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Rede Trilhas conecta áreas protegidas e fortalece a conservação da biodiversidade
A Trilha da Gralha Azul, localizada na Floresta Nacional do Açungui (PR), faz parte da Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade - Créditos: Felipe Pinho
Caminhar por uma trilha é também descobrir a natureza, conhecer histórias e compreender a importância de proteger os ambientes naturais. Ao conectar florestas, montanhas, rios e comunidades, as trilhas de longo curso contribuem para a conservação da biodiversidade, aproximam a sociedade das áreas protegidas e criam oportunidades de desenvolvimento sustentável nos territórios.
Essa é a proposta da Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade (RedeTrilhas), política pública coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), pelo Ministério do Turismo (MTur) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A iniciativa integra unidades de conservação (UCs) e outras áreas de interesse ambiental por meio de rotas sinalizadas, promovendo a conectividade das paisagens e o contato responsável com a natureza.
A história da RedeTrilhas tem origem na mobilização da sociedade civil e na experiência da Trilha Transcarioca, no Rio de Janeiro. Para Pedro Menezes, embaixador do Brasil na Namíbia e um dos idealizadores da iniciativa, o ICMBio assumiu papel central na consolidação da política pública.
“A RedeTrilhas começa como movimento da sociedade civil no Rio de Janeiro, implementando a Trilha Transcarioca por meio de mão de obra voluntária. Hoje, a instituição talvez seja o principal motor da política pública. Ela é a grande cola da política pública", explica Pedro.
A iniciativa ajudou a difundir no país, a partir dos anos 1990, o conceito de trilhas de longo curso como ferramentas de conservação. Em 2012, a sinalização com pegadas pretas e amarelas passou a ser adotada como referência, tornando-se o padrão nacional.
Segundo Carla Guaitanelle, Coordenadora-Geral de Uso Público e Serviços Ambientais do ICMBio, foi sob a liderança do Instituto que as trilhas com essa sinalização passaram a ser divulgadas pelo país e incorporadas ao Programa Nacional de Conectividade de Paisagens (Conecta).
"Isso tudo conversa com a Política Nacional de Incentivo à Visitação a UCs, que reconhece formalmente a exigência legal da conectividade de UCs por trilhas de longo curso como elemento estruturante da visitação, além de estar alinhado com o Programa Natureza com as Pessoas do ICMBio", conta Carla.
Instituída em 2018, a RedeTrilhas fortalece a articulação entre o poder público e a sociedade civil. A política é coordenada pelo MMA, Mtur e ICMBio, enquanto a Associação Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso - conhecida como Rede Trilhas - é uma entidade sem fins lucrativos criada em 2020 para apoiar sua implementação.
A parceria com o Instituto foi formalizada em 2026, com a criação do Sistema Nacional de Trilhas (Sintrilhas), que representou um avanço na institucionalização da política pública. Segundo Pedro Menezes, a mudança também responde à necessidade de integrar a política de trilhas ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação. “Então, na verdade, é uma evolução natural", conta Pedro, ao explicar o processo de consolidação da política de trilhas
Na prática, o ICMBio contribui com capacitações, orientação para sinalização e formação de equipes. Em 2024 e 2025, realizou cerca de 21 cursos de Planejamento e Manejo de Trilhas Sustentáveis, com 490 participantes, além de seis oficinas de sinalização rústica, que reuniram mais de 70 pessoas.

Conexão entre áreas protegidas e oportunidades para as comunidades
A integração das trilhas amplia as possibilidades de visitação e pode distribuir os fluxos de visitantes para além dos destinos turísticos já consolidados. A parceria entre unidades de conservação (UCs), governos e sociedade civil também favorece o compartilhamento de experiências e a adoção de práticas comuns de planejamento e manejo.
Segundo Carla Guaitanelle, “o Acordo e o Plano de Trabalho preveem como resultados esperados: dar mais densidade e significado às UCs ao integrá-las em roteiros de longo curso, fortalecer a conservação e a conectividade da paisagem (corredores ecológicos e mosaicos), atualizar dados de UCs no CNUC, capacitar equipes de trilhas e condutores e gerar emprego e renda pelo ecoturismo".
De acordo com dados do Relatório Nacional da RedeTrilhas, referentes a junho de 2026, a política reúne 22 trilhas reconhecidas por portaria do MMA e outras 14 em processo de reconhecimento. Os percursos abrangem 16 unidades da Federação, 184 municípios e 347 unidades de conservação das esferas federal, estadual e municipal. São mais de 16 mil quilômetros planejados, dos quais cerca de 7 mil já estavam sinalizados e disponíveis para uso.
Para Luciana Nogueira, diretora de comunicação da Rede Trilhas, a iniciativa tem importância tanto para a conservação quanto para a valorização das comunidades e dos territórios por onde passam os caminhos.
“As trilhas funcionam como ferramentas estratégicas de proteção ambiental: os corredores ecológicos facilitam o fluxo da fauna e a preservação de fragmentos florestais, além de engajar comunidades locais, voluntários e visitantes em práticas de educação ambiental e valorização do patrimônio natural”, comenta.
O trabalho brasileiro com trilhas de longo curso vem conquistando reconhecimento internacional. Em 2025, o Congresso Mundial de Conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) aprovou uma moção que reconhece as trilhas como ferramentas de conservação. Em 2026, a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) também reconheceu o papel dessas iniciativas na conectividade. No Brasil, o Prêmio Nacional do Turismo criou, em 2025, uma categoria específica para trilhas de longo curso.
Foz do Iguaçu recebe congresso brasileiro e panamericano
Entre os dias 5 e 8 de novembro de 2026, o Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR), recebe o 4º Congresso Brasileiro de Trilhas, o 1º Congresso Pan-Americano de Trilhas e o 3º Seminário Técnico-Científico.
Pela primeira vez, o congresso está tendo abrangência continental, reunindo gestores públicos, especialistas, voluntários, usuários de trilhas e representantes de iniciativas de turismo de natureza e de base comunitária para compartilhar experiências e discutir estratégias de conservação.
O encontro busca fortalecer parcerias, fomentar políticas públicas de ecoturismo e ampliar a cooperação internacional para a criação de corredores ecológicos e redes de trilhas integradas. O ICMBio fomenta a participação de mais de 300 pessoas, entre servidores, parceiros e representantes de comunidades, contribuindo para a capacitação das equipes e a implementação do Sistema Nacional de Trilhas (Sintrilhas).
Para Luciana Nogueira, sediar o primeiro congresso pan-americano representa uma oportunidade de ampliar a cooperação entre países e avançar na construção de caminhos integrados no continente.
Durante o congresso, também será lançado o folder Aventura boa tem final feliz, com orientações para o planejamento seguro de visitas às unidades de conservação. O material – idealizado pela Coordenação de Planejamento da Visitação (COVIS) do ICMBio – reúne recomendações para antes, durante e depois dos passeios, incluindo cuidados na escolha das atividades, preparação dos visitantes, prevenção de acidentes e procedimentos em emergências.

