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Natureza para todos: acessibilidade transforma a experiência de pessoas com deficiência em Unidades de Conservação

“Para quem não queria viver, hoje eu quero viver cada dia mais”. A frase de Leandro Queiroz resume o que pode significar o acesso à natureza para quem, muitas vezes, encontra barreiras até mesmo para ocupar os espaços públicos. Morador do Rio de Janeiro, ele conta que perdeu a visão em 2017 e chegou a não querer mais viver. Mas a oportunidade de participar da construção de um jardim sensorial no Parque Nacional do Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, ajudou a mudar sua relação com o mundo.
“Quando eu fiz esse jardim sensorial junto com o pessoal do Parque, foi uma honra, porque eu vi uma luz no fim do túnel”, conta Leandro. A experiência abriu caminho para novas possibilidades. Hoje, ele joga xadrez, mora sozinho e vê na acessibilidade uma forma de garantir que pessoas com deficiência possam ocupar espaços dos quais historicamente foram afastadas.
“Hoje nós com deficiência podemos estar em todos os ambientes, podemos estar num parque nacional, podemos estar num shopping, podemos estar num parque comum, podemos fazer o que a gente quiser”, afirma.
A participação na construção do jardim sensorial também permitiu que Leandro contribuísse diretamente para tornar o parque mais inclusivo. Com sua própria experiência, ele ajudou a criar um espaço que amplia as possibilidades de contato com a natureza para pessoas com deficiência.
“Isso mostra como nós com deficiência estamos vencendo; como nós com deficiência deixamos de ficar dentro de casa, deixamos de ficar isolados da sociedade”, relata.
Nas Unidades de Conservação (UCs) federais, iniciativas como trilhas acessíveis, jardins sensoriais, recursos de audiodescrição, sinalização em braile e cadeiras adaptadas ampliam as possibilidades de visitação e aproximam diferentes públicos da biodiversidade brasileira.
Ampliar essas possibilidades faz parte de uma estratégia mais ampla do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para democratizar o acesso às áreas protegidas. Em 2025, o Instituto lançou o Programa Natureza com as Pessoas, que organiza as ações de visitação e turismo nas unidades de conservação federais e tem, entre seus princípios, o acesso universal.
De acordo com Iara Vasco, diretora de Criação e Manejo de Unidades de Conservação (DIMAN) do ICMBio, um dos objetivos do programa é criar condições para que pessoas com deficiência possam acessar os atrativos e vivenciar as experiências oferecidas pelas unidades de conservação. “A gente está apostando muito em fortalecer o programa Natureza Com as Pessoas com esse olhar mais atento, mais cuidadoso”, afirma.
Parque Nacional do Itatiaia: natureza sem barreiras
Transformar a visitação em uma experiência possível para pessoas com diferentes deficiências exige planejamento, adaptações e atenção às características de cada ambiente. No Parque Nacional do Itatiaia, o trabalho envolve desde melhorias no Centro de Visitantes até intervenções em trilhas e cachoeiras.
Além dos recursos em braile e audiodescrição, o parque conta com melhorias que facilitam a circulação de pessoas cadeirantes entre o Centro de Visitantes, o Bosque
Sensorial e a lanchonete. A equipe também vem trabalhando no manejo de atrativos como a Trilha da Viúva Hansen, a Trilha dos Puris e a Cachoeira Acessível do Camapuã, buscando ampliar as possibilidades de visitação para pessoas com mobilidade reduzida.
Segundo o chefe do parque, Felipe Mendonça, as intervenções precisam considerar as características de uma unidade de conservação localizada em região montanhosa e os possíveis impactos ambientais. “Nem todo o parque vai ser possível transformar em acessível”, explica. Ainda assim, a equipe busca avançar nos locais onde as adaptações podem ser conciliadas com a conservação e planeja ampliar o acesso a mirantes, cachoeiras e abrigos.
O conjunto de ações já rendeu reconhecimento nacional. Em 2025, o projeto Natureza Sem Barreiras: Itatiaia Acessível venceu o Prêmio Nacional do Turismo, na categoria Equidade, Diversidade e Inclusão no Turismo.
