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Da limpeza de praias à conscientização ambiental: Unidades de Conservação atuam no enfrentamento do lixo oceânico
Além de retirar materiais do ambiente, ações coletivas e monitoramento ajudam a compreender o problema e a orientar medidas de conservação. (FOTO: Taysa Rocha)
Garrafas plásticas, embalagens, pedaços de redes de pesca e outros resíduos encontrados na areia podem contar histórias que começam muito longe dali. Transportados por rios, correntes marítimas e ventos, esses materiais percorrem grandes distâncias até alcançar praias, ilhas, manguezais e outras áreas naturais. Outros são descartados diretamente nesses ambientes por visitantes, moradores, embarcações e atividades econômicas. Independentemente da origem, esses resíduos ameaçam a biodiversidade e representam um desafio para a conservação.
Esse desafio é especialmente relevante no Brasil, onde o bioma Marinho Costeiro abrange aproximadamente 4,5 milhões de quilômetros quadrados e reúne ecossistemas como manguezais, recifes de coral, praias, dunas, restingas, estuários e ilhas.
Nas Unidades de Conservação (UCs), especialmente nas áreas marinhas e costeiras, os mutirões de limpeza são importantes aliados no enfrentamento do problema. Ao reunir servidores, voluntários, comunidades locais, pesquisadores, visitantes e parceiros, essas iniciativas retiram resíduos da natureza, sensibilizam a sociedade e fortalecem o compromisso coletivo com a proteção ambiental.
No entanto, mais do que recolher os resíduos visíveis, é necessário compreender de onde vêm, como se deslocam e por que continuam chegando. A limpeza é uma resposta imediata a um problema que também exige prevenção, monitoramento e mudanças nos hábitos de produção, consumo e descarte.
Para o lixo, não existem fronteiras
O ambiente marinho é conectado por uma extensa rede de correntes, ventos e sistemas de circulação da água. Por isso, resíduos descartados em cidades, rios, países ou embarcações podem percorrer longas distâncias antes de chegar a uma área protegida. Esse deslocamento depende de fatores como as condições ambientais, o tipo de material e a localização.
Isso significa que nem todo lixo encontrado em uma praia foi deixado por quem esteve ali. Essa constatação, porém, não diminui a responsabilidade humana: grande parte dos resíduos que chegam ao oceano tem origem em atividades realizadas em terra ou no próprio ambiente marinho.
Plásticos e outros materiais descartados inadequadamente podem permanecer no ambiente por longos períodos e se fragmentar em partículas menores. Esses resíduos também podem ser ingeridos por animais, provocar emaranhamento e ferimentos na fauna, além de comprometer paisagens, habitats e atividades que dependem da conservação desses ambientes.
Ilha da Trindade: nem mesmo as áreas mais remotas estão livres da poluição
Localizada no Atlântico Sul, a cerca de 1.100 quilômetros da costa de Vitória (ES), a Ilha da Trindade é o território insular brasileiro mais distante do continente. A ilha é gerida pela Marinha do Brasil e abriga, em seu território e entorno, duas unidades de conservação: o Monumento Natural (Mona) e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz, sob gestão do Núcleo de Gestão Integrada Grandes Unidades Oceânicas, do ICMBio.
“A presença de lixo em Trindade prova que não há fronteiras para o impacto humano no meio ambiente. A poluição marinha atinge até as regiões mais distantes do continente”, destaca Júlio Rosa, chefe do ICMBio Grandes Oceânicas.
Embora o acesso à Ilha da Trindade seja restrito e controlado pela Marinha, a região também recebe lixo marinho. A permanência no local é autorizada apenas a militares, pesquisadores, voluntários e agentes ambientais do ICMBio. Para minimizar os impactos, voluntários do Instituto monitoram os resíduos e promovem ações de educação ambiental. Entre essas iniciativas está a mobilização realizada durante a campanha do Dia Mundial da Limpeza, que reuniu cerca de 40 pessoas.
“Ações como o Dia Mundial da Limpeza nos ajudam a dar visibilidade a esse desafio global e a sensibilizar para a urgência de uma melhor gestão e redução dos resíduos gerados por nós, humanos. Até as unidades de conservação marinhas de altíssima relevância ambiental, como o Parcel das Tartarugas, na Ilha da Trindade, são diretamente atingidas por esse tipo de poluição”, afirma Júlio Rosa.
Alteração do registro geológico da Terra
Entre os materiais recolhidos nas praias, predominam cordas, cabos náuticos e itens plásticos de diferentes origens, transportados até a ilha pelas correntes marinhas. A exposição ao sol e a ação das ondas contribuem para a fragmentação desses resíduos em partículas menores, os microplásticos, que se misturam à areia, a fragmentos de corais e a restos de organismos marinhos.
