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As cotas são consideradas um “caminho rápido”1 para se alcançar a paridade de gênero na política, porque buscam a igualdade imediata de resultados. Elas partem da ideia de que as mulheres, como minoria historicamente marginalizada em termos políticos, têm direito a essa reparação na forma de uma ação afirmativa de efeitos imediatos. A adoção de cotas representa, portanto, uma afirmação de que não é justo que a minoria sub-representada espere indefinidamente até que as relações sociais e culturais de gênero se alterem a ponto de possibilitar o igual ingresso de mulheres e homens na política, ou que os atores dominantes do campo político (os homens) se disponham a dividir seu poder com as mulheres. Trata-se de uma compensação que necessita ser implementada devido à existência de obstáculos estruturais na sociedade em geral e no campo político, em particular, que limitam a participação das mulheres na política institucional.
A América Latina é uma das regiões que mais implementaram cotas no mundo, sendo que a Argentina foi o primeiro país a fazê-lo, em 1991. No mesmo ano, o PT (Partido dos Trabalhadores) instituiu uma cota de 30% de mulheres na direção partidária, sendo seguido por outros partidos como o PDT, o PV e também pela Central Única dos Trabalhadores. Em 1997, foi promulgada a lei de cotas de gênero no Brasil (Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997), que estabeleceu um percentual mínimo de 30% e máximo de 70% para cada sexo na lista dos partidos políticos que lançarem candidatos nos âmbito municipal, estadual e federal.
Embora as cotas tenham se mostrado eficazes para aumentar o número de mulheres parlamentares eleitas em muitos países, o mesmo não aconteceu no Brasil. Os dados das tabelas abaixo mostram o baixo aumento no percentual de mulheres candidatas à Câmara Federal (tabela 1) e o pequeno número de eleitas (tabela 2), não se tendo chegado até o presente momento a 10% do total de 513 parlamentares da Câmara Federal.
Veja Tabelas
Tabela 1 - Evolução do número de candidatas/os a Deputada/o Federal - 1998- 2010
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Feminino |
% |
Masculino |
% |
TOTAL |
|
1998 |
353 |
10,3 |
3064 |
89,66 |
3417 |
|
2002 |
490 |
11,4 |
3806 |
88,55 |
4298 |
|
2006 |
628 |
12,7 |
4328 |
87,3 |
4956 |
|
2010 |
933 |
19,1 |
3954 |
80,9 |
4887 |
Tabela 2 - Evolução do número de mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados – 1934-2010
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Ano da Eleição |
Câmara dos Deputados |
|
1934 |
1 |
|
1946 |
0 |
|
1950 |
1 |
|
1954 |
3 |
|
1958 |
2 |
|
1962 |
2 |
|
1965 |
6 |
|
1970 |
1 |
|
1974 |
1 |
|
1978 |
4 |
|
1982 |
8 |
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1986 |
26 |
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1990 |
29 |
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1994 |
32 |
|
1998 |
29 |
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2002 |
42 |
|
2006 |
46 |
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2010 |
45 |
Fonte: Pinheiro, 2007 , p. 68; TSE.
A baixa eficácia das cotas no Brasil se deve, em grande parte, aos seguintes fatores:
i) a inexistência de punições ao não cumprimento, pelos partidos, do percentual estabelecido para mulheres;
ii) a estruturação do sistema eleitoral brasileiro, com sistema de votação de lista aberta, isto é, eleitores votando diretamente nos candidatos, em lugar de no partido;
iii) o grau de “personalismo” prevalente na atuação dos partidos, o que tem por consequência “a dependência dos atores que tentam ingressar em relação aos chefes políticos, dificultando uma ação política mais coletiva e programática, inclusive em relação às políticas de gênero”3;
iv) os obstáculos estruturais e culturais que impedem o aumento de candidaturas femininas, tratados no item “Por que há tão poucas mulheres no poder”.
1 - Em referência à denominação em inglês “fast track”, usada por Dahlerup, Drude e Freidenvall, Lenita. “Quotas as a 'fast track' to equal representation for women: why Scandinavia is no longer the model”, in: KROOk, Mona Lena e CHILDS, Sarah. Women, gender, and politics: a reader. New York: Oxford University Press, 2010, pp.175-182.
2 - PINHEIRO, Luana S. Vozes femininas na política: uma análise sobre mulheres parlamentares no pós-Constituinte. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2007.
3 - Araújo, Clara. “Partidos políticos e gênero: mediações nas rotas de ingresso das mulheres na representação política”, in: Revista de Sociologia e Política, nº 24, Curitiba, junho de 2005.