No mesmo ano, o parque realizou a primeira edição da Corrida Caminhos Acessíveis, voltada à participação de pessoas com deficiência em atividades esportivas. Uma nova edição da corrida está prevista para novembro desse ano, com dois trajetos e participação de pessoas com diferentes deficiências.
Parque Nacional do Iguaçu: acessibilidade para sentir e vivenciar as Cataratas
Conhecer de perto as Cataratas do Iguaçu, sentir a força das quedas d'água e perceber o ambiente são experiências que o Parque Nacional do Iguaçu (PR) busca ampliar para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Para isso, a unidade conta com recursos como ônibus adaptados, cadeiras de rodas disponíveis no Centro de Visitantes e em Porto Canoas, rampas nos principais atrativos e elevadores nos espaços Naipi Superior e Inferior.
A unidade também foi palco do II Encontro Nacional sobre Acessibilidade em Unidades de Conservação Federais, realizado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) nos dias 15 e 16 de setembro. O evento reuniu mais de 130 participantes e representantes de 42 unidades, coordenações, núcleos e estruturas do Instituto para compartilhar experiências e discutir soluções que ampliem a inclusão nas áreas naturais protegidas.
A experiência de conhecer o parque de perto marcou Ana Paula Tonon, cadeirante e consultora de acessibilidade, que participou como cerimonialista do encontro. Durante o evento, ela compartilhou a emoção de passear pela primeira vez no Macuco Safari e conhecer as Cataratas.
“Falar sobre ações inclusivas em unidades de conservação é fundamental para mostrar que o contato com a natureza, o ‘banho de floresta’, a contemplação em si também devem ser direitos de todos. É saúde!”, destacou Ana Paula.
Para Iara Vasco, o encontro permitiu conhecer soluções de diferentes complexidades, desde adaptações desenvolvidas pelas próprias equipes até o uso de tecnologias assistivas – como a NarraAI, ferramenta apresentada no evento, que utiliza inteligência artificial para oferecer audiodescrição das Cataratas do Iguaçu.
“A gente tem experiências supersimples – por exemplo, equipes das unidades conseguiram criar soluções mais simples para permitir que pessoas com deficiência possam chegar nos atrativos – até o uso de recursos tecnológicos”, comenta Iara.

Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha: o direito de sentir o mar
Em Fernando de Noronha (PE), os recursos de acessibilidade ampliam as possibilidades de contato com o ambiente marinho. No Parque Nacional Marinho, trilhas elevadas permitem que pessoas que utilizam cadeiras de rodas acessem determinados atrativos e mirantes com seus próprios equipamentos. A unidade também disponibiliza uma cadeira Julietti e uma cadeira anfíbia, que possibilita o banho de mar com mais conforto e segurança.
Para a coordenadora de Uso Público do parque, Cintia Brazão, a acessibilidade precisa deixar de ser tratada apenas como uma boa prática e passar a fazer parte do cotidiano das unidades de conservação.
"É importante chegarmos a um nível de maturidade em que ter estruturas acessíveis para os diversos públicos e receber visitantes que fazem uso delas não sejam mais vistos como uma boa prática, mas como parte do dia a dia da unidade de conservação", recomenda.
A experiência de Fernando de Noronha mostra que a inclusão não se resume a permitir a entrada em uma unidade de conservação. É preciso criar condições para que as pessoas possam efetivamente vivenciar seus atrativos, contemplar a paisagem e estabelecer uma relação própria com a natureza.
As iniciativas desenvolvidas em Iguaçu, Itatiaia e Fernando de Noronha mostram que esse trabalho pode assumir diferentes formas, conforme as características de cada território. Em comum, reforçam que a conservação da biodiversidade também deve caminhar junto com o direito de todas as pessoas de conhecer e vivenciar os ambientes naturais. 
Ao ampliar as possibilidades de visitação, o ICMBio busca garantir que ninguém seja privado do direito de conhecer, sentir e se conectar com a natureza. Esse compromisso é coletivo, como bem resume Leandro Queiroz, citado na abertura da matéria: “Nós temos que unir força, não só as pessoas com deficiência, mas todas as pessoas”. Afinal, preservar a natureza também é construir, juntos, espaços onde todas as pessoas possam pertencer.