El Niño
O El Niño e a La Niña são duas fases opostas de um mesmo fenômeno natural, chamado El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que envolve mudanças na temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial e na circulação atmosférica.
O fenômeno apresenta três fases:
- El Niño: fase quente, caracterizada pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial acima da média histórica.
- La Niña: fase fria, caracterizada pelo resfriamento dessas águas abaixo da média histórica.
- Neutralidade: ocorre quando não estão presentes as condições que caracterizam o El Niño ou a La Niña.
O El Niño pode provocar mudanças nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do Brasil. Seus efeitos variam conforme a intensidade e a duração do fenômeno, a época do ano e as condições climáticas de cada região. O El Niño é um fenômeno natural que ocorre em ciclos de poucos anos e não deve ser confundido com a mudança do clima, que envolve alterações de longo prazo nos padrões climáticos do planeta, associadas principalmente ao aumento dos gases de efeito estufa.
Embora sejam fenômenos diferentes, eles podem interagir. O El Niño pode intensificar determinados eventos climáticos extremos em um cenário de aquecimento global. Ainda existem incertezas sobre como a mudança do clima poderá afetar a frequência e a intensidade do El Niño no futuro.
Monitoramento climático
No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) são responsáveis pelo monitoramento do El Niño e pela elaboração de previsões climáticas, em conjunto com outras instituições. Elas publicam boletins sobre a evolução do fenômeno, as previsões climáticas e seus possíveis impactos no país.
Para a saúde, o El Niño é um dos fatores que podem influenciar as condições climáticas e aumentar os riscos à população. Por isso, a preparação antecipada dos serviços de saúde é importante para prevenir doenças, reduzir riscos e evitar a sobrecarga do Sistema Único de Saúde - SUS. O Ministério da Saúde dispõe do Plano Setorial de Saúde – AdaptaSUS, que integra o Plano Clima Adaptação, e de planos específicos para orientar a preparação e a resposta a eventos climáticos extremos:
- Plano de Contingência para Emergências em Saúde Pública por Seca e Estiagem.
- Plano de Contingência para Emergências em Saúde Pública por Chuvas Intensas e Desastres Associados.
Esses documentos identificam os riscos, estabelecem as etapas de resposta e definem as responsabilidades das equipes envolvidas.
Outra iniciativa são os Centros de Informação em Saúde e Clima (CISC), que reúnem e analisam dados climáticos, ambientais, de saúde e das condições de vida da população. Essas informações ajudam a identificar riscos, orientar ações de vigilância e apoiar o planejamento dos serviços de saúde. Os centros não atuam diretamente na resposta às emergências. Sua função é produzir e compartilhar informações que apoiem a tomada de decisões e a preparação dos territórios diante dos riscos climáticos.
Impactos na saúde
O El Niño pode afetar a saúde da população de diferentes formas. Seus impactos dependem das condições climáticas de cada região e da vulnerabilidade das pessoas.
- O El Niño pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do Brasil.
- Essas mudanças podem favorecer o calor intenso, a seca, a baixa umidade, as queimadas, as chuvas intensas e as inundações.
- Esses eventos podem aumentar os riscos à saúde, especialmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade, dependendo das condições de moradia, do acesso ao saneamento básico e aos serviços de saúde.
Esses fatores também podem aumentar a procura por atendimento e sobrecarregar os serviços de saúde.
Seca, estiagem e baixa umidade
A redução das chuvas pode ocorrer junto com temperaturas elevadas, baixa umidade do ar, piora da qualidade do ar causada por queimadas e redução da quantidade ou da qualidade da água disponível.
Entre os principais riscos à saúde, estão:
Diarreias, hepatite A e outras doenças transmitidas pela água.
Desnutrição infantil em áreas onde a agricultura familiar foi afetada pela seca.
Maior concentração de poluentes em rios com menor volume de água.
Eventos extremos de chuva
Em regiões com chuvas acima da média, podem ocorrer inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos de terra. Esses eventos podem provocar mortes, ferimentos, deslocamento de pessoas, contaminação da água e aumento do risco de doenças.
Entre as principais consequências, estão:
Afogamentos, ferimentos e mortes.
Leptospirose e outras doenças associadas ao contato com água contaminada.
Interrupção dos serviços de saúde e da conservação de vacinas.
Calor extremo
Episódios de calor extremo podem agravar doenças crônicas e aumentar os riscos à saúde, especialmente entre crianças, gestantes, pessoas idosas e trabalhadores que realizam atividades ao ar livre.
Os principais riscos incluem:
Insolação e desidratação, especialmente em crianças e pessoas idosas.
Agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias.
Maior risco de problemas de saúde relacionados ao calor entre trabalhadores rurais e da construção civil.
Doenças transmitidas por vetores
Mudanças na temperatura, nas chuvas e na umidade podem alterar a reprodução dos vetores e a transmissão de doenças. O risco também depende das condições de saneamento, do armazenamento de água, da presença dos vetores, da circulação dos agentes infecciosos e das ações de vigilância e controle. Tanto os períodos chuvosos quanto os de seca podem favorecer a proliferação de mosquitos, principalmente quando há armazenamento inadequado de água.
