacitação voltadas à elaboração de planos de prevenção em propriedades rurais. Nos cursos, os produtores aprendem a mapear suas propriedades, identificar riscos e construir documentos de gestão que apoiem a tomada de decisão em situações críticas.
“Ao longo do treinamento, a estratégia é: o produtor recebe informação e, ao mesmo tempo, constrói um plano de prevenção, um mapa de risco. Isso já dá um alerta, um clique”, afirmou.
As experiências locais mostraram como a combinação entre tecnologia, comunicação rápida e conhecimento territorial pode reduzir o tempo de resposta aos incêndios. Ferramentas como o sistema Pantera, que compila dados de diferentes satélites e compartilha coordenadas de focos de calor em grupos de alerta, permitem que brigadistas e lideranças locais realizem a validação em campo com mais agilidade.
Também foram apresentados exemplos de uso de inteligência artificial e mapas de cicatriz de fogo no monitoramento de focos de calor, como a experiência de São Paulo. Essas tecnologias ajudam a identificar áreas de maior fragilidade, priorizar atendimentos e evitar que pequenos focos se transformem em grandes incêndios florestais.
Entre as práticas comunitárias, a experiência do Baixo Tapajós foi apontada como exemplo de integração entre sociedade e poder público. Gabriel Franco apresentou a metodologia conhecida como “chave de acionamento”, protocolo que conecta brigadas comunitárias, voluntárias e órgãos públicos, como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), para validar focos de calor e organizar a primeira resposta.
Segundo o relato, a atuação direta das brigadas voluntárias contribuiu para uma redução superior a 90% nos custos operacionais do ICMBio na região em 2024, em comparação com 2023. A comunicação por redes sociais permite diferenciar rapidamente uma roça tradicional de um incêndio acidental, otimizando o uso de recursos e fortalecendo a atuação territorial.
O protagonismo feminino nas brigadas também foi tema de destaque. Tainan da Silva Cardoso, da Brigada Guardiões Kumaruara, ressaltou que as mulheres exercem papel fundamental no planejamento, no cuidado coletivo e na proteção dos territórios, embora essa atuação tenha sido historicamente invisibilizada.
“A mulher traz um pouco mais esse cuidado coletivo, e o maior diferencial é justamente na forma de liderar e de avaliar o presente e o futuro”, afirmou.
A brigadista também chamou atenção para a necessidade de equipamentos de proteção individual adequados ao corpo feminino, como luvas e EPIs ajustados. Segundo ela, a pauta não é estética, mas de segurança e eficiência operacional. Tainan também citou iniciativas de brigadas infantis voltadas à educação ambiental e à prevenção desde as novas gerações.
A sustentabilidade das brigadas voluntárias e comunitárias apareceu como desafio recorrente. Flávia Rico, do MMA, destacou a necessidade de seguro de vida, infraestrutura básica e mecanismos de apoio que garantam condições adequadas para quem atua na linha de frente, evitando que o voluntariado dependa apenas do esforço individual dos brigadistas.

- Participantes do 2º Sinafogo se reúnem ao final do simpósio, que debateu governança, prevenção, tecnologia, brigadas comunitárias e os próximos passos da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo - Foto: Vinicius Cardoso/Ibama
Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), traçou um panorama da estrutura institucional e legal do manejo do fogo no Brasil e destacou a importância de uma governança duradoura.
Assista à transmissão completa do terceiro dia do 2º Sinafogo
O simpósio foi encerrado com uma plenária de síntese dos três dias de debates. Flávia Saltini Leite, coordenadora-geral do Prevfogo/Ibama, apresentou um balanço dos avanços e lacunas da PNMIF, com ênfase na necessidade de consolidá-la como política de Estado.
Entre os principais desafios identificados para os próximos anos estão o fortalecimento do manejo integrado do fogo em biomas como Caatinga e Cerrado, a consolidação do Sisfogo como sistema nacional de referência, a ampliação das brigadas comunitárias, a integração efetiva dos entes subnacionais e a garantia de financiamento estável para ações de prevenção.
Também foram apontadas como prioridades a ampliação da participação de órgãos estaduais e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) no apoio às brigadas indígenas voluntárias, a discussão de um fundo emergencial para primeira resposta e a elaboração de diagnósticos regionais por bioma, considerando que Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica exigem estratégias próprias.
Ao final, o 2º Sinafogo reafirmou que o manejo integrado do fogo não é uma atribuição isolada de órgãos ambientais, mas uma agenda pública transversal, que depende da articulação entre ciência, gestão pública, comunidades, produtores rurais e saberes tradicionais. Em um contexto de agravamento dos eventos climáticos extremos, a prevenção, a governança compartilhada e a atuação territorial surgem como caminhos indispensáveis para reduzir riscos e proteger vidas, florestas e modos de vida.
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