Esse material pode se combinar e, sob determinadas condições, formar os plastiglomerados, conhecidos como “rochas plásticas”. No Brasil, o fenômeno foi identificado pela primeira vez em 2019, na própria Ilha da Trindade. A ocorrência evidencia como a poluição causada pelas atividades humanas pode deixar marcas no registro geológico do planeta. 
“Ocorre um aumento de temperatura que causa o derretimento desse plástico. Ele se incorpora ao material da praia, formando um material rígido”, explica a geóloga Fernanda Avelar Santos. Essas formações podem alcançar camadas mais profundas do solo, inclusive aquelas utilizadas pelas tartarugas para a postura de ovos.
Limpar, registrar e monitorar
A retirada de resíduos é uma etapa fundamental, mas os resultados dessas ações ganham ainda mais relevância quando acompanhados de registros detalhados. Identificar os materiais encontrados, contabilizar os itens, classificá-los por categoria e registrar o peso e o local da coleta são medidas que transformam um mutirão em uma fonte de informações para a conservação.
O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, por exemplo, desenvolve um programa de monitoramento de resíduos sólidos nas ilhas do arquipélago. Entre 2018 e 2024, foram recolhidos 546 kg de resíduos, entre plásticos, vidros, metais, borrachas, madeira processada, materiais de pesca e isopor.
A iniciativa prevê três coletas anuais, com triagem, classificação e pesagem dos materiais. O objetivo é compreender a dinâmica de chegada dos resíduos à região e desenvolver estratégias de sensibilização do público e de educação ambiental.
Esse acompanhamento permite identificar os resíduos mais frequentes, observar mudanças ao longo do tempo e investigar possíveis fontes de poluição. Quando realizados de forma contínua e padronizada, os registros também ajudam a avaliar os resultados das medidas adotadas.
Quando a mobilização transforma o cuidado em ação
A participação de moradores, pescadores, trabalhadores do turismo, estudantes, organizações locais e visitantes aproxima as ações de conservação da realidade de quem vive e trabalha nesses territórios. Essa colaboração favorece a troca de conhecimentos, amplia a conscientização ambiental e fortalece o vínculo da sociedade com as áreas protegidas.
Em setembro, essa mensagem ganhou visibilidade com o World Cleanup Day, ou Dia Mundial da Limpeza, celebrado anualmente em 20 de setembro. A mobilização internacional incentiva governos, organizações, empresas, escolas e cidadãos a promover ações de limpeza e a enfrentar os desafios relacionados aos resíduos.
O cuidado com o ambiente, no entanto, não precisa ficar restrito a uma data ou a uma grande campanha. Mutirões realizados ao longo do ano, associados à educação ambiental e ao monitoramento, contribuem para manter a mobilização e fortalecer as ações de conservação.
Nas Unidades de Conservação, esse envolvimento tem um significado especial: proteger praias, ilhas e ambientes costeiros também significa preservar áreas de reprodução, alimentação e abrigo de inúmeras espécies, além de manter os benefícios que esses ecossistemas oferecem à sociedade.

A responsabilidade começa antes de o lixo chegar ao mar
Embora os mutirões sejam essenciais para remover resíduos que já chegaram à natureza, a prevenção é decisiva para evitar que o problema se repita. Reduzir o consumo de produtos descartáveis, reutilizar materiais, separar recicláveis, descartar corretamente o lixo e respeitar as orientações das áreas visitadas são atitudes que ajudam a reduzir a pressão sobre os ecossistemas.
Quem frequenta praias, rios, ilhas e Unidades de Conservação pode contribuir levando de volta os próprios resíduos, evitando deixá-los em locais sem coleta e comunicando às equipes gestoras situações que representem riscos ambientais. Nas áreas costeiras, também é importante dar destinação adequada a linhas, anzóis, redes e outros materiais utilizados na pesca.
Empresas, gestores públicos e setores produtivos também têm papel fundamental na prevenção, com medidas que aprimorem a gestão de resíduos, ampliem a coleta e a reciclagem e reduzam o descarte inadequado.
O lixo transportado por correntes marinhas e ventos evidencia que a poluição não respeita as fronteiras de municípios ou Unidades de Conservação. Já os resíduos descartados diretamente pelas pessoas mostram que parte do problema pode ser evitada com atitudes responsáveis.
Cada mutirão representa uma oportunidade de recuperar um ambiente, mobilizar pessoas e produzir conhecimento. Mas o resultado mais duradouro é aquele que permanece depois da última coleta: a compreensão de que a natureza não deve ser responsável por absorver aquilo que a sociedade descarta.
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