Entre os principais riscos, estão:
Dengue, Zika e chikungunya.
Alterações no risco de transmissão da malária em determinadas áreas da Amazônia.
Mudanças nos períodos de maior transmissão, dificultando o planejamento das ações de prevenção e controle.
Saúde mental e segurança
Eventos climáticos extremos podem afetar a saúde mental e a segurança das pessoas atingidas. A perda da moradia, a redução da renda, o deslocamento forçado e a interrupção de serviços essenciais podem aumentar os impactos na saúde mental, especialmente entre populações em situação de maior vulnerabilidade.
Entre as possíveis consequências, estão:
Ansiedade, luto, estresse e transtorno de estresse pós-traumático após desastres.
Acidentes domésticos relacionados ao uso improvisado de fontes de energia e ao armazenamento inadequado de água.
Quem corre mais risco
O impacto do El Niño na saúde não é igual para todo mundo. Alguns grupos enfrentam riscos maiores, seja por fatores biológicos, seja pelas condições de moradia e trabalho.
- Crianças pequenas: mais suscetíveis à desidratação, à desnutrição e a doenças diarreicas.
- Gestantes: maior vulnerabilidade a arboviroses e a complicações por calor extremo.
- Pessoas idosas: risco elevado de golpe de calor e de descompensação cardiovascular.
- Povos indígenas e comunidades tradicionais: dependência direta de rios e chuvas para água, alimento e mobilidade.
- População em situação de rua e moradias precárias: exposição direta a calor, chuva e falta de saneamento.
- Trabalhadores rurais e da construção civil: exposição prolongada ao calor e a variações bruscas do tempo.
O que fazer em cada cenário
Em caso de seca ou falta de água
Utilize água potável para beber e preparar alimentos. Se não houver garantia de que a água é segura, siga as orientações das autoridades de saúde para tratá-la.
Mantenha caixas-d'água e cisternas limpas e bem tampadas.
Procure uma unidade de saúde se apresentar sintomas de diarreia, especialmente em crianças, que podem desidratar rapidamente.
Redobre a atenção à alimentação das crianças, principalmente em famílias afetadas pela perda da produção de alimentos.
Em caso de enchentes ou deslizamentos
Siga as orientações da Defesa Civil e deixe as áreas de risco quando houver recomendação de evacuação.
Evite contato com a água e a lama das enchentes. Se houver contato, lave a pele com água limpa e sabão.
Descarte alimentos e medicamentos que tiveram contato com a água da enchente.
Procure atendimento de saúde se apresentar febre, dor muscular ou outros sintomas após o contato com a água de enchentes.
Em caso de calor extremo
Beba água com frequência, mesmo sem sentir sede, salvo orientação médica em contrário.
Evite a exposição prolongada ao sol e prefira realizar atividades ao ar livre nos horários mais frescos do dia.
Redobre os cuidados com crianças, pessoas idosas e pessoas com doenças crônicas.
Nunca deixe crianças ou animais sozinhos dentro de veículos.
Se trabalha ao ar livre, faça pausas frequentes em locais frescos ou com sombra e mantenha-se hidratado.
Em caso de aumento de dengue, Zika ou chikungunya
Elimine a água parada em pneus, vasos, calhas e outros recipientes pelo menos uma vez por semana.
Mantenha caixas-d'água e reservatórios bem tampados.
Procure uma unidade de saúde se apresentar febre, dor no corpo, dor atrás dos olhos ou manchas na pele.
Gestantes com suspeita de dengue, Zika ou chikungunya devem procurar atendimento de saúde o mais rápido possível.
Importante: Em caso de problemas de saúde relacionados a eventos climáticos, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Em situações graves ou de emergência, procure o serviço de urgência mais próximo ou ligue para o SAMU (192). Em situações de desastre, siga as orientações da Defesa Civil do seu município e do Corpo de Bombeiros. Em caso de risco imediato, ligue para a Defesa Civil (199) ou para o Corpo de Bombeiros (193).
Resposta do SUS
O Ministério da Saúde organiza sua atuação em três frentes complementares:
- Adaptação de longo prazo: guias e planos, como o Plano Setorial de Saúde do AdaptaSUS, orientam estados e municípios na identificação de riscos climáticos e no fortalecimento dos serviços de saúde, contribuindo para preparar o SUS para os impactos das mudanças do clima.
- Preparação para emergências: planos de contingência estabelecem medidas para situações como secas, estiagens, chuvas intensas e emergências relacionadas a barragens, além de definir responsabilidades e orientar a atuação dos diferentes níveis de gestão em cada etapa da emergência.
- Vigilância e resposta aos impactos na saúde: reúne ações para identificar, monitorar e reduzir os riscos à saúde durante eventos climáticos extremos. Inclui a vigilância de doenças relacionadas à água contaminada, especialmente em situações de seca e enchentes, e as ações do Vigidesastres, que envolvem preparação, monitoramento, alerta, comunicação, resposta e reabilitação diante de emergências em saúde pública decorrentes de desastres.