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Pemope e o protagonismo feminino na conservação do peixe-boi-marinho
Oficinas de amigurumi, por exemplo, vão além da geração de renda e de uma estratégia de mobilização no monitoramento do peixe-boi-marinho - Foto: Divulgação/CNPT
A conservação do peixe-boi-marinho no Brasil vem ganhando novos contornos a partir de iniciativas que unem ciência, gestão pública e conhecimentos tradicionais. É nesse contexto que o projeto de monitoramento participativo, o Pescadores e Pescadoras Monitores de Peixe-Boi-Marinho (Pemope), um modelo de gestão e monitoramento articulado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), destaca-se como um protocolo de referência na proteção da espécie, e visibiliza o protagonismo comunitário, com destaque para a presença e atuação feminina nas comunidades tradicionais costeiras.
Estruturado a partir de ações integradas entre centros nacionais de pesquisa e conservação do ICMBio, como de Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT), Mamíferos Aquáticos (CMA) e Biodiversidade Marinha do Nordeste (CEPENE), além de unidades de conservação (UCs) federais, como as Áreas de Proteção Ambiental (APA) da Costa dos Corais e do Delta do Parnaíba, no Nordeste do país, o Pemope nasce da valorização de um conhecimento essencial: o olhar cotidiano de pescadores e pescadoras sobre o território.
Desde a sua concepção, em 2019, o programa trabalha com uma lógica metodológica simples e, de acordo com dados obtidos, também eficiente, pois aproveita as atividades diárias de pesca e deslocamento nas comunidades para registrar a ocorrência do peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). Por meio de planilhas adaptadas à realidade local, com linguagem acessível e elementos visuais e/ou mesmo pelo envio de áudios via aplicativos de mensagem, pescadores e marisqueiras informam dados como número de indivíduos avistados, comportamento e condições ambientais.
Os resultados obtidos nos últimos anos têm demonstrado a eficácia do protocolo, especialmente por se tratar de uma metodologia de baixo custo, alta replicabilidade e grande potencial para geração de dados em áreas onde historicamente há lacunas de informação.
A aplicação desse modelo de monitoramento iniciada na Reserva Extrativista (Resex) Baía do Tubarão, no Maranhão, fortalece e amplia uma tradição da década de 90, na comunidade da Ilha do Gato, onde o engajamento comunitário tem mantido viva a agenda de conservação da espécie. É nesse cenário que o protagonismo feminino se revela não apenas como componente social, mas como eixo estruturante do Pemope. De modo geral, por meio das mulheres, marisqueiras e pescadoras, àquelas que já atuam e exercem papel central na organização comunitária - líderes, mobilizadoras e articuladoras que incentivam a participação coletiva - promovemos um diálogo intergeracional nas UCs com o objetivo de fortalecer o engajamento nas ações de conservação promovidas pelo ICMBio.
A participação das mulheres se mostra eficaz e efetiva especialmente nas ações voltadas à geração de renda, um dos pilares mais transformadores do Pemope. A partir de oficinas de amigurumi (uma técnica de crochê) para confecção de peças inspiradas no peixe-boi-marinho e no universo costeiro, elas encontram uma nova forma de valorização cultural e econômica. A primeira etapa da oficina aconteceu em 2025, na Ilha do Gato, e a iniciativa ultrapassou expectativas: os produtos confeccionados ganharam visibilidade dentro e fora da Resex. Os resultados das artesãs foram apresentados em feiras, seminários, intercâmbios e espaços institucionais, com destaque para 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em novembro do último ano
O que começou como uma oficina se transformou em um ciclo virtuoso de autonomia. Neste ano, 2026, as marisqueiras e pescadoras da comunidade da Ilha de Carrapatal, no Piauí, tiveram oportunidade de receber a oficina de amigurumi. Na ocasião, quem antes foi aluna passou a atuar como instrutora, levando a técnica e a mensagem da conservação para outras marisqueiras e pescadoras da própria Reserva Extrativista.
Para a analista ambiental que atua no CNPT/ICMBio, Anna Karina, esse movimento evidencia que conservar também é gerar oportunidades. “O Pemope fortalece e amplia o papel das mulheres como agentes de transformação. Há relatos que essas oficinas, por exemplo, oportunizam não apenas a geração de renda, não apenas uma estratégia de mobilização no monitoramento do peixe-boi marinho, mas retratam uma forma de terapia. Esse é um projeto que agrega outros valores para além do monitoramento” destaca.
Saiba mais
Nos últimos anos, o Pemope também passou a dialogar com novas tecnologias e abordagens científicas. Um exemplo recente é a expedição “Saberes e Sons”, realizada na APA do Delta do Parnaíba, que integrou entrevistas com pescadores e marisqueiras ao uso de drones e hidrofones para captar imagens e vocalizações da espécie. O registro inédito de um grupo de peixes-boi, incluindo um filhote, reforça a importância dessa integração entre ciência e conhecimento tradicional para ampliar o entendimento sobre populações ainda pouco estudadas, especialmente em águas turvas